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Correio da Manhã

Sociedade
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Roncopatia afecta vida do casal

"A maior parte das pessoas diz-me ao chegar ao consultório: "Ressono e isso incomoda o meu parceiro e a minha família", diz o especialista em roncopatia e apneia do sono, Pais Clemente, que em 2006 implementou no Hospital de S. João, no Porto, uma técnica cirúrgica inovadora.
11 de Janeiro de 2009 às 00:30
Roncopatia afecta vida do casal
Roncopatia afecta vida do casal FOTO: António Rilo

A roncopatia, estima-se, afecta 20 por cento da população, ou seja, dois milhões de portugueses, sendo que destes 800 mil sofrerão de apneia de sono – incapacidade momentânea de respirar –, afectando mais os homens do que as mulheres, sobretudo a partir dos 40 anos. A apneia pode ser mesmo mortal, porque a deficiente ventilação obriga a um maior esforço cardiorrespiratório.

"A maioria acorda fatigada e irritada e não tem o mesmo rendimento no trabalho. São estas as principais queixas de quem não dorme bem devido a este problema. Há ainda um débito sexual que está estudado, mas que o doente, por vergonha, não revela", afiançou o médico. Os acidentes na estrada podem, em alguns casos, estar co-relacionados com estes casos. "Muitos adormecem momentaneamente ao volante", reforçou.

80 POR CENTO DE SUCESSO EM CIRURGIA INOVADORA

Pais Clemente, que trouxe uma técnica cirúrgica inovadora dos Estados Unidos, em 2006, afiança que 80 por cento dos casos normais e leves são resolvidos pela cirurgia. A percentagem baixa significativamente nos casos mais graves, ficando entre os dez e os 40 por cento. A intervenção é rápida, pouco mais de cinco minutos, e ao fim de quatro semanas os efeitos são visíveis. São colocados três implantes de dois milímetros de diâmetro que vão evitar a ventilação do véu do paladar, "enrijecendo a zona e tornando os tecidos menos flácidos".

"A intervenção cirúrgica, do meu ponto de vista, é o tratamento que mais contribui para uma cura total", disse o especialista, reforçando, no entanto, que a recuperação exige esforço do doente.

SAIBA MAIS

APNEIA

A apneia obstrutiva define-se como a interrupção, durante o sono, do fluxo oral-nasal, por período igual ou superior a dez segundos.

FACTORES DE RISCO

O aumento do volume à volta do pescoço, um índice de massa corporal acima de 30 kg/m2, a presença de hábitos tabágicos e alcoólicos, o consumo de sedativos, idade a partir dos 40 anos e ser do sexo masculino são todos factores de risco.

100 DECIBÉIS

O ressonar pode variar entre os 60 e os 100 decibéis, sendo que normalmente o ser humano fala a um volume que não ultrapassa os 30.

PROFESSOR RIBEIRO DA SILVA. MÉDICO ESPECIALISTA: "PROVOCA IRRITABILIDADE"

– Porque é que as pessoas ressonam?
Ribeiro da Silva – Devido à obstrução ao nível nasal e da faringe, nomeadamente do palato. As causas são variáveis e têm a ver com a forma física, processos alérgicos ou inflamações nasais.

– Como é que afecta a qualidade de vida do doente?
– É mau do ponto de vista da qualidade do sono, com risco de obstrução respiratória, que causa posteriormente cansaço, sonolência e irritabilidade. O ruído é incomodativo e os casos de apneia podem criar sustos e aflição para quem está ao lado.

TESTEMUNHO ÂNGELO MESQUITA: "ASSUSTAVA A MINHA MULHER"

"Tinha bastantes apneias durante a noite. Não me apercebia, a minha mulher é que se queixava de que eu às vezes a assustava porque ficava sem respirar", diz Ângelo Mesquita, que há cerca de cinco anos se sujeitou a uma intervenção cirúrgica para resolver o problema de roncopatia e de apneia do sono, que durante dez anos lhe retirou qualidade de vida.

"Sentia-me cansado logo de manhã. Bastava ter um momento ‘morto’ na fábrica que ficava ensonado", recorda o industrial. "Durante as viagens, tinha de parar nas estradas para dormir. Isso acontecia, normalmente, a seguir ao almoço", acrescenta. A preocupação da esposa e o incómodo do ressonar levou-o à operação que durante algum tempo lhe resolveu os problemas. Todavia, a roncopatia regressou mais tarde, porque "aí o problema era nasal". A resolução da apneia deixa-o satisfeito porque, como tem angina de peito, podia colocá-lo em risco de vida. 

PERFIL

Ângelo Mesquita, de 55 anos, natural de Famalicão, é industrial do ramo das porcelanas, e há mais de 15 anos começou a ter episódios de apneia do sono e roncopatia.

PERTURBAÇÕES SEXUAIS EM 40 POR CENTO

A apneia do sono pode levar à diminuição da libido e à impotência sexual em cerca de quarenta por cento dos doentes, e em muitas das situações deste tipo de perturbação não são reconhecidas pelo paciente como estando associadas à doença.

A disfunção sexual pode estar relacionada com um mau funcionamento do hipotálamo-hipofisiária, com a redução dos níveis de testosterona secundária às dessaturações arteriais nocturnas.

Os estudos revelam que há uma correlação entre o índice de apneia e a impotência sexual, bem como chegaram à conclusão de que o ressonar intenso e o desinteresse sexual são causas importantes para a separação conjugal.

Ressonar Sono Ribeiro da Silva Apneia
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