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Lesões no cérebro influenciam moral

Se soubesse que o seu melhor amigo era um assassino em série, o que faria? Denunciá-lo-ia ou iria deixá-lo continuar a matar? Ou então, se não pudesse evitar a colisão, quem iria, numa desesperada manobra, evitar atropelar: um miúdo que está a jogar à bola ou, do outro lado da estrada, um grupo de pessoas? Noutra situação você sabe que uma pessoa tem sida e tenciona deliberadamente infectar outras. Algumas delas irão morrer. As únicas opções que tem são deixar que isso aconteça ou matar a pessoa. Você carrega ou não no gatilho?
23 de Março de 2007 às 00:00
A hipótese de confronto com uma situação destas provoca arrepios a qualquer pessoa, mas a verdade é que há quem não hesite em eliminar uma vida humana “em nome do bem colectivo”.
O investigador português António Damásio, director do Instituto do Cérebro e Criatividade da Universidade da Califórnia do Sul, e Marc Hauser, especialista em Comportamento Animal da Universidade de Harvard (ambas nos EUA), publicaram ontem um estudo na revista científica ‘Nature’ no qual concluem que as emoções têm um papel essencial no desempenho dos valores individuais.
“O nosso trabalho fornece a primeira demonstração causal do papel das emoções nos juízos morais”, refere Hauser.
Os dois investigadores apresentaram 13 dilemas morais desse tipo a trinta homens e mulheres. Constatou-se que seis tinham lesões no córtex prefrontal ventromedial (VMPC), 12 apresentavam outras lesões cerebrais e 12 não tinham quaisquer lesões. O VMPC, situado ao nível da testa, faz parte dos circuitos “emocionais” do cérebro.
Foi ainda pedido aos voluntários para responderem a outro tipo de dilemas morais, mas menos pessoais e outros sem componente moral. Perante a situação em que a morte imediata de alguém serve para evitar a morte futura de outros é que as diferenças de resultados das pessoas com lesões no VMPC se tornaram avassaladoras, com uma proporção elevada de respostas afirmativas à resolução do problema pelas armas.
“O que é absolutamente espantoso é a selectividade do défice. As lesões do lóbulo frontal deixam intactas uma série de capacidades na resolução de problemas morais, mas afectam os juízos nos quais uma acção que provoca aversão é colocada em conflito directo com um desfecho fortemente utilitário”, salienta Marc Hauser.
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