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Correio da Manhã

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Descoberto ponto fraco do vírus

Cientistas norte-americanos descobriram o que dizem ser o ‘calcanhar de Aquiles’ do vírus da sida (VIH), segundo um artigo publicado quarta-feira na revista ‘Nature’. Os autores acreditam que a descoberta pode servir para desenvolver uma vacina contra o VIH e a sida.
16 de Fevereiro de 2007 às 00:00
Descoberta. Com recurso a fotografia por raios X, os autores do trabalho perceberam, pela primeira vez, como o vírus da sida entra nas células humanas
Descoberta. Com recurso a fotografia por raios X, os autores do trabalho perceberam, pela primeira vez, como o vírus da sida entra nas células humanas FOTO: d.r.
Mas, sem pôr em causa a importância da descoberta (a publicação pela ‘Nature’ das mais respeitadas revistas garante por si só o mérito científico), investigadores portugueses como António Coutinho, actual director do Instituto Gulbenkian de Ciências e ex-director de Imuno-Biologia no Instituto Pasteur, em Paris, e Fernando Ventura, ex-coordenador da Comissão Nacional de Luta contra a Sida, duvidam da utilidade prática para uma vacina.
Em declarações ao CM, Fernando Ventura cita o laureado com o Nobel de Medicina em 1996, Rolf M. Zinkernagel, que em conferência na Fundação Gulbenkian defendeu que uma vacina contra o VIH “passa mais pela estimulação de outras células imunitárias do que pelos anticorpos” e que “será muito difícil de elaborar num futuro próximo” ou, pelo menos, nos anos mais próximos.
Mais confiantes, os responsáveis pelo estudo, como Elias Zarhouni, director do Instituto Nacional de Saúde norte-americano (NIH), explica ter sido “revelado um buraco na armadura do VIH, o que abre uma nova via para enfrentar o desafio”, mas não avança estimativas temporais para uma vacina.
IMAGEM INÉDITA
Os investigadores sustentam que “a capacidade do VIH em escapar à neutralização por anticorpos”, pelas constantes mutações, é o principal motivo para não existir ainda uma vacina. Peter Kwong e a equipa assumiram que o VIH teria de manter alguma parte estável, para conseguir ligar-se aos receptores (imutáveis) das células – CD4 – do sistema imunitário.
Depois de em 1998 ter identificado partes do VIH vulneráveis a medicamentos, Peter Kwong conseguiu agora – à escala atómica – examinar o sítio de ligação do vírus e o receptor dos CD4. A equipa percebeu que um anticorpo, presente no sangue das pessoas mais resistentes ao VIH, consegue ligar-se a essa parte do vírus, como “uma pastilha elástica colada numa chave”, impedindo-a de entrar numa fechadura.
DÚVIDAS
“Um dos objectivos é estimular os anticorpos neutralizantes para desenvolver a vacina”, declara Gary Nabel, um dos autores.
E aqui surgem as dúvidas de Fernando Ventura, ao defender que “a vacina contra o VIH não passa pelos anticorpos, mas pela estimulação da imunidade celular protectora específica”.
Também António Coutinho disse ao CM ser “pouco provável que a descoberta tenha um grande impacto futuro”. Sublinhando a diferença entre ciência básica ou fundamental e ciência aplicada, o director do Instituto Gulbenkian distingue “a importância teórica da descoberta”, duvidando da real utilidade prática.
“Descobriu-se como o VIH entra nas células, mas daí a impedir a infecção ainda vai um grande passo”, explica.
NAÇÕES UNIDAS ALERTAM PARA O CRESCIMENTO NO MUNDO
A sida está a crescer em todas as áreas do Mundo, de acordo com os últimos dados das Nações Unidas e da Organização Mundial de Saúde. Na Europa de Leste e na Ásia Central, as taxas de infecção cresceram mais de 50 por cento desde 2004, enquanto na China os casos de VIH/Sida deram um salto de mais de 30 por cento no último ano.
