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Correio da Manhã

Tecnologia
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Criado fígado humano

Cientistas britânicos criaram o primeiro fígado humano em todo o Mundo a partir de células estaminais. Este avanço científico vai permitir, dentro de 15 anos, o fornecimento de órgãos para transplante. Este anúncio deixa especialistas portugueses entusiasmados pela importância que revela: pode ser a solução para os milhares de doentes que esperam anos por um órgão. Em Portugal estima-se que existam 15 mil doentes de cirrose, um mal que se revela fatal a em cinco mil a seis mil doentes hepáticos por ano.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Nico Forraz e Colin McGuckin, investigadores da Universidade de New-castle, Inglaterra, criaram um ‘mini-fígado’, um tecido com o tamanho de uma moeda de 20 cêntimos, com um peso aproximado de 20 gramas.
O tecido foi conseguido através de células estaminais retiradas do sangue do cordão umbilical de recém-nascidos. Estas células têm a capacidade de se desenvolverem em diferentes órgãos. Em breve os investigadores esperam criar pedaços maiores de tecido, eventualmente, criar “secções que possam ser transplantadas”.
Segundo os cientistas, dentro de cinco anos será possível utilizar pedaços de tecido artificial na regeneração de fígados doentes – este órgão tem uma enorme capacidade de se auto-regenerar – devido a ferida, doença, abuso de álcool ou overdose de paracetamol.
O especialista em doenças do fígado Miguel Carneiro de Moura, hepatologista do Hospital Santa Maria, considera este avanço com “muito interesse”, apesar de não ter sido anunciado no recente congresso que reuniu especialistas de todo o Mundo em Boston, EUA.
“É provável que [os investigadores] não tenham querido esperar os longos meses para publicar o feito numa revista científica ou talvez queiram desenvolver mais as pesquisas. No entanto, os resultados alcançados são muito importantes e são um sonho de vários anos.”
Segundo Carneiro de Moura, esta técnica é a esperança para milhares de doentes, uma vez que “o fígado artificial [tratamento semelhante à hemodiálise] utilizado no Santa Maria não resultou em todos os doentes. Dos oito pacientes testados, sobreviveram dois.”
"TRANSPLAANTE OU MORRE"
“A pessoa ou é transplantada ou morre.” A frase foi atirada de chofre por quem sabe do que fala. António Almeida tem 62 anos e há uns anos ouviu dos médicos de Lisboa que o seu caso foi dado como perdido. “Andei mais de três anos a fazer exames clínicos e não davam com o problema que me ia definhando. Tenho um metro e oitenta e cheguei a pesar 45 quilos. Já não saía da cama”, desabafa ao CM.
O problema de António Almeida acabou por ser diagnosticado, uma doença genética, de nome antitripsina, que lhe afectou os pulmões e mais tarde o fígado. “Entrei em grande debilidade física, a barriga muito dilatada. Nos hospitais de Lisboa não me fizeram nada, mas acabei por ir parar aos Hospitais da Universidade de Coimbra e entrei em lista de espera por um fígado”, recorda o doente.
António Almeida esperou ano e meio e durante esse tempo foi chamado pelos serviços de saúde “sete vezes”, mas outros doentes acabavam por receber o órgão disponível. Em 1996 chegou a sua vez e o transplante de fígado realizou-se. De então para cá toma imunosupressores, medicamentos que evitam a rejeição do órgão transplantado. À pergunta como se sente, responde: “Bem, escapei.”
APONTAMENTOS
FUNÇÕES
O fígado é um órgão essencial que desempenha várias funções: mantém a glicémia normal, produz os factores de coagulação (um problema aqui pode desencadear hemorragias graves) e está encarregue de produzir a bílis (fluído que actua na digestão) e é imunológico (actua no sistema imunitário).
PORCO
Algumas experiências de transplante de fígado de porco foram feitas, uma vez que este é um órgão semelhante ao do homem. Contudo, as tentativas foram abandonadas devido aos priões e vírus que o animal tem e que acabam por ser transferidos para o paciente.
CAUSAS
Segundo o hepatologista Carneiro de Moura, as causas da doença hepática são várias e à cabeça da lista estão os vírus das hepatites B e C, seguindo-se o álcool, alguns medicamentos (anti-hipertensores, paracetamol, entre outros), doenças metabólicas e auto-imunes.
NÚMEROS DO SECTOR
- 5000 a 6000 portugueses morrem todos os anos no nosso país vítimas de cirrose hepática. O número de doentes é três vezes maior.
- 185 transplantes de fígado realizaram-se nos hospitais portugueses em 2005. Menos 20 do que em 2004.
- 3 hospitais portugueses realizam transplante de fígado: Curry Cabral (Lisboa), Universidade de Coimbra (HUC) e Santo António (Porto).
- 83 transplantes de fígado realizados em 2005 no Hospital Curry Cabral, seguido do Santo António (63) e Hospitais da Univ. de Coimbra (30).
- 1425 transplantes feitos em Portugal em 2005 a vários órgãos. A maioria de córnea (498), rim (380), medula (305), fígado (185).
- 1543 transplantes em 2004. A maioria de córnea (556), rim (436), medula (279), fígado (205).
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