A QUINTA DAS CELEBRIDADES TAMBÉM É SERVIÇO PÚBLICO

Passou pelos três canais da televisão, apresentou programas polémicos, e agora lidera as audiências em Portugal, com a ‘Quinta das Celebridades'. Responsável pela Direcção de Programas da TVI, Júlia Pinheiro, que adora ser subversiva e desconcertante, acusa o Governo de se “imiscuir nos media” e acredita na televisão de serviço público…

16 de outubro de 2004 às 00:00
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Ao fim de quase duas semanas, que saldo faz da ‘Quinta das Celebridades’?

É muito positivo. Estamos muito contentes, o público excedeu largamente as nossas expectativas, as pessoas entenderam que isto não é um ‘reality show’ convencional, mas sim um programa de humor. É a comédia real. E aderiram de uma forma entusiástica e absolutamente fascinadas, porque as situações são sempre hilariantes, há grandes momentos…

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Essa distinção entre ‘reality show’ e comédia da vida real é importante?

Acho que sim. Temos que ter em conta que o ‘Big Brother’ marcou muito e estabeleceu um padrão muito alto, ao nível das expectativas das pessoas e também do retorno que isso nos traz com as audiências. Seria muito difícil surpreendê-las nesse registo. Tínhamos de partir para outro. E quando o José Eduardo Moniz me mostrou a ‘Quinta das Celebridades’, apaixonei-me logo, por ser uma comédia.

Sou sempre uma grande entusiasta de produtos que tenham um pouco de marotice, de desconcerto. E vi logo que se tivéssemos um grande elenco, tínhamos um grande produto. É o que acontece…

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Na primeira gala, reparei que tinha apartes para com os concorrentes, como chamar ‘Vévé’ ao Ferreira Torres. Isso fez parte da sua estratégia ou foram momentos espontâneos?

Quando vamos à antena, a não ser quando o formato assim o exige de forma absoluta, temos que marcar, romper com o que foi feito antes. Delineei como estratégia ser aquilo que sou normalmente, irónica, brincalhona e, acima de tudo, aproveitar as situações que fossem potenciadoras de algo mais. Não estava à espera de tanto (risos). Porque os meus convidados da gala foram 400 vezes mais inesperados e mais divertidos que alguma vez poderia esperar. Divertimo-nos todos muito e quando nós nos divertimos o público diverte-se também. É isso.

MARCAR A DIFERENÇA

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Inevitavelmente, foi comparada com Teresa Guilherme, pois o público esperava algo semelhante ao ‘Big Brother’…

Essa é uma consideração que não devo ser eu a fazer, o ‘Big Brother’ é uma coisa e a ‘Quinta das Celebridades’ outra. Acho que fizemos um bom produto, essencialmente. Apresentamos um programa que surpreendeu e se tenho alguma coisa para dizer nesta altura é que, o público é tão exigente, e tão ávido de novidades que temos é que fazer diferente.

Quando estrear (hoje) o ‘1,2,3’, admite que se vai falar de uma concorrência entre a Teresa Guilherme, na RTP, o Herman José, na SIC, e a Júlia Pinheiro, na TVI?

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Não sei. É provável… Essa é a análise fácil, dizer que as coisas estão divididas entre a Júlia na TVI, a Teresa na RTP e o Herman na SIC. Mas essa é apenas a análise superficial, porque no fundo estamos a apresentar coisas completamente diferentes, em horários diferentes, em estações diferentes, com públicos diferentes, em dias diferentes de consumo. Sabemos que a indústria tem de fazer outra avaliação, pois são produtos diferentes…

Diferentes mas concorrentes…

A Teresa vai apresentar um concurso, o meu é um ‘reality-show’, e o Herman está a fazer um programa de entrevistas, que já está no ar há muito tempo…As comparações são inevitáveis, mas não me preocupam grandemente.

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RTP POLÉMICA

A Júlia Pinheiro protagonizou uma saída bastante polémica da RTP…

Fez esta semana dois anos que vim para a TVI. Foram dois anos muito cheios, e acho que só vale a pena viver assim, com intensidade. Sai da RTP num processo tumultuado, e que ainda não está sanado. Tenho pela RTP um grande carinho, pelas pessoas que lá trabalham, e não me canso de dizer isto. Tenho, inclusive, um grande carinho pelas pessoas que lá estão a dirigi-la.

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Tenho uma relação de grande proximidade com o Nuno Santos (director-adjunto de programas), desde o tempo em que apresentámos juntos a ‘Praça Pública’, e tenho o maior respeito e uma relação de afinidade com Luís Marques (administrador). As outras pessoas não conheço de lado nenhum.

Nomeou apenas dois que vieram da SIC…

Sim, temos percursos paralelos. Mas na RTP sempre se portaram bem comigo. O que eu lastimo profundamente que tenha acontecido foi que a minha saída tenha sido desencadeada, assim como a de Emídio Rangel, por algo que era alheio à televisão. E que agora estamos a ver a uma escala muito mais complexa, muito mais tenebrosa e nebulosa, com o que se está a passar em relação ao professor Marcelo.

