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Correio da Manhã

Sociedade
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Vacinar crianças contra a Covid-19 em Portugal gera divisão entre especialistas

Governo quer meio milhão de jovens vacinados até meados de setembro.
Ana Maria Ribeiro 25 de Julho de 2021 às 01:30
Direção-Geral da Saúde ainda não tomou posição definitiva  sobre vacinação dos mais novos
Direção-Geral da Saúde ainda não tomou posição definitiva sobre vacinação dos mais novos FOTO: Getty Images
O primeiro-ministro, António Costa, quer 570 mil crianças e jovens entre os 12 e os 17 anos vacinados contra a Covid-19 até meados de setembro, mas a questão está longe de ser consensual. Pelo menos para a faixa etária dos 12 aos 15 anos. Um grupo de trabalho constituído por profissionais de saúde que trabalham na área pediátrica considera que, nessas idades, só as crianças com doenças associadas deviam ser vacinadas, em grande parte por causa do risco de contraírem miocardite – inflamação do músculo do coração –, que se observou em algumas crianças após a toma da vacina.

Mas até entre pediatras há quem discorde desta posição. Alberto Caldas Afonso, diretor do Centro Materno-Infantil do Norte, diz que acompanhou, nos últimos seis meses, 15 crianças infetadas com Covid-19, algumas das quais chegaram a estar internadas em Cuidados Intensivos. "Muito maior do que a miocardite, cuja incidência é muito diminuta, é o risco de desenvolver a síndrome inflamatória multisistémica, muito associada à infeção provocada pelo SARS-CoV-2 em crianças a partir dos 12 anos, e que tem um efeito gravíssimo, nomeadamente sobre o coração", explica o especialista, que integra uma equipa europeia de investigação para a vacinação contra o novo coronavírus em crianças. "A discussão poder-se-á colocar em crianças abaixo dos 12 anos, mas acima dos 12 anos, esta é, quanto a mim, uma não questão. É para vacinar", conclui.

Uma opinião partilhada por Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. "Se é verdade que numa fase inicial não vacinámos crianças, agora, à escala global, vai havendo mais experiência e os dados dizem-nos que a vacina é segura", disse ao CM, lembrando que a Comissão Técnica de Vacinação, "que é a entidade que deve fazer a fundamentação técnica sobre a matéria", ainda não tomou posição definitiva sobre este assunto. A própria Direção-Geral da Saúde pediu duas semanas para avaliar o tema.

PORMENORES
Realidade europeia
Maioria dos países da União Europeia já decidiu vacinar jovens acima dos 12 anos. Na sexta-feira, a Agência Europeia de Medicamentos aprovou a vacina da Moderna para essa faixa etária.

Duas vacinas para jovens
Neste momento há duas vacinas aprovadas para os mais jovens nos países da União Europeia: além da vacina da Moderna, no passado mês de maio já tinha sido aprovada a da Pfizer.

OMS fala de prioridades
Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que imunizar as crianças contra a Covid-19 não deve ser uma prioridade, sobretudo tendo em conta a escassez de doses disponíveis no Mundo.

Carta com mais de três dezenas de signatários
Mais de 30 profissionais de saúde, incluindo pediatras e farmacêuticos, assinaram uma carta a pedir cautela na vacinação de crianças e jovens, alertando para a possível exposição a efeitos perigosos.

Agências são "idóneas e muito rigorosas"
Caldas Afonso diz que colocar em dúvida a vacinação dos jovens dos 12 aos 15 anos é questionar as agências reguladoras de medicamentos que aprovaram as vacinas e que são "idóneas e rigorosas".

"Claro que vacinaria os meus filhos!"
Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública, diz que não hesitaria em vacinar os filhos. "Os meus filhos são pequenos: têm quatro, seis e oito anos. Mas, caso estivessem numa faixa etária abrangida, é claro que os vacinaria!", garante.
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