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Substâncias químicas de lixo eletrónico aparecem em golfinhos e botos

Monómeros de cristais líquidos são componentes essenciais dos ecrãs de computadores portáteis, televisores e smartphones.

26 de fevereiro de 2026 às 01:14

Uma investigação apresentou evidências iniciais de que os monómeros de cristais líquidos (LCM) provenientes de aparelhos eletrónicos domésticos ou de lixo eletrónico (e-waste) podem acumular-se nos tecidos de golfinhos e botos, como gordura, músculos e cérebro, demonstrando a sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica.

Os monómeros de cristais líquidos (LCM) são componentes essenciais dos ecrãs de computadores portáteis, televisores e smartphones.

Dada a sua omnipresença no ambiente, estes compostos são considerados poluentes persistentes, representando uma ameaça à vida marinha que os cientistas estão ansiosos por compreender, segundo o estudo da Universidade da Cidade de Hong Kong (China), publicada na revista da ACS 'Environmental Science & Technology'.

"A nossa investigação revela que os LCM provenientes de dispositivos eletrónicos do dia-a-dia não são apenas poluentes, mas também se acumulam no cérebro de golfinhos e botos ameaçados", defendeu Yuhe He, investigador da universidade e autor correspondente do estudo.

"Este é um alerta: os produtos químicos que alimentam os nossos dispositivos estão a infiltrar-se na vida marinha, e devemos agir agora contra o lixo eletrónico para proteger a saúde dos oceanos e, em última instância, a nossa própria", frisou.

Os LCM controlam a passagem da luz através de dispositivos portáteis e ecrãs de grandes dimensões, produzindo as imagens nítidas que os consumidores esperam.

Devido à utilização generalizada destes dispositivos, estes produtos químicos foram encontrados no ar interior, no pó e até mesmo nas águas residuais, chegando eventualmente aos ambientes costeiros.

Estudos anteriores revelaram ainda que alguns LMC representam riscos para a saúde humana e para algumas espécies aquáticas.

No entanto, pouco se sabe sobre a forma como estes poluentes se movem pelas cadeias alimentares marinhas e se chegam aos predadores de topo.

Para o determinar, os investigadores analisaram amostras de tecido de golfinhos-jubarte e botos-sem-barbatana do Indo-Pacífico recolhidas entre 2007 e 2021 no mar do Sul da China, um habitat importante para estes animais marinhos ameaçados.

Os investigadores analisaram amostras de tecido adiposo, muscular, hepático, renal e cerebral de golfinhos e botos em busca de 62 LCM individuais.

A análise indica que quatro compostos foram responsáveis pela maior parte dos LCM detetados. Estudos anteriores identificaram LCM semelhantes em peixes e invertebrados consumidos por estes golfinhos e botos, o que, segundo os investigadores, corrobora a ideia de que os poluentes entram através da dieta e não diretamente da água.

A maioria dos LCM encontrados em golfinhos e botos provavelmente tiveram origem em ecrãs de televisão e de computador, com contribuições menores dos smartphones.

Além disso, embora os poluentes estivessem mais concentrados na gordura subcutânea (um tecido adiposo que armazena frequentemente contaminantes), os investigadores ficaram surpreendidos ao descobrir pequenas quantidades noutros órgãos, particularmente no cérebro, revelando potenciais riscos para a saúde, como a neurotoxicidade.

Os níveis de LCM na gordura subcutânea das toninhas mudaram ao longo do tempo, aumentando geralmente quando a utilização de ecrãs de cristais líquidos se expandiu e diminuindo nos últimos anos, à medida que os fabricantes migraram para os ecrãs LED.

Em testes laboratoriais adicionais, vários LCM comuns, incluindo os quatro principais presentes nestas amostras, alteraram a atividade genética, como a relacionada com a reparação do ADN e a divisão celular, em células de golfinhos cultivadas.

Os investigadores defenderam uma investigação mais aprofundada sobre os efeitos da poluição por LCM na vida selvagem, destacando a necessidade de medidas regulamentares urgentes e de uma melhor gestão do lixo eletrónico.

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