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Correio da Manhã

Tecnologia
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Alta tensão só ao longe

A Direcção-Geral da Saúde está a preparar uma circular informativa em que recomenda a colocação dos postes de alta tensão afastada das populações por questões de segurança. O documento reforça as últimas afirmações do ministro da Ciência e da Tecnologia, Mariano Gago, para quem a circulação eléctrica é "desagradável, provoca desconforto e perda de qualidade de vida" para os cerca de 50 mil portugueses que vivem junto aos postes de alta tensão.
21 de Abril de 2008 às 11:00
Alta tensão só ao longe
Alta tensão só ao longe FOTO: Vincent Du / Reuters

A posição do Governo e da autoridade de Saúde, contrária à instalação de cabos de alta tensão perto de casas, é para cumprir nos mais 650 quilómetros de linhas de alta tensão a construir até 2014 (ver caixa). Artur Lourenço, director coordenador da REN,sublinha que 'a empresa assume a preocupação de erguer linhas distantes das casas'. 'Razões ambientais e sociais levam-nos a afastar sempre que possível as linhas de alta tensão das povoações.' Cita mesmo o exemplo do 'desvio previsto de uma linha entre Rebordosa e Gandra, no concelho de Paredes, e a necessidade de enterrar uma linha na parte norte do concelho de Cascais'.

José Rocha Nogueira, do Departamento de Saúde Pública, que participa na realização da circular sobre linhas de transporte de energia da Direcção-Geral da Saúde, avançou ao CM que 'o trabalho expõe as últimas recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que concluem que os riscos são baixos para a saúde. No entanto, por 'questões de segurança', as linhas devem ficar 'afastadas das populações'. Esta circular reforça uma anterior, datada de Agosto de 2007, em que investigadores sugerem uma maior protecção das populações perante a falta de dados sobre os perigos das radiações.

Embora admita que os riscos para a saúde não estão provados, o ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, salientou na última edição do Café da Ciência, na Assembleia da República, que 'as linhas de alta tensão são desagradáveis para as pessoas, pelo seu impacto paisagístico e pelo desconforto provocado, nomeadamente pelo ruído'.

Mariano Gago diz ser necessário criar um processo de divulgação científica para desmistificar os medos das populações, o que 'exige um contacto muito maior entre os cientistas e a população em geral'.

MAIS CASOS DE LEUCEMIA

O ministro acrescenta que este é um problema internacional e amplamente estudado pela OMS. De acordo com o trabalho desenvolvido pela Comissão Internacional de Avaliação das Radiações da OMS, os únicos casos de efeitos crónicos foram observados junto de crianças que vivem perto de cabos de alta tensão.

Os resultados de um trabalho de 150 instituições internacionais, que envolveram dez sábios e 50 cientistas, indicaram a existência de 44 casos de leucemia infantil quando estatisticamente seria expectável que só houvesse 35 casos, 'um valor que se traduz numa criança vítima deste tipo de cancro em cada 30 mil'. 'De acordo com a realidade portuguesa, em que 50 mil pessoas vivem perto de instalações de alta tensão, resulta a morte de uma criança de leucemia em cada 15 anos', disse Pinto deSá, investigador do Centro para a Inovação em Engenharia Electrotécnica e Energia do Instituto Superior Técnico em Lisboa.

Pinto deSá foi um dos intervenientes nas explicações prestadas aos deputados sobre os possíveis efeitos dos campos electromagnéticos na saúde das populações.

RENOVÁVEIS AUMENTAM  REDE

A Redes Energéticas Nacionais (REN) adopta a orientação de manter afastada das povoações a construção de mais 650 quilómetros de linhas de alta tensão a partir do próximo ano e até 2014, num investimento de 1400 milhões de euros. Serão 240 milhões anuais para modernizar a rede de electricidade e integrar novos centros produtores de energias renováveis, o que vai permitir a exportação de energia. O crescimento da produção de energia eléctrica de origem térmica e de origem renovável é um dos vectores determinantes da empresa, pelo que as quatro centrais a gás natural já licenciadas estão consideradas. As novas linhas visam também garantir o futuro abastecimento dos consumos eléctricos das linhas ferroviárias para o comboio de alta velocidade, nas ligações Lisboa-Madrid, Lisboa-Porto e Porto-Vigo.

CIÊNCIA REVELA

TELEMÓVEIS E CAFÉ

Luís Correia, do Instituto de Telecomunicações, divulgou no Parlamento que o campo electromagnético libertado por um telemóvel possui os mesmos riscos cancerígenos do café.

TELEVISORES

Os emissores de televisão que existem em Monsanto (Lisboa) e no Porto produzem campos electromagnéticos mais elevados do que os das antenas de telemóveis, diz Mariano Gago.

SOL PERIGOSO

Carlos Salema, do Instituto deTelecomunicações, explicou que as radiações emitidas pelo Sol na praia são mais perigosas do que as emitidas em igual período pelo telemóvel.

FALTA DE PROVAS

Carlos Fiolhais, do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, disse não ser possível provar uma relação entre cancro e alta tensão, de acordo com a Sociedade Americana de Física.

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