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Correio da Manhã

Sociedade

Transplante acaba com hemodiálise e insulina

Evitar o pesadelo da hemodiálise e das tomas diárias de insulina, que provocam grande desgaste físico e psicológico aos doentes, é o objectivo do transplante reno-pancreático. O Hospital de Santo António, no Porto, especializou-se nos últimos dez anos nesta técnica, sendo o único centro nacional a realizá-la de forma regular.
23 de Agosto de 2009 às 00:30
O responsável pelo serviço de Transplantação do Hospital de Santo António, Rui Almeida, mostrou-se satisfeito com os resultados obtidos pela unidade, tendo afirmado que se encontram ao nível da média dos centros internacionais.
O responsável pelo serviço de Transplantação do Hospital de Santo António, Rui Almeida, mostrou-se satisfeito com os resultados obtidos pela unidade, tendo afirmado que se encontram ao nível da média dos centros internacionais. FOTO: Sónia Caldas

Os resultados obtidos pelo hospital portuense colocam-no ao nível dos melhores centros internacionais. Recentemente foi feito o centésimo primeiro transplante de rim e pâncreas.

'Ao fim de um ano de transplantação temos 96 por cento de doentes vivos. Com o rim a funcionar são 95 por cento, e pâncreas, 81 por cento', revelou ao CM Rui Almeida, director da Comissão Executiva do Conselho de Transplantação.

Esta intervenção começou por se destinar exclusivamente a jovens até aos 35 anos que fossem insuficientes renais e diabéticos. 'Neste momento alargámos a idade para os 45 anos. Fizemo-lo porque há doentes com essa idade que não têm efeitos colaterais', avançou Rui Almeida. Assim, os resultados tornam-se mais gratificantes, com reais conquistas na qualidade de vida do doente. Há também critérios de carácter anatómico. O paciente deve possuir boas veias e artérias para fazer um implante. Há um local ideal para colocar o pâncreas e o rim e se nenhum desses sítios for viável não haverá indicação para a cirurgia, uma vez que as complicações podem ser maiores.

Há neste momento 40 doentes inscritos em lista de espera. 'Se fizermos vinte transplantes por ano, a nossa próxima meta, podemos dizer que em dois anos acabamos com a lista', sintetiza o responsável.

DOENTES EXIGEM GRANDE ESFORÇO NO SEGUIMENTO PÓS-OPERATÓRIO

A explicação para o Hospital de Santo António, no Porto, ser o único a fazer o transplante duplo de rim e pâncreas reside no facto de os doentes serem 'muito pesados no trabalho que dão no seguimento, aos quais é preciso ser muito dedicado', explica o director da Comissão Executiva de Transplantação, Rui Almeida.

O tempo médio de internamento é muito grande: há doentes que ao fim de uma semana podem regressar a casa, mas há outros que ficam dois meses hospitalizados. 'Mas quase todos são reinternados por pequenas complicações motivadas por infecções e algum grau de rejeição', diz Rui Almeida.

O acompanhamento médico, através de consulta, é semanal nos primeiros três meses. Posteriormente, a ida ao hospital passa a ser mensal. Quando o doente entra numa fase de estabilização, o acompanhamento passa a ser anual.

APONTAMENTOS

RAZÕES DE INSUCESSO

Primeiramente, o insucesso da intervenção pode estar relacionado com uma falha no gesto técnico. Há ainda as complicações vasculares, em que as artérias e as veias entopem. Se passadas umas horas, o enxerto não está a produzir insulina quer dizer que o pâncreas não está a funcionar bem.

LISTAS DE ESPERA

No Hospital de Santo António o tempo médio de espera para um transplante reno-pancreático é de menos de seis meses, muito menor do que os seis anos que se aguarda por um rim, ou um ano que se pode esperar por um fígado.

GESTÃO DE ÓRGÃOS

Há cinco gabinetes de gestão de órgãos: dois no Norte, um no Centro e dois no Sul. A ligação dos gabinetes promove um maior número de dadores.

O MEU CASO: MARIA CONCEIÇÃO

'ESTA CIRURGIA FOI COMO GANHAR O EUROMILHÕES'

Durante 32 anos foi diabética e há dois começou a fazer hemodiálise. Uma vida inteira cheia de tratamentos que parecem ter um fim à vista.

Há cerca de uma semana Maria da Conceição foi a 101ª doente a fazer o transplante reno-pancreático no Hospital de Santo António, no Porto. O CM falou com Maria da Conceição, de 45 anos, e constatou a esperança da doente em ter uma nova vida.

'Esta cirurgia foi como ganhar o Euromilhões. Para mim, é uma grande prenda', disse. A mulher, natural de Leiria, pensa que os tratamentos exaustivos e dolorosos psicologicamente podem ter chegado ao fim. 'Tinha de fazer hemodiálise três vezes por semana, o que representava um desgaste muito grande. Só podia comer certas coisas e estava limitada em muita coisa', confidenciou.

Maria da Conceição nunca esperou que o seu problema se solucionasse com tanta celeridade. 'Estava em lista de espera há um ano, nunca pensei que fosse tão rápido. Falavam sempre de cinco, seis anos', referiu.

Apenas com alguns dias de recuperação, mostra-se satisfeita com os resultados. 'Tem corrido tudo bem e não tenho tido dores. Sinto-me como nova'.

Agora, Maria da Conceição começará uma nova fase da sua vida. Sabe que tem pela frente muitos cuidados e restrições. 'Ainda não sei muito bem como será, mas penso que vou aprender', garantiu.

PERFIL

Maria Conceição Vieira tem 45 anos, e viu recentemente abrir-se a possibilidade de um transplante duplo do pâncreas e do rim mudar-lhe a vida. Com um filho menor de seis anos, a mulher, natural de Leiria, sente-se bafejada pela sorte e quer aproveitá-la.

DISCURSO DIRECTO

'PODÍAMOS FAZER MAIS TRANSPLANTES': Rosário Castro Pereira, Centro de Transplantação

Correio da Manhã – Há falta de órgãos para este tipo de transplantação?

Rosário Pereira – A escassez de órgão é um problema a nível mundial quer por os dadores diminuírem quer pela esperança média de vida ter aumentado. Antes era impossível transplantar um doente com 70 anos, agora é muitas vezes necessário.

– Mas tinham capacidade para fazer mais intervenções?

– Temos capacidade instalada para fazer mais transplantes em termos de recursos humanos e infra-estruturas. Temos doentes em lista activa e, portanto, em vez de fazermos os 18/20 por ano podemos fazer 30. O que se passava é que até há pouco tempo só tínhamos os nossos órgãos e a coordenação a nível nacional não funcionava.

– O transplante nestes casos é a única solução?

– Não. O grau de compatibilidade para um doente que precisa de um rim é sempre maior do que o que precisa de fígado, porque nesse caso estamos a falar de um risco de vida. No pâncreas e rim a insulina e a hemodiálise podem salvar o doente, ou seja, há alternativas.

NOTAS

ACOMPANHAMENTO

Um doente que faz o duplo transplante tem de ser seguido toda a vida. Com o tempo as consultas são mais espaçadas.

1800 TRANSPLANTES

O Hospital Santo António é um grande centro de transplante renal, com 1800 realizados, dos quais 120 este ano.

TABACO PREJUDICA

O tabagismo, o consumo de álcool e uma vida sedentária são tudo causas para que a intervenção seja mal sucedida.

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