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Correio da Manhã

Tecnologia

Vacina contra a hipertensão

É uma das principais responsáveis pelo número de mortes prematuras nos países desenvolvidos e contribui, dizem os números, para cerca de metade de todas as doenças cardiovasculares. Por cá, a hipertensão ocupa também um lugar de destaque na lista de problemas que afectam a população – 42 por cento dos portugueses vive com ela –, apesar de muitos desconhecerem que dela sofrem e outros tantos (61 por cento) terem a doença por controlar. Estatísticas que demonstram a importância da CYT006-AngQb, nome provisório – tal como é ainda o medicamento – daquilo que pode vir a ser a primeira vacina para combater a hipertensão arterial.
18 de Novembro de 2007 às 00:00
A vacina tem poucos efeitos secundários e tem sido bem tolerada
A vacina tem poucos efeitos secundários e tem sido bem tolerada FOTO: Vítor Mota
Os resultados do trabalho de uma equipa de cientistas do Hospital Universitário do Cantão de Vaud, na Suíça, apresentados recentemente em Orlando, nos EUA, no decorrer da reunião anual da Associação Americana do Coração, são animadores e deixam no ar a promessa de uma nova solução para reduzir os números negros da hipertensão. Promessa confirmada ao CM por Claudine Blaser, uma das autoras do trabalho. “Completámos o primeiro estudo em doentes com hipertensão e os resultados são promissores. Estamos a planear avançar para a nova fase do estudo já no início de 2008.”
Aquela que poderá vir a ser a primeira vacina do género actua sobre a angiotensina II, hormona responsável pela subida da tensão, a mesma sobre a qual actuam alguns medicamentos já disponíveis no mercado. A CYT006-AngQb impede que a angiotensina I se transforme em II. Os autores do estudo desenharam um fármaco a partir de partículas em forma de vírus, ainda que sem a sua capacidade infecciosa, destinados a provocar uma resposta do organismo contra a hormona hipertensora.
Ao todo, 72 doentes hipertensos experimentaram o medicamento, inoculado três vezes. E tanto os valores da tensão sistólica (a mais elevada), assim como a diastólica (a baixa) reduziram-se significativamente em todos os que foram vacinados. Resultados que, apesar de preliminares, não deixaram a comunidade científica indiferente.
A vacina, que tem sido bem tolerada e revela-se segura, sem grandes efeitos secundários, tem como principal vantagem pôr fim aos tratamentos diários actuais, que muitos doentes – 10 a 25 por cento, de acordo com as estatísticas – não levam a bom porto. No entanto, de acordo com Claudine Blaser, serão ainda necessários mais estudos “e pelo menos mais cinco anos até que um medicamento como este consiga a autorização para entrar no mercado”.
RESULTADOS PROVISÓRIOS MAS PROMISSORES
A investigação incidiu em 72 doentes hipertensos a quem foram dadas três doses da vacina. A tensão destes pacientes baixou significativamente, resultados que, embora provisórios, entusiasmaram a comunidade científica.
INIMIGO PRESENTE NOS HÁBITOS ALIMENTARES
Se, em muitos casos, são desconhecidos os motivos que levam ao desenvolvimento de hipertensão, noutros é evidente o papel desempenhado pelos estilos de vida, que permitem o aumento do número de situações. O sedentarismo e os hábitos alimentares são factores de risco identificados pelos especialistas, confirmando que a prática regular de exercício físico e o saber comer não permitem apenas manter a linha, mas podem afastar o fantasma da tensão elevada.
Ao nível alimentar, diz quem sabe que importa ter particular cuidado com as gorduras, inimigas das artérias e com o teor de sal presente nos alimentos. Por cá, abusa-se deste condimento. Um dos exemplos é o pão, um dos alimentos mais consumidos pelos portugueses, que bate recordes quando se trata de medir os níveis de sal. Contas feitas, por dia, os portugueses ingerem, em média, 12 gramas de sal, o dobro dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde. E, avança um estudo recente, não é preciso muito para salvar vidas: bastava que cada português ingerisse menos um grama de sal por dia para salvar 2640 pessoas por ano.
