Barra Cofina

Correio da Manhã

Sociedade
6

Senha de abril, usada como grito de revolta

A canção "Grândola, Vila Morena", uma das senhas da revolução de abril, foi este sábado grito de "revolta" por todo o país, numa manifestação contra as políticas de austeridade do Governo, organizada pelo movimento "Que se lixe a 'troika'".
2 de Março de 2013 às 20:11

Ainda sem números definitivos, a organização do protesto, que se estendou a cerca de 40 cidades, estima que tenham sido mais de um milhão e meio as pessoas a ir para as ruas, não só em Portugal mas também em algumas cidades do mundo, gritar "basta" de austeridade e pedir a "demissão" do Governo de Passos Coelho.

A cantiga de José Afonso, emblemática na Revolução dos Cravos, em 1974, foi o mote do protesto e ouviu-se em Lisboa (para onde ainda não foram avançados números pela organização) e no Porto, cidade onde o movimento "Que se lixe a 'troika'" estima que terão estado 400.000 pessoas, número que cai para as 100.000 pelas contas dos "Precários Inflexíveis", um coletivo que aderiu ao protesto.

Em Lisboa, várias gerações de portugueses quiseram dizer que "está na hora de mudar" e que "o Governo deve ir para rua". Aos 72 anos, Camilo Cavalheiro, reformado, participou pela primeira vez numa manifestação, porque sente que "o importante é mostrar o descontentamento para ver se este Governo muda".

Nos cartazes das ruas da capital, algum humor a par da revolta: "Prefiro cavalo na lasanha do que burros no Governo", lia-se numa cartolina envergada por um empresário, e "Passos, quando abrir a caça vais para o c.", pintou um reformado num pedaço de cartão.

No Porto, a "Grândola" foi ouvida na Praça da Batalha logo no arranque da manifestação, onde milhares de pessoas, desde crianças a idosos, uniram vozes e gritaram "Que se lixe a 'troika', o povo é quem mais ordena".

Entre a multidão, eram vários os cartazes que se erguiam e muitos os recados: "Fora do Governo", "Cortes? Só se for para cortar a 'troika' às postas" ou "'Troika' nunca mais, Portugal sempre". A canção que abriu a marcha voltou a ouvir-se na Avenida dos Aliados, ao final da tarde.



Ainda a Norte - onde só Bragança não se juntou ao protesto - os cravos voltaram às ruas de Braga pelas mãos dos milhares de manifestantes que exigiram a "saída do Governo" e se emocionaram ao lembrar que "não foi para isto" que lutaram. De punho erguido, entoaram-se cânticos "anti-troika", apelaram à "chacina política", partilharam histórias, choraram e cantaram.

Em Vila Real, o principal alvo dos gritos foi o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, candidato pelo distrito transmontano nas últimas legislativas.

No meio do povo, um pequeno coelho enforcado chamava a atenção. Albertino Túbio, mecânico de 43 anos, trazia ao ombro uma vara com um pequeno coelho, de peluche e cor-de-rosa, pendurado, e explicou que "queria trazer o verdadeiro", lamentando não ter sido possível.

No Alentejo, Setúbal foi das cidades que mais pessoas juntou. "Parem de nos roubar", "Solta a Grândola que há em ti", "Revolução dos escravos" foram algumas das palavras de ordem exibidas em centenas de cartazes que alguns manifestantes trouxeram para esta ação de protesto, que foi engrossando à medida que ia percorrendo a Avenida Luísa Todi.

A imagem repetiu-se de Norte a Sul, passando por Portalegre, Évora, Faro, Beja, Leiria, Aveiro, Viseu, Guarda, Viana do Castelo, Santarém, Castelo Branco, Coimbra, Madeira e Açores.

O protesto viajou ainda para algumas cidades europeias, como Paris, Madrid, Londres, Barcelona e Budapeste.

Na capital francesa, por exemplo, que reúne uma grande comunidade portuguesa, os manifestantes quiseram explicar os motivos que os levaram a emigrar e juntar-se a um protesto sobre as condições de vida no país para onde pretendem voltar um dia.

senha 25 de abril Grândola manifestação protesto
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)