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Correio da Manhã

Tecnologia
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Mais e melhor energia solar

Pode ser uma descoberta de maior relevo. Na Holanda, um grupo de cientistas, incluindo um investigador da Universidade do Algarve (UAlg) identificou a forma de aumentar em 50 por cento a rentabilidade dos painéis de energia solar.
2 de Fevereiro de 2008 às 00:30
“Perante a situação de que as energias renováveis são cada vez mais importantes, até um aumento de 0,01 por cento seria relevante”, explica Peter Stallinga, o holandês que representou a UAlg no projecto. “Actualmente, o máximo de energia que se consegue converter com um painel solar simples é de 30 por cento; caso se confirme o nosso método, podemos atingir os 45 por cento.”
Na prática, o estudo demonstrou que, partindo os fotões mais energéticos (ultravioletas) e separando-os no Espaço, é possível obter uma maior percentagem de electricidade, através de painéis solares.
Os raios solares são constituídos por fotões que têm níveis de energia diferentes, consoante o local onde se encontram no espectro solar. Normalmente, os painéis solares actuais não conseguem captar a energia dos fotões nos extremos do espectro, quer os infravermelhos, que transportam pouca energia, quer os ultravioletas, que se encontram no outro extremo. A separação permite o aproveitamento, em particular, destes últimos, que transportam mais energia.
Os cientistas usaram nanocristais que dividem os fotões, permitindo o melhor aproveitamento da luz. A descoberta, como muitas outras, surgiu por acaso.
“O líder do grupo, o professor Tom Gregorkiewicz, trabalha com materiais utilizados para telecomunicações há 15 anos”, continua Peter Stallinga, “e estávamos a investigar a possibilidade de nanocristais para activar o elemento químico érbio”. Os cientistas acabaram por concluir que, mesmo sem o érbio, este era um caminho para rentabilizar o aproveitamento da energia solar.
Falta colocar o estudo em prática, pois os resultados foram conseguidos em laboratório. O próximo passo é aplicar a teoria a um painel solar. Stallinga acredita que o método, além de aumentar a eficácia na produção de energia eléctrica, vai “baixar o custo por watt”. Aspecto fundamental nas energias renováveis.
O estudo vai ser publicado este mês na revista ‘Nature Photonics’, com um destaque na conceituada ‘Nature’. Entretanto, a UAlg já anunciou que, em breve, serão submetidas propostas para projectos com o objectivo de fazer a validação do novo processo de aproveitamento da energia solar. Validação que será conduzida, com parceiros, na UAlg.
UMA APOSTA PARA O FUTURO EM PORTUGAL
O aproveitamento da energia solar em Portugal, em especial no Alentejo e no Algarve, é óbvio. “Toda a região Sul beneficia de uma localização estratégica”, refere Peter Stallinga, “já que a quantidade de energia solar recebida por ano é a mais alta da Europa”. Consequência disso, é em Portugal, em Brinches, no concelho de Serpa, a existência da maior central mundial de recolha de energia fotovoltaica do Mundo.
A central de 11 megawatts inclui 52 mil painéis fotovoltaicos e ocupa 60 hectares. Inaugurada em Março de 2007, representou um investimento de 61 milhões de euros e produz 20 gigawats/hora de energia por ano – o suficiente para alimentar oito mil habitações e permite poupar mais de 30 mil toneladas em emissões de gases de efeito de estufa.
COMO FUNCIONA
RAIO SOLAR
Os raios solares chegam à Terra com fotões com diferentes níveis de energia consoante o local do espectro solar onde se situam.
FOTÕES
O fotão que compõe os raios solares incide sobre um primeiro nanocristal, que o divide em dois fotões de energia mais baixa.
NANOCRISTAIS
Um dos fotões que resulta da separação é logo aproveitado enquanto o outro é enviado para um segundo nanocristal.
APROVEITAMENTO
Ao passar por outro nanocristal, o segundo fotão é também aproveitado para gerar energia eléctrica, tal como o primeiro.
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