AMÉRICA DO NORTE
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 1,4 milhões
Novos infectados em 2006: 43.000
Mortes devido ao VIH em 2006: 18.000
CARAÍBAS
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 250.000
Novos infectados em 2006: 27.000
Mortes devido ao VIH em 2006: 19.000
NORTE E CENTRO DA EUROPA
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 740.000
Novos infectados em 2006: 22.000
Mortes devido ao VIH em 2006: 12.000
EUROPA DE LESTE E ÁSIA CENTRAL
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 1,7 milhões
Novos infectados em 2006: 270.000
Mortes devido ao VIH em 2006: 84.000
AMÉRICA LATINA
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 1,7 milhões
Novos infectados em 2006: 140.000
Mortes devido ao VIH em 2006: 65.000
ÁFRICA SUBSAARIANA
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 24,7 milhões
Novos infectados em 2006: 2,8 milhões
Mortes devido ao VIH em 2006: 2,1 milhões
MÉDIO ORIENTE E NORTE DE ÁFRICA
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 460.000
Novos infectados em 2006: 68.000
Mortes devido ao VIH em 2006: 36.000
OCEANIA
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 81.000
Novos infectados em 2006: 7.100
Mortes devido ao VIH em 2006: 4.000
TOTAL
Pessoas infectadas com VIH em 2006: 39,5 milhões (34,1 a 47,1 milhões)
Novos infectados em 2006: 4,3 milhões (3,6 a 6,6 milhões)
Mortes devido ao VIH em 2006: 2,9 milhões (2,5 a 3,5 milhões)
Fontes: ONU/Sida, OMS (Números entre parêntesis representam uma estimativa da ONU)
ÁFRICA SUBSAARIANA É A MAIOR VÍTIMA DA EPIDEMIA
Em 2006, dois terços dos habitantes da África Subsaariana estavam infectadas com o VIH, o que corresponde a 24,7 milhões de pessoas. Segundo as estimativas, só nesse ano, cerca de 2,8 milhões de pessoas, entre crianças e adultos, foram infectadas, um valor muito superior ao das restantes zonas do globo somadas entre si.
Os números mostram ainda que o vírus da sida fez nesse ano cerca de 2,1 milhões de mortes naquela região africana, o que corresponde a 72% das mortes registadas no Mundo. Nessa região, as mulheres são as mais atingidas pela doença. África do Sul, Botswana, Quénia, Namíbia, Uganda, Ruanda, Moçambique e Zâmbia estão entre os países mais afectados.
ANÓNIMO E GRATUITO
São 23 os Centros de Aconselhamento e Detecção do VIH/sida existentes em Portugal Continental (três em Lisboa e Setúbal, dois em Faro e um em cada uma das restantes capitais do distrito). Nestes centros são feitos testes gratuitos, anónimos e confidenciais a quem suspeite estar infectado. A coordenação nacional para o VIH/sida aconselha um período de espera de “três meses” (tempo de incubação) após qualquer comportamento de risco para que as pessoas façam o respectivo teste.
FACTOS DA DOENÇA
IMIGRAÇÃO
Segundo o relatório de 2006 da UNU/sida (órgão das Nações Unidas para a sida), cerca de três quartos dos novos casos de infecções por VIH na Europa Ocidental e Central (União Europeia) registam-se entre as populações imigrantes.
HOMOSSEXUALIDADE
O número de novos casos entre homossexuais (masculinos) voltou a aumentar na Europa. Na Holanda cerca de 75% dos novos casos regista-se neste grupo populacional, enquanto em Portugal a taxa chega aos 68%. A ONU/sida atribui o recrudescimento às práticas sexuais sem protecção.
TOXICODEPENDENTES
Ao contrário da população homossexual, a ONU/sida destaca o caso português em que o número de novos casos entre os toxicodependentes desceu para um terço entre 2001 e 2005. Para esta diminuição, a ONU/sida sublinha a importância dos programas de redução de riscos, como a troca de seringas.
