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Correio da Manhã

Sociedade
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"Só encoraja a emigrar quem não conhece a história da emigração"

A ex-secretária de Estado da Emigração, Manuela Aguiar, disse à Lusa que só aconselha as pessoas a emigrar quem desconhece a história da emigração em Portugal, mostrando-se impressionada com a quantidade dos que deixam o país.
26 de Junho de 2012 às 15:19
 Manuela Aguiar, ex-secretária de Estado da Emigração
Manuela Aguiar, ex-secretária de Estado da Emigração FOTO: d.r.

"Só encoraja os portugueses a emigrar quem não conhece a história da emigração portuguesa. Recomendar aos portugueses que emigrem é absolutamente desnecessário porque se precisarem, sabem como emigrar, sempre souberam. O que é dramático é que Portugal tenha que voltar a ser um país de emigração por razões económicas, porque as pessoas estão pobres e não têm modo de vida em Portugal", disse Manuela Aguiar.

A ex-secretária de Estado falou à agência Lusa à margem do encontro mundial de luso-eleitos, que decorreu domingo e segunda-feira em Cascais, comentando o discurso de apelo à emigração do primeiro-ministro Passos Coelho e de outros membros do Governo.

Manuela Aguiar mostrou-se impressionada com o número de portugueses que anualmente estão a deixar o país e que o Governo estima entre 120 mil a 150 mil.

"Num país com a tradição migratória portuguesa, era evidente que à mínima crise os portugueses voltariam a sair, mas ninguém esperava a crise que vivemos e eu não esperava que os números atingissem esses patamares", disse.

Manuela Aguiar, que ocupou a pasta da Emigração entre 1980-1987, sublinhou que "verdadeiramente a emigração nunca parou", considerando que na década de 90, quando a saída de portugueses se processava a "ritmos muito superiores" aos da década de 80, os governos, independente do partido, "negavam que houvesse emigração".

"Os [actuais] números da emigração são espantosos e ninguém sabe ao certo, podem ser muitos mais. Quando vemos que há mais de 100 mil portugueses em Luanda, que no Brasil os vistos emitidos são dezenas de milhar, é óbvio que a emigração está a atingir uma dimensão e volume espantosos", disse, elogiando o atual secretário de Estado por ter tido um discurso "realista" em relação ao fenómeno.

A ex-deputada contesta também o discurso de que estão a emigrar sobretudo os mais qualificados e defende que é preciso manter as novas vagas de emigrantes ligadas a Portugal.

"Há um discurso um pouco ufanista no sentido de dizer que Portugal está a perder a gente mais qualificada e que os que estão a emigrar têm todos altas qualificações. Isso não é verdade. Os que têm dificuldades, uns qualificados e outros não qualificados, estão a emigrar da mesma maneira", disse.

Para Manuela Aguiar, "existe um risco potencial" desta nova geração de emigrantes "se integrar de forma muito mais individualizada", afastando-se assim de Portugal.

"Sendo uma emigração muito jovem e não precisando de enviar dinheiro para as famílias em Portugal, será uma emigração que envia muito menos remessas e muito menos ligada ao país e às comunidades portuguesas no estrangeiro", considerou.

Por isso, defendeu, "deve ser feito um esforço no sentido de saber onde essas pessoas estão e de tentar promover o encontro entre todos esses portugueses".

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