Quando o pão é perigoso

Pão, bolachas, bolos, massas, cerveja. A lista continua, repleta de alimentos irresistíveis para a maior parte das pessoas, mas proibidos para os celíacos, um grupo a quem foi diagnosticada a intolerância ao glúten, proteína encontrada no trigo, aveia, centeio ou cevada. Para estes, os rótulo dos produtos têm de ser lidos com redobrada atenção em busca das frases mais temidas – “pode conter glúten” ou “contém glúten”.

25 de novembro de 2007 às 00:00
Quando o pão é perigoso Foto: Duarte Roriz
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A leitura atenta aos rótulos é essencial para conseguir manter uma dieta que se quer livre da proteína, única forma de afastar os efeitos negativos de uma doença ainda pouco conhecida dos portugueses e que afecta cerca de um por cento da população europeia.

Para quem sofre com este problema, a dieta é o único tratamento, garantia de uma vida livre de lesões intestinais. Tarefa que não é fácil ou barata. “O glúten não está presente na fruta, vegetais, leite, carne ou peixe, mas existe ou pode estar presente nos restantes alimentos, desde a gelatina ao ketchup”, explica ao CM Mónica Cardoso, dietista da Associação Portuguesa de Celíacos (APC). Apesar de existirem alternativas livres de glúten, estas não são acessíveis a todos. “Há, por exemplo, massa sem glúten, pão ou bolachas, mas o preço é bem diferente”, avança a mesma fonte.

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Vejamos então: em algumas superfícies comerciais um pão de forma normal custa 1,24 euros, valor que passa para os 4,64 euros se não tiver glúten. Já um pacote de bolachas de 1,50 euros chega aos 5,24 euros quando não tem na sua composição o alimento que faz mal aos celíacos. Mais gritante é a diferença de preço de um simples pacote de esparguete: bastam 29 cêntimos para o comprar. Sem glúten, porém, custa 6,34 euros.

Uma diferença que levou a APC a fazer uma petição, assinada até ao momento por mais de cinco mil pessoas, a entregar na Assembleia da República, e que pede “para que os alimentos sem glúten específicos para os celíacos sejam equiparados aos medicamentos e possam assim ser incluídos na declaração de IRS na rubrica de despesas de saúde com IVA a cinco por cento”.

A imposição da dieta, com implicações directas na bolsa dos doentes, significa mais do que renunciar a alguns pratos, exigir que os doentes tenham bem ciente o que podem ou não comer ou a habituação a novos sabores. “Há fases muito complicadas, como a infância ou a adolescência. Porque, em alguns casos, a doença não provoca sintomas, apesar de causar as lesões no intestino”, refere a dietista.

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Pouco conhecida da população em geral, a doença celíaca passa também despercebida a muitos médicos. A sintomatologia é vaga e, em muitas situações, o único sintoma é a anemia, ou o cansaço extremo.

INTOLERÂNCIA E ALERGIAS TÊM SINTOMAS SEMELHANTES

São diferentes, apesar de muitas vezes confundidas. De um lado as intolerâncias alimentares, como a doença celíaca, do outro as alergias a determinados alimentos. Distintas quanto à forma – na primeira, a reacção adversa resulta da má digestão ou absorção de um alimento, enquanto na segunda o alimento é identificado pelo organismo como agressor e combatido como tal, através de uma reacção imunológica –, são semelhantes nos sintomas, como vómitos, dores abdominais, diarreias. No caso das intolerâncias, nem só o glúten provoca problemas e aos doentes celíacos juntam-se outros, vítimas de reacções provocadas, por exemplo, pelo leite, incapazes de tolerar a lactose por não possuírem uma enzima capaz de a digerir. Há ainda aqueles que experimentam problemas de saúde devido à intolerância de aditivos, usados para intensificar o sabor dos alimentos, ou de conservantes, que se destinam à sua preservação. Para os celíacos, o grande inimigo atende pelo nome de glúten e é responsável por uma intolerância que pode ter consequências muito graves. Presente em vários cereais, não é mais do que um conjunto de proteínas que não se dissolvem na água. Porque a sua composição é diferente consoante o cereal, diferentes são também os efeitos adversos nos doentes, obrigados a eliminar da dieta agressores como o centeio ou a cevada.

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ATENÇÃO REDROBRADA AOS RÓTULOS

Funcionam como o bilhete de identidade dos alimentos e é neles que é contida toda a informação necessária para identificar os componentes do produto. Para os celíacos, assim como para qualquer pessoa com intolerância ou alergia alimentar, a leitura atenta dos rótulos é um gesto vital. No entanto, interpretar a informação nem sempre é tarefa fácil. De acordo com um inquérito realizado pela agência de segurança alimentar britânica, os consumidores gostariam de ver o trabalho facilitado, pedindo a existência de um código que permitisse uma mais rápida visualização dos ingredientes capazes de provocar problemas. Por cá, os especialistas defendem que a maioria dos portugueses não sabe ler os rótulos – os dados neles contidos não são claros para quem compra –, sendo necessárias campanhas de esclarecimento sobre os alimentos mais saudáveis.

NÃO PODE COMER

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Alimentos com glúten:

- Pão e farinha de trigo, cevada, centeio ou aveia;

- Bolos, pastéis, tartes e demais produtos de pastelaria;

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- Bolachas e biscoitos;

- Massas italianas e sêmola de trigo;

- Bebidas com malte;

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- Produtos manufacturados que tenham na sua confecção qualquer uma das farinhas já enumeradas;

- Bebidas fermentadas a partir de cereais, como cerveja, alguns licores, etc.

PODE COMER

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Alimentos sem glúten:

- Leite e derivados;

- Carne;

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- Peixe;

- Ovos;

- Verduras, hortaliças e tubérculos;

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- Frutas;

- Arroz, tapioca e derivados;

- Legumes;

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- Açúcar e mel;

- Azeite, manteigas;

- Café em grão ou moído;

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- Vinho e bebidas espumantes;

- Frutos secos naturais;

- Sal, vinagre de vinho e especiarias.

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CUIDADOS ACRESCIDOS

A doença celíaca é uma intolerância permanente ao glúten, uma proteína que se encontra, de forma natural, em cereais como o trigo, cevada, centeio, triticale, trigo vermelho e kamut. Apesar de raros, existem no mercado alguns produtos sem glúten.

LESÕES NO INTESTINO

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Se não for tratada, a doença provoca danos no intestino e pode levar ao aparecimento de problemas mais graves, como tumores ou doenças auto-imunes. O único tratamento disponível actualmente consiste numa dieta isenta de glúten, seguida durante toda a vida.

MILHARES DE DOENTES

A a doença crónica intestinal mais comum, afectando uma em cada 150 pessoas. Em Portugal, os números conhecidos dão conta de cinco a seis mil pessoas diagnosticadas, apesar de muitas mais viverem com a doença celíaca sem saberem, já que em muitos casos esta não apresenta sintomas.

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