DESCONHECIDOS
Além dos 29 461 casos de infecção por VIH/sida diagnosticados em Portugal, o Grupo Português de Activistas sobre Tratamento (GAT) garante “um número significativo de pessoas que desconhecem estar infectadas”, apontando para cerca de 60 mil os casos em Portugal. A estimativa supera o cálculo da ONU/sida: 32 mil.
MORTES
Das 6506 mortes registadas em Portugal até 30 de Junho de 2006, mais de 50% (2802) verificou-se no distrito de Lisboa, seguido do Porto (1500). Portalegre (13 mortes), Bragança (15) e Beja (19) encontram-se no lado oposto.
GRUPOS
Apesar da tendência para diminuir o número de novos casos, os toxicodependentes continuam a ser o grupo com mais casos de sida em Portugal (6301), seguindo-se os heterossexuais (4417) e depois os homo ou bissexuais (1735). Estes números referem-se ao estágio de doença declarada.
NOTAS
COMPRIMIDO PREVINE
Especialistas internacionais acreditam estar próximos de conseguir um comprimido preventivo para a infecção de VIH/sida.
MISTURA DE DROGAS
Uma mistura de dois medicamentos para tratar a infecção pelo VIH foi testada como preventivo, com êxito, em macacos.
CONTROLA REPLICAÇÃO
Um dos dois medicamentos, FTC, inibe a actividade de uma enzima viral responsável pela replicação do VIH.
IMPEDE CONTÁGIO
A outra droga em testes, Tenofovir, bloqueia o ARN e ADN, impedindo o vírus de incorporar o ARN nas células humanas.
VACINA DIFÍCIL
A vacina contra o VIH é especialmente difícil pela capacidade de mutação do vírus e pelo risco de originar doenças auto-imunes.
JUÍZES DETERMINAM QUEBRA DE SIGILO
O Tribunal da Relação de Lisboa determinou, ontem, a quebra de sigilo de uma médica, no âmbito de um caso que envolve uma alegada prostituta contagiada com sida, indiciada do crime de propagação de doença contagiosa na forma dolosa.
O colectivo de juízes da 9.ª secção – composto por Carlos Benido, Fernando Cardoso e Gilberto Cunha – decidiu, por unanimidade, que a médica deve prestar as informações que lhe forem solicitadas em fase de inquérito pelo Tribunal de Torres Vedras, acolhendo, assim, os argumentos defendidos pelo procurador Paulo Antunes. Ou seja, a existência de um “interesse preponderante na obtenção das ditas informações para a investigação do crime de propagação de doença contagiosa” – apurar se a arguida sabia que estava contaminada e se, mesmo assim, manteve a actividade como prostituta.
O incidente de quebra de sigilo foi suscitado após a recusa por parte da médica de família em colaborar com as autoridades judiciais, invocando o dever de segredo profissional e a não autorização por parte da Ordem dos Médicos (OM), que também se opôs à prestação de informação. Um dos argumentos da Ordem foi o “possível afastamento de um número muito significativo de doentes com sida da vigilância médica”.
Contactado pelo CM, Pedro Nunes, bastonário da OM, limitou-se a dizer que as decisões dos tribunais são “meritórias” e “ponderadas”, mas admitiu que o departamento jurídico da Ordem também seja chamado a intervir e a emitir um parecer sobre esta questão, depois de a médica em causa ser notificada da decisão.
ABORTO MOTIVOU PARECERES
O Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República tem sido chamado, ao longo dos anos, a pronunciar-se sobre a quebra do sigilo médico, sendo que os pareceres mais antigos foram solicitados na sequência da instauração de processos penais por crime de aborto.
Em várias decisões que constam do arquivo da PGR, sobre segredo médico e cedência de informações clínicas, concluiu-se que “as conveniências do segredo profissional tinham de ceder perante certos perigos da saúde pública”: aparecimento de moléstias contagiosas, suspeita de crime público e verificação de óbito de pessoas a que não se tenha prestado assistência.
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