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Correio da Manhã

Tecnologia
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Berço de estrelas é cemitério

As imagens da Nebulosa da Águia, também conhecida como Nebulosa M16, estão no topo das fotografias mais populares entre as divulgadas nos últimos anos. Foram tiradas pelo telescópio espacial Hubble em 1995 e desde então tornaram-se um símbolo das suas capacidades.
31 de Março de 2007 às 00:00
Berço de estrelas é cemitério
Berço de estrelas é cemitério FOTO: d.r.
Até agora sempre se julgou que a fotografia retratava um berçário de estrelas, que por isso até ficaram conhecidas como os Pilares da Criação, mas uma investigação recente veio revolucionar totalmente as teorias aceites pelos peritos e pode até revolucionar a astronomia e a forma como se interpretam as imagens do cosmos. Afinal os Pilares da Criação são antes um cemitério: as poeiras multicolores que encantaram o mundo da ciência resultam da explosão de uma estrela (designada como Supernova). Uma descoberta do astrónomo Nicolas Flagey, quando se encontrava a trabalhar no Observatório Spitzer, na Califórnia, Estados Unidos, onde são decifrados os dados de outro telescópio espacial (também chamado Spitzer).
A história parece saída de um romance científico. Flagey é ainda um estudante de doutoramento e confessou que decidiu seguir a carreira de astronomia precisamente depois de ver as imagens da Nebulosa da Águia tiradas pelo Hubble. Imaginava que pouco mais haveria a dizer sobre o tema depois de tanta exposição mediática e de tantos trabalhos científicos realizados desde então. Porém, quando estava a trabalhar na Califórnia, decidiu usar os instrumentos do Spitzer (equipado com máquinas que permitem fazer análises da radiação infravermelha) e verificou que havia uma zona da Nebulosa, situada a sete mil anos-luz da Terra, que não correspondia ao conceito de berçário de estrelas. Verificou que correspondia a uma nuvem de gás e poeiras (muito quentes) que não era visível nas fotos do Hubble. Mostrou os dados ao seu orientador de tese, o astrofísico François Boulanger, que concordou haver ali um mistério para resolver.
Flagey procurou então outros dados em revistas científicas que explicassem aquelas nuvens ultra-aquecidas. Encontrou algo semelhante num estudo sobre a explosão de supernovas, detectada noutra zona do espaço chamada Nuvem de Magalhães (em homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães). Mas há mais. A troca de dados com outros astrónomos revelou que esta explosão até terá sido uma das raras mortes de supernovas observadas e registadas pelo Homem. O acontecimento teria originado um brilho intenso nos céus, equivalente ao que se observa ao ver Vénus à noite.
O astrónomo Jean-Marc Bonnet-Bichaud, do Centro de Energia Atómica de França, avançou com três possíveis momentos históricos que poderiam explicar a explosão estelar. Uma ocorreu por volta de 48 a.C. e foi registada por astrónomos chineses, havendo registos da Idade Média (ano 1011) que referem um brilho intenso naquela região do cosmos e outros datados de 1670. Uma coisa é certa: esta investigação causou furor na comunidade científica e a NASA anunciou que vai rever muitos outros dados astronómicos considerados certos… até agora.
JANELA PARA O UNIVERSO DESDE 1990
O telescópio espacial Hubble foi lançado para o espaço em 1990 e desde então forneceu dados que permitiram fazer várias descobertas na área da astronomia. Mas a história deste equipamento foi atribulada. Logo no início verificou-se que os espelhos que possuía para captar a luz das estrelas estavam desalinhados, não permitindo uma focagem precisa das imagens.
A miopia do telescópio, como foi designada na imprensa, obrigou os astronautas da NASA a fazerem uma reparação em órbita para corrigir o problema. Depois disso, ainda recebeu novos equipamentos para melhorar as suas capacidades, o que permitiu revelar mais dados sobre as origens do Universo, o Big Bang e a formação das estrelas. Porém, muitos especialistas criticaram os astronómicos custos de manutenção que acarreta.
O certo é que os responsáveis da NASA e da ESA (Agência Espacial Europeia) decidiram mantê-lo no activo até hoje. Entretanto, já foram lançados outros dois telescópios espaciais, o Spitzer e o Chandra.
NOTAS
NOVIDADE
As análises à radiação infravermelha emitida vieram confirmar que as estranhas formas que encantam cientistas e leigos desde 1995 resultam da explosão de uma supernova, isto é, da explosão de uma estrela.
FENÓMENO
Os Pilares da Criação não são mais do que aglomerados de poeira estelar situados na Nebulosa da Águia.
MILENAR
Embora a famosa fotografia só exista devido aos avanços científicos que permitiram construir o telescópio espacial Hubble, registos de há 2000 anos, feitos por astrónomos da corte imperial chinesa, podem corresponder à explosão documentada pela NASA.
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