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GOVERNO IMISCUI-SE

Especificamente, que críticas são essas?

Ressalvando-se aqui que não sei o que se passou com o professor Marcelo, há de facto um governo que iniciou uma campanha e que se imiscui nos media. O que é que um governo tem que ver com salários, com políticas de uma entidade privada, como a TVI? É essa mesma entidade, que nem sequer é abstracta, que se imiscui e usa as bandeiras relacionadas com a comunicação social de forma oportunista, pouco séria e pouco honesta.

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A sua leitura é muito dura…

A bandeira da reformulação da RTP foi panfletária, foi demagógica, os problemas do país não são a RTP. A RTP tinha um problema, obviamente, e ao nível da reformulação, do saneamento financeiro, meus senhores, o meu aplauso. Agora não era, com certeza, afrontando os seus profissionais e propondo de forma desonesta como me foi feita a mim, a minha permanência. Eu podia ter ficado, a RTP não quis que eu saísse, o processo de negociação é que não foi correcto. Do meu ponto de vista, pelo menos. E é esse lado das coisas que eu, que sou muito sensível à metodologia e à prática, me deixou de unha de fora e não consegui ficar.

Admite ter sido um bode expiatório do despesismo da RTP?

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Fui. Mas circunstancialmente isso pode acontecer na vida. Por outro lado, isso conduziu-me aqui e estou muito contente na TVI. Há muito tempo que tinha uma grande vontade de trabalhar com o José Eduardo, tenho grande admiração por ele e estou muito contente.

Tem saudades da estação pública?

Se calhar esse percurso acidentado e rochoso que tive na RTP trouxe-me aqui. Gostei muito de fazer programas como o ‘Elo mais Fraco’, o ‘Jogo da Espera’ e teria feito outros, se tivesse ficado na RTP.

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TV SUBVERSIVA

Marcou uma geração da TV com formatos polémicos, como ‘Noite da Má Língua’, ‘Os Filhos da Nação’, na SIC. Hoje, era possível fazer igual?

Está-me cá a parecer que temos que fazer, com o caminho que isto leva! ‘Os Filhos da Nação’ é um programa que pode ser feito em qualquer momento, mas na altura foi muito mal entendido. Se aparecesse hoje na SIC Radical toda a gente aplaudia. Mas foi de tal forma vanguardista que só mesmo o Emídio Rangel é que aceitaria. Nunca teve más audiências, mas também não foram extraordinárias. Era um programa com propostas muito ousadas, do ponto de vista político e altamente subversivo, muito mais até que o ‘Noites da Má Língua’.

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Teve momentos realmente muito bons, como quando, no mesmo dia, conseguimos inscrever a mesma pessoa em todos os partidos, e no CDS/PP foi imediatamente convidado a integrar as listas para as autárquicas. Isso é histórico. Só que na época não teve o retorno que podia ter tido hoje. Mas acho que vamos ter de fazer programas desses. O problema é que hoje o panorama é diferente.

As televisões generalistas são mais sensatas, apostam em formatos consensuais e abrangentes, como a ‘Quinta das Celebridades’.

A ideia é não incomodar?

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Sim, a ‘Quinta das Celebridades’ não incomoda ninguém, apanha todos os públicos. Para ser rentável, é esse o caminho para as generalistas. O cabo é diferente. E, nesse aspecto, tiro o chapéu à SIC Radical. Esse é o caminho do cabo, daí que tivéssemos aqui, na TVI, grande expectativa com os canais cabo, e temos recebido imensas ideias para fazer coisas engraçadas. Vamos ver…

A direcção de programas gostava de alargar ao cabo?

Temos a perfeita noção de que no cabo poderíamos aplicar outros programas. Temos coisas giríssimas em carteira e se estivéssemos no cabo poderíamos executar algumas delas.

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A Júlia defende o humor. Custou-lhe apresentar o ‘Eu Confesso’, um programa muito pesado?

Fico sempre espantada com essas perguntas que me fazem. A televisão é uma janela para mostrar o que há. Incomoda-me muito, é que, de uma forma generalizada, há um enorme preconceito em relação à nossa capacidade de olhar e ver aquilo que é a realidade do País. Se uma coisa a minha profissão me deu, é um respeito imenso pelos humildes e por aqueles que não têm voz. Quando dizem que a televisão dá a mão à desgraça, é essa também a nossa vocação. Porque a vida é feita das duas coisas. Adorei fazer o ‘Eu Confesso’. Foi dos programas que, do ponto de vista humano e da minha curiosidade jornalística, me encheu as medidas quase sempre.

“FAZEMOS OPÇÕES COMERCIAIS”

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Hoje, ainda faz sentido a dicotomia televisão pública versus televisão privada?

