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Correio da Manhã

Tecnologia

Luz sobre a matéria escura

Seja qual for o modelo cosmológico escolhido pelos astrofísicos, um problema permanece insolúvel: 90 por cento do Universo continua invisível. Pelo menos já sabem onde está e até fizeram um mapa tridimensional da distribuição desse misterioso componente.
20 de Janeiro de 2007 às 00:00
O mapa a três dimensões foi  reconstruindo a imagem como faz o ‘scanner’ de uma TAC ao corpo humano
O mapa a três dimensões foi reconstruindo a imagem como faz o ‘scanner’ de uma TAC ao corpo humano FOTO: D.R.
Os astrofísicos pensavam estar a estudar o Universo mas apenas estão a estudar uma pequena porção dele – a brilhante. As estrelas, o gás e a poeira galáctica que os astrofísicos detectam com os seus telescópios não são mais do que uma pequena parte, cerca de dez por cento da matéria que existe no cosmos.
A pesquisa da massa perdida, que os cientistas denominaram matéria escura, converteu-se num dos temas mais apaixonantes da astrofísica.
Agora, um grupo de cientistas, com a ajuda do telescópio espacial Hubble e de outros terrestres, conseguiu criar o que parecia impossível: as primeiras imagens tridimensionais dessa matéria invisível que não emite nem reflecte luz e que tem resistido à detecção desde que se lançou a hipótese da sua existência, há 74 anos.
A matéria escura, substância jamais vista ou descrita, estranha e não luminosa, que, segundo os astrónomos e astrofísicos, mantém as galáxias na poderosa força de atracção gravitacional, representa cerca de 90 por cento da massa total do Universo.
Trata-se de partículas que não podem ser detectadas pela radiação que emitem e não são visíveis em nenhuma parte do espectro electromagnético.
No entanto, a sua existência infere-se dos efeitos gravitacionais que provocam na matéria visível, como as estrelas ou as galáxias.
Em 1933, o astrónomo suíço Fritz Zwicky, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos EUA, mediu o movimento das galáxias numa região denominada Aglomerado de Virgem, a cerca de 64 milhões de anos-luz da Terra. Segundo Zwicky, a massa total do aglomerado excedia de maneira considerável a soma das massas de cada uma das galáxias.
O que Zwicky descobriu sobre o Aglomerado de Virgem foi que a massa do aglomerado é apenas a soma das massas das estrelas nas galáxias. O facto de o aglomerado ainda permanecer no lugar significava que deveria haver mais massa para puxar as galáxias para dentro – e que essa matéria não era visível a partir do telescópio de Zwicky.
MACHOS, WIMPS E NEUTRINOS
Alguns cientistas acham que a matéria escura poderia adoptar a forma de pequenas estrelas de pouca massa – anãs vermelhas e anãs castanhas que estariam no halo (zona onde a luminosidade é inferior a 1% em relação ao fundo) – a que chamaram MACHOS (Massive Compact Halo Objects – objectos maciços do halo).
Os físicos povoaram a matéria escura de partículas elementares a que deram o nome de WIMPS (Weakly Interacting Massive Particles – partículas maciças de fraca interacção). Milhões deles podem estar a passar através do nosso corpo neste exacto momento, sem perturbar um átomo sequer. Quanto aos neutrinos, da família dos electrões, há dúvidas se têm ou não massa.
HUBBLE V~E NO ESCURO
O telescópio mais potente que se pudesse construir jamais poderia ver mais de 4% da matéria do Universo, mas os astrónomos do Instituto Tecnológico da Califórnia conseguiram localizar essa enorme massa invisível.
O sistema consiste em medir o desvio que a matéria escura produz na luz de galáxias distantes ao passar através dela em cada linha de observação do Hubble, uma técnica conhecida como da lente gravitacional débil.
O telescópio Hubble fez 575 fotos do Universo, observadas durante mais de mil horas, correspondentes a três períodos, como num sistema de tomografia para o corpo humano: até 3500 milhões de anos, 5000 milhões de anos e 6500 milhões de anos. Um potente sistema informático sobrepôs essas fotos e coloriu-as para dar uma imagem compreensível da sua distribuição.
O resultado é uma imagem que mais parece uma esponja mas que está de acordo com as teorias convencionais acerca de como se formaram as estruturas ao longo da evolução do cosmos.
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