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Correio da Manhã

Tecnologia
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Portugueses descodificam bactéria

Uma equipa de investigadores da Unidade de Serviços Avançados do Biocant - Centro de Inovação em Biotecnologia de Cantanhede está a decifrar o código genético do ADN de uma bactéria resistente às radiações. As suas conclusões poderão ser usadas no desenvolvimento de novas formas de diagnóstico e tratamento de várias doenças, como o cancro. O estudo tem por base a utilização de um supercomputador único na Península Ibérica, o GS20, que veio revolucionar a sequenciação integral de genomas, fazendo em poucas horas o que demorava meses.
19 de Maio de 2007 às 00:00
Conceição Egas explica como funciona o GS20 criado pela Roche Diagnostics
Conceição Egas explica como funciona o GS20 criado pela Roche Diagnostics FOTO: d.r.
A ‘rubrobacter radiotolerans’ é uma bactéria que se encontra no ambiente, em zonas secas e caracterizadas pela falta de água, e foi isolada em S. Pedro do Sul, conhecendo-se apenas duas ou três estirpes.
“Nós não sabemos por que é que esta bactéria precisa desta resistência às radiações, mas sabemos que a falta de água causa danos semelhantes às radiações e ela encontra-se em ambientes secos”, explicou ao CM Conceição Egas, directora da Unidade de Serviços Avançados do Biocant e responsável pelo GS20, adiantando que o genoma desta bactéria já foi sequenciado “quase 21 vezes”.
As conclusões dos investigadores podem ser cruciais para outros cientistas de universidades, centros de investigação ou empresas farmacêuticas que pretendam, por exemplo, saber como modificar plantas ou animais para melhorar a sua resistência à falta de água ou como proteger as células humanas nos tratamentos de vários cancros, em que a radioterapia é um dos métodos mais comuns.
Esta investigação não seria possível sem o novo sistema sequenciador de genomas (GS20) criado pela Roche Diagnostics, que permite a uma única pessoa sequenciar integralmente um genoma com grande rapidez, completando “num dia” o que antes exigia “meses de trabalho”.
O supercomputador do Biocant custou 500 mil euros e retira a informação da molécula de ADN sem ser necessário manusear bactérias nem recorrer à clonagem, já que, “fragmentando todo o ADN inicial, ligam-se as moléculas a esferas e obtém-se a repetição e amplificação do seu sinal”. Pode ser usado para sequenciar bactérias, fungos, leveduras ou vírus.
A nível internacional, o GS20 foi usado para sequenciar o genoma do homem de Neanderthal e do mamute e para identificar a flora intestinal específica da obesidade.
PROJECTO ÚNICO NO PAÍS
O Biocant - Centro de Inovação em Biotecnologia é o único parque de biotecnologia português e em pouco mais de um ano facturou cinco milhões de euros e levou à criação de dez empresas com tipologias variadas, mas todas relacionadas com as ciências da vida, que originaram 50 novos postos de trabalho.
Segundo Carlos Faro, director científico e presidente do conselho de administração, o Biocant Park tem uma “cultura de trabalho orientada para o mercado” e a sua actividade está vocacionada para projectos de investigação e desenvolvimento, transferência de tecnologia e serviços de análises especializadas.
A Crioestaminal é uma das empresas mais conhecidas do Biocant Park e proporciona aos pais dos recém-nascidos a oportunidade de isolar e armazenar as células estaminais do sangue do cordão umbilical por um período mínimo de 20 anos, as quais podem ser usadas no tratamento de várias doenças graves.
PRODUTIVIDADE SEM PARALELO
FUNÇÃO
A sequenciação de genomas que o GS20 executa permite, por exemplo, saber qual a função desempenhada por um gene numa doença ou perceber a resistência de determinados organismos a antibióticos.
RAPIDEZ
Em apenas cinco horas, o GS20 sequencia mais de 20 megabases, ou seja, mais de 200 mil leituras, com uma dimensão média de aproximadamente cem bases e uma concordância de exactidão de mais de 99,99 por cento.
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