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Correio da Manhã

Sociedade
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Recluso de Setúbal ensina português em prisão para estrangeiros

A esperança de melhorar a conta bancária e o envolvimento com o tráfico de cocaína transformaram um recém-graduado em electrónica de Palmela, distrito de Setúbal, em professor de português na penitenciária para estrangeiros do estado de São Paulo, Brasil.
26 de Maio de 2012 às 11:05
recluso dá aulas de português, Brasil
recluso dá aulas de português, Brasil FOTO: d.r.

Aos 27 anos, Luís Felipe Francisco Gomes dá aulas de português a reclusos nigerianos e sul-americanos na penitenciária Cabo PM Marcelo Pires da Silva, em Itaí (interior de São Paulo), conhecida como "Torre de Babel" devido à convivência de dezenas de línguas.

"Para quem fala inglês como primeira língua é mais difícil [aprender português], pois a gramática inglesa é mais simples", conta Gomes. Mas os alunos empenham-se nas aulas para melhorar a comunicação com os agentes penitenciários, colegas de cela e advogados.

A aula de Gomes não se restringe ao idioma. "Tem de começar pela história, a explicação da razão de se falar português aqui no Brasil", explica o preso, que percorreu o mesmo caminho do idioma mais de 500 anos depois da chegada do primeiro português à América.

Em Palmela, no início de 2009, Gomes vivia a sete quilómetros da praia com a mãe, então doente, e estava desempregado após ter terminado o curso de electrónica numa fábrica de montagem de automóveis. "Estava num momento de sufoco quando embarquei [para o Brasil]", afirma.

Em Abril de 2009, Gomes foi capturado ao tentar viajar com cocaína para Lisboa, no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Os 3.000 euros que ganharia com o transporte transformaram-se numa condenação de seis anos e três meses de prisão no Brasil.

A cada "bom dia" e "obrigado" que ensina aos colegas da penitenciária, vê a sua pena diminuir.

No Brasil, três dias de trabalho na prisão dão direito à remissão de um dia no período de condenação.

Gomes conta que não dá somente aulas de português, mas também de história, geografia e biologia, sempre para a educação básica, com livros didácticos brasileiros. Usa o inglês que aprendeu com os pais e o castelhano que ouvia na fronteira com Espanha para ajudar na comunicação.

Antes de ser monitor, o português trabalhou como faxineiro e serviu comida na prisão. Diz gostar de ensinar, mas não pensa em seguir carreira.

"Quero voltar a Portugal, fazer um curso de engenharia domótica e trabalhar com casas inteligentes", revela.

Cerca de 60 por cento dos 1.597 dos reclusos da penitenciária de Itaí trabalham, segundo a direcção da unidade. Há as opções de confecção de uniformes, bijuterias, mostruários de jóias, pregadores, sacos de papel e bolas, além da monitoria educacional e dos trabalhos internos da prisão.

Os alocados nesses trabalhos ganham salários, depositados numa conta bancária que fica à espera do fim do cumprimento da pena.

Dentro da prisão, os reclusos podem usar até três quartos do valor recebido para comprar produtos vendidos uma vez por mês, como doces, cigarros e objectos de higiene pessoal.

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