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Correio da Manhã

Tecnologia
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Vírus engana o sistema imunitário

O que o vírus da sida faz é atenuar a agressividade das células do sistema imunitário. Assim passa despercebido e acaba por infectar essas mesmas células, tornando o organismo vulnerável a outros invasores [as célebres infecções oportunistas]”, explicou o cientista Rafick-Pierre Sékaly, da Universidade de Montreal, no Canadá.
4 de Novembro de 2006 às 00:00
Vírus engana o sistema imunitário
Vírus engana o sistema imunitário FOTO: d.r.
Os resultados da sua pesquisa foram publicados na prestigiada revista ‘Nature’ e abrem novos caminhos para o tratamento da doença. A descoberta revela que a chave da infecção é o próprio sistema de regulação que impede as ‘células assassinas’ do nosso corpo de atacarem tecidos e órgãos saudáveis.
Quando o nosso corpo combate a invasão de um organismo estranho, como é o caso do vírus da imunodeficiência humana (VIH), que causa a sida, o cenário é semelhante a um campo de batalha. Os primeiros a iniciar a guerra são células que actuam como generais do nosso sistema imunitário. Conhecidas pelo nome de linfócitos CD4, estas células são as primeiras a detectar o invasor, enviando sinais de alerta sob a forma de mensagens químicas para a corrente sanguínea. Os soldados do exército imunitário, células designadas como linfócitos CD8, recebem estes sinais de alerta e ficam activas, transformando-
-se em ‘assassinos implacáveis de vírus’. É aqui que o VIH engana as estratégias de defesa do nosso corpo. O mecanismo era desconhecido até à descoberta da equipa de Rafick-Pierre Sékaly.
O que o vírus faz é bloquear a proteína na superfície da célula humana (designada como PD-1). Em condições normais, isto faz com que estes ‘soldados assassinos’ do nosso sistema imunitário não ataquem o nosso próprio corpo. Quando o processo funciona mal surgem as chamadas doenças auto-imunes, como a lúpus ou a artrite reumatóide. Ao baralhar este sistema de apaziguamento, o VIH faz com que as células CD8 não o ataquem. No fundo é uma variação do ditado “lobo com pele de cordeiro”.
O potencial da descoberta é enorme e a equipa de cientistas canadianos já está a testar drogas que mantenham a ‘ferocidade’ das nossas células assassinas quando são atacadas pelo vírus da sida. A grande barreira que têm de ultrapassar é a de evitar que essa agressividade não se vire contra o nosso próprio corpo, destruindo tecidos saudáveis. “Esperamos fazer os primeiros ensaios clínicos dentro de um ano”, revelou Rafick-Pierre Sékaly.
Até agora ainda não foi desenvolvida nenhuma arma terapêutica eficaz contra a doença. Os tratamentos disponíveis com melhores resultados são os cocktails de drogas (anti-retrovirais) que retardam a progressão da infecção, mas não destroem o vírus. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a sida é o maior desafio de saúde pública que a humanidade enfrenta.
PORTUGAL COM NÚMEROS NEGROS
Portugal é o país da União Europeia onde o VIH apresenta a taxa de incidência mais elevada (280 por cada milhão de habitantes), segundo os dados da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida. “Estamos acima do dobro das taxas mais altas observadas nos restantes países europeus”, refere Henrique Barros (na foto), o coordenador nacional da comissão, no site oficial. O caso apresenta contornos ainda mais sombrios, pois os especialistas julgam que muitos doentes nem sequer aparecem nas estatísticas, ou seja, o número de infectados deverá ser muito maior. “A dimensão relativa da incidência de casos de sida é similar e nem sequer conhecemos o risco real entre populações caracterizadas por exposições particulares, como trabalhadores do sexo, homens que têm relações sexuais com homens ou utilizadores de drogas injectáveis”, diz Henrique Barros. O responsável acrescenta que a doença é um caso grave de saúde pública e exige uma resposta organizada da sociedade. Os dados mais recentes indicam que há cerca de 46 milhões de pessoas infectadas com o VIH em todo o Mundo. Até agora as políticas governamentais de prevenção têm falhado redondamente. Fica o alerta.
- O vírus aproxima-se da célula do sistema imunitário e fixa-se à sua superfície através de uma espécie de ganchos moleculares que encaixam em zonas específicas
- O revestimento exterior do vírus funde-se com a célula humana e liberta o material genético para o interior
- Dentro da célula, a cápsula do vírus começa a controlar os mecanismos da produção de proteínas
- O material genético do vírus entra no núcleo da célula e passa a controlar o funcionamento da célula humana
- A célula humana tem estruturas chamadas ribossomas que transformam as ordens do código genético do núcleo em proteínas. Quando estão infectadas pelo VIH passam a produzir proteínas virais
- O material viral junta-se à superfície e emerge um novo vírus. A célula humana acaba por se esgotar no processo e morre
CIRCUNCISÃO
Os homens circuncidados estão mais protegidos. Uma das portas de entrada do VIH é a pele do prepúcio que cobre o órgão sexual masculino
PROSTITUTAS
Apesar de terem relações desprotegidas com infectados, prostitutas do Quénia são resistentes ao VIH, por acção de um gene desconhecido
REMÉDIOS
Se o cocktail de fármacos for tomado como é devido, o tempo de sobrevivência do doente com sida pode ser de dezenas de anos
FILHOS
O português Alberto Barros desenvolveu a técnica da lavagem de espermatozóides, que permite a um portador do VIH ter filhos saudáveis
POPULAÇÃO
A Organização Mundial de Saúde calcula que sejam necessários 4 milhões de profissionais de saúde para combater a sida
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