Essencialmente, a televisão privada cumpre os ideários de cada um dos seus operadores e temos que ter noção que num canal privado tem que existir investimento e retorno. Fazemos opções comerciais, que têm que ver com captação de audiência e tentamos fazer o melhor que sabemos. Podemos é equilibrar esses dois critérios: ou seja, captação de receitas e diversão, entretenimento. A televisão pública tem outra vocação.

Tem ou deveria ter?

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A orientação está lá. Não sei é se tem expressão na antena. Neste momento sinto a RTP num grande imobilismo, como acontece frequentemente, e as grandes propostas que estão neste momento visíveis, foram feitas pelo Emídio Rangel há três anos.

O ‘Preço Certo’, ‘Operação Triunfo’, as séries. Lembro-me que quando ele descobriu o ‘Preço Certo’ a crítica matou-o, os jornais desfizeram-no. Quando contratou o Camilo de Oliveira, que hoje faz largas horas de emissão na RTP, disseram que ele era louco, demencial, o que interessava aquele tipo de humor ‘demodé’ para a RTP? Todas as escolhas que ele fez são hoje o esqueleto da programação. As únicas que não foram dele são as que estão agora a aparecer, como ‘Segredo’, ‘A Ferreirinha’, o ‘1,2,3’… Portanto, tudo é circunstancial e relativo e está contextualizado no tempo.

Faz sentido a guerra que se travou entre a televisão privada e a pública? Admite que um canal privado se renda menos às audiências?

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Bem, há aqui um grande erro de análise. Pelo facto de não termos o mesmo embrulho que os outros, não significa que estejamos a passar imagens tão importantes, ou mais, do que a RTP.

Mas os produtos são francamente diferentes…

Vamos levar as coisas ao limite. A ‘Quinta’, que é um exercício de comédia e de delírio, leva para a antena algo que têm a ver com a vida rural, com o trabalho do campo. E estamos a valorizar um tipo de sabedoria que há muito não se via nem em ‘prime-time’, nem em horário nenhum. Não é serviço público? O embrulho é que é diferente… Quando fazemos uma ficção como ‘Morangos com Açúcar’ estamos a fazer serviço público porque também falamos de droga, dos problemas dos miúdos, dos divórcios dos pais, de problemas que atravessam a sociedade portuguesa… O problema da televisão é sempre a forma como apresenta a coisa. Uns apresentam de uma maneira chata, outros de forma a captar grande audiência. Não creio que nos tenhamos demitido da nossa missão de serviço público, de todo, fazemos diferente.

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ESCRAVOS DO TELECOMANDO

Sente-se escrava das audiências?

As audiências são um instrumento de trabalho, identificam aquilo que as pessoas querem ver. São um instrumento que uso todos os dias, para ver o que interessou às pessoas… . Por outro lado, temos de estar atentos a que o público só vê se quer, e se não gosta muda de canal.

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O telecomando é que nos escraviza a todos, o telecomando é a arma mais poderosa da televisão portuguesa. O público faz ‘zapping’ quase de 30 em 30 segundos. Ter a capacidade de os manter agarrados dois minutos é uma missão violenta e dificílima. Essa é que é a nossa missão…

’ESTOU MUITO PREOCUPADA COM A SITUAÇÃO’

Como vê a liberdade de expressão, em Portugal e no Mundo?

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É uma altura estranha. Estou muito preocupada com a situação porque estamos

a viver com um Governo que não foi legitimado pelo voto. Estamos na presença de um grupo de pessoas que está no poder, seríssimas com certeza, mas algumas mais bem preparadas do que outras.

Mas estão a configurar-se aqui situações que me provocam grande inquietação. Gostaria muito, por exemplo, que este caso do professor Marcelo, que está mobilizar tanto com o interesse das pessoas, nos levasse a reflectir sobre uma série de coisas e a tirar conclusões… Estou muito expectante sobre o que se está passar. O professor Marcelo é um homem brilhante e acho perfeitamente ridículo este ataque que lhe foi feito sobre o contraditório. Era de longe o mais brilhante dos analistas que existem em todas as estações, quer de áudio quer de vídeo.

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Aos 42 anos, mãe de duas filhas, que diz serem “as únicas pessoas que mandam” na sua vida, Júlia Pinheiro dá cartas na Direcção de Programas da TVI. Começou aos 19 anos na RTP, passou pela rádio, e em 1992 entrou para a SIC a apresentar ‘Praça Pública’. Na mesma estação destacou-se com formatos subversivos, como ‘Noite da Má-língua’, ‘Os Filhos da Nação’ e ‘Cantigas de Mal Dizer’. Passou pelo ‘SIC 10 Horas’ e ‘Noites Marcianas’, e acabou por regressar à RTP onde deu a cara ao formato ‘O Elo Mais Fraco’. Após uma saída tumultuosa da estação pública, assinou pela TVI, onde é hoje o rosto do mais badalado programa televisivo da actualidade.

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