UM QUINTO DOS JOVENS TEM TENSÃO ALTA
A hipertensão é uma doença cada vez mais presente nas sociedades de-senvolvidas e Portugal não é excepção. Pelo contrário. As estatísticas nacionais traduzem um problema de saúde que afecta cada vez mais pessoas. Ao todo, são mais de quatro milhões e nem os mais jovens escapam.
De acordo com os dados mais recentes, entre 20 a 30 por cento das crianças e jovens com idades até aos 18 anos sofre de pressão arterial elevada. Dizem os especialistas que, destes, apenas uma minoria sabe que sofre com a doença – três em cada quatro desconhece o problema –, que aumenta entre os mais novos muito graças ao estilo de alimentação.
Entre os adultos, um estudo recente, elaborado pela Sociedade Portuguesa da Hipertensão, revela que apesar dos perigos que representa (risco acrescido de problemas cardiovasculares), os portugueses não estão muito informados sobre o tema.
Se a quase totalidade – 95 por cento – considera a doença grave ou muito grave, a maioria desconhece quais os valores a partir dos quais existe tensão arterial elevada. Identificados pelos portugueses são também muitos dos factores de risco, como o consumo excessivo de sal ou o stress, mas, apesar disto, apenas 18 por cento reconhece sofrer da doença, quando esta afecta 42 por cento dos cidadãos nacionais.
Mas os problemas não se ficam por aqui. Os dados referentes à realidade portuguesa dão ainda conta que muitos são os que não cumprem os tratamentos, aumentando o risco de problemas como os acidentes vasculares cerebrais, responsáveis por uma em cada duas mortes registadas no País.
B.I. DA DOENÇA
O QUE É
Quando a pressão arterial permanece acima dos níveis estabelecidos como normais, quer no que diz respeito à tensão alta quer à baixa, fala-se em hipertensão, problema de saúde cada vez mais preocupante nos países desenvolvidos.
CAUSAS
Na grande maioria dos casos desconhecem-se as causas do problema. Há doenças que podem ser as responsáveis pela hipertensão e há também factores de risco, como a hereditariedade e a idade, aos quais é importante prestar atenção.
FACTORES DE RISCO
Além do excesso de peso e da obesidade, entre os factores de risco está ainda o consumo excessivo de sal e de bebidas alcoólicas, o sedentarismo, uma alimentação desequilibrada, os hábitos tabágicos e o stress.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico é feito através da medição da pressão arterial e só é considerada hipertensa uma pessoa que apresente valores elevados em, pelo menos, três medições seguidas. Cabe ao médico fazer o diagnóstico da doença.
TRATAMENTO
Pode ser feito através de medicação ou alterando estilos de vida, o que inclui largar o vício do tabaco, controlar o peso, ter cuidados com a alimentação e com a ingestão de sal, assim como de alimentos ricos em colesterol e gorduras saturadas.
REALIDADE EM NÚMEROS
4,2 milhões de portugueses são obrigados a viver com hipertensão, o que faz de Portugal um dos países europeus com maior incidência dessa doença.
2 milhões de portugueses desconhecem que sofrem do problema, não recebendo o tratamento adequado para controlar a doença.
120/80mmHg é o valor de pressão arterial média que é definido pelos especialistas como sendo normal para os adultos.
140/90mmHg é o valor da pressão arterial considerado elevado. Quando verificado em repetidas medições é sinal de hipertensão.
30% dos adultos na maioria dos países desenvolvidos apresenta valores elevados de pressão arterial, fruto da vida moderna.
12% dos portugueses tem a hipertensão controlada, isto apesar de mais de 40 por cento sofrer com a doença.
50% dos hipertensos portugueses são obesos, avançam os especialistas, que alertam para a necessidade de controlar o peso.
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