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A nova vida de Lakshmi

Foi preciso um mês de intenso planeamento para que a equipa composta por mais de 35 médicos e enfermeiros indianos se lançasse na arriscada aventura de devolver a normalidade à pequena Lakshmi Tatma, que nasceu com quatro braços e quatro pernas. A operação de separação de 27 horas iniciada na manhã de terça-feira foi um sucesso, o mesmo que se espera na recuperação da criança de dois anos que, segundo o último boletim médico, se encontra estável, mas ainda não livre de perigo.
10 de Novembro de 2007 às 00:00
A nova vida de Lakshmi
A nova vida de Lakshmi FOTO: d.r.
A operação foi inédita na Índia. O objectivo era libertar a menina de parte do corpo de uma gémea que não se desenvolveu normalmente. “Nestes casos, trata--se de um gémeo não viável”, explicou ao CM o cirurgião pediátrico Gentil Martins. “Pode ser mais ou menos completo, maior ou mais pequeno, com braços e com pernas, mas não existe enquanto ser humano.” De acordo com o especialista, o processo de formação é em tudo idêntico ao de qualquer outro par de gémeos. No entanto, “porque a Natureza faz uns disparates que não se conseguem explicar, há um deles que não é normal e não tem viabilidade”, acrescenta.
Ainda que raras, são conhecidas várias situações que, apesar de diferentes da de Lakshmi, têm em comum a coexistência com um gémeo parasita. Em 2004, o Mundo acompanhou outro caso, desta vez de uma menina que nasceu com duas cabeças. A cirurgia de separação foi realizada aos três meses de idade, mas nem todo o empenho médico valeu a Rebeca Martinez a recuperação. Não resistir a uma hemorragia e morreu.
De acordo com os especialistas, siameses unidos pela cabeça são uma situação rara, que ocorre uma vez a cada 2,5 milhões de nascimentos. Mas mais raro é ainda quando um dos gémeos pára de se desenvolver no útero materno, como aconteceu com Rebeca e, um ano depois, com Manar Maged, uma criança egípcia de 14 meses que também nasceu com duas cabeças e foi operada, mas desta feita com sucesso.
Outros casos deste género têm sido alvo de notícia, como a situação insólita que teve lugar recentemente, também na Índia, quando um homem de 36 anos foi submetido a uma cirurgia para remoção do que os médicos acreditavam ser um tumor gigante na barriga. No entanto, Sanju Bhagat tinha no seu interior partes de cabelo, órgãos genitais, alguns membros e um maxilar, resquícios do que tinha sido um irmão gémeo que não sobreviveu, mas que acabou por acompanhar o indiano durante toda a vida.
ESPECIALISTAS UNIDOS PARA O MESMO FIM
À volta da pequena Lakshmi, no teatro de operações, uma equipa de mais de 30 pessoas deitou mãos à obra. Primeiro, os pediatras, que se encarregaram de manter intactos os órgãos vitais. Depois, os neurocirurgiões, a braços com a delicada tarefa de separar as duas colunas: a da menina e a da irmã que não se chegou a desenvolver completamente. Os especialistas que se seguiram foram os ortopédicos, com uma das missões mais importantes: a correcção da pélvis, por forma a poder suportar os órgãos internos. Finalmente, o momento que todos esperavam: a remoção dos braços e pernas do gémeo parasita.
CRIADA À IMAGEM DA DEUSA DA BELEZA
Foi no Hospital Sparsh, na cidade indiana de Bangalore, que a equipa liderada pelo cirurgião Saharan Patil decidiu avançar para a cirurgia, depois de outros especialistas terem negado à menina a possibilidade de levar uma vida normal. Patil tomou conhecimento do caso e deslocou-se à região de Bihar, junto à fronteira com o Nepal, para oferecer ajuda à família, deparando-se com a oposição dos habitantes locais, que viam na menina a reencarnação de Diwali, a deusa hindu da riqueza, fortuna, amor e beleza, que também tinha oito membros.
MENINA ESTÁ A CAMINHO DE UMA VIDA NORMAL
O caminho que a pequena Lakshmi tem a percorrer está ainda longe do fim. As 27 horas na sala de operações devolveram-lhe a possibilidade de andar, mas, para tal, serão precisos mais tratamentos e intervenções cirúrgicas, além de muita força de vontade. Os médicos admitem ainda a hipótese de vir a ter uma vida sexual normal, mas não podem ainda garantir a possibilidade de, no futuro, Lakshmi poder ter filhos. Para isso, há que deixar passar mais algum tempo e acompanhar a passagem da menina a mulher.
SAIBA MAIS
600 gémeos siameses nasceram nos últimos 500 anos, de acordo com os registos existentes, sendo 70 por cento do sexo feminino.
35 por cento dos gémeos siameses que conseguem nascer não resistem para lá do primeiro dia de vida, revelam as estatísticas existentes sobre o tema.
SIAMESES
O termo deve-se aos gémeos Eng e Chang Bunker, naturais do Sião, que nasceram unidos pelo tórax e se tornaram atracção em feiras.
SEPARAÇÃO
A separação é feita de preferência na infância, salvo excepções como a das inglesas Violet e Dayse, de 46 anos, operadas em 1955.
MARATONA CIRÚRGICA
Lakshmi tinha um caso raro de xifopagia, ou irmãos siameses cujos organismos estão unidos, mas nos quais apenas um dos gémeos se desenvolve plenamente. Ocorre num caso em 200 mil. Os médicos acreditavam que Lakshmi teria 75% de probabilidades de sobreviver à intervenção, que durou 27 horas.
EQUIPA MÉDICA
13 cirurgiões
4 anestesistas
6 enfermeiras na sala de operações
6 enfermeiras na Unidade de Cuidados Intensivos
6 técnicos auxiliares
TOTAL
35 pessoas
MAIS DADOS
DADOS
- Tem um rim saudável e outro morto, tal como a gémea siamesa. Os médicos transplantaram o órgão saudável do gémeo parasita para a criança.
- Tinha duas espinhas dorsais unidas. Os cirurgiões conseguiram separá-las.
- O aparelho genital estava deslocado para a esquerda, e foi corrigido
- A separação do sistema nervoso foi a parte mais complicada da intervenção, já que qualquer erro poderia provocar a paralisia total ou parcial da criança.
- A pélvis, demasiado larga para o corpo da pequena, foi corrigida. Foram ainda extirpados todos os órgãos e membros supérfluos, após o que foram necessárias quatro horas para fechar as feridas.
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