“Ao ver as cenas íntimas pensei: a ingenuidade é maravilhosa"

Dez anos após a estreia do reality show, Marta Cardoso explica como tirou proveito da sua participação no concurso da TVI e garante que nunca haverá uma edição como a primeira.

13 de agosto de 2010 às 00:00
“Ao ver as cenas íntimas pensei: a ingenuidade é maravilhosa" Foto: Bruno Colaço
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- Sempre vai unir forças com a TVI para as celebrações dos 10 anos do ‘Big Brother’?

A TVI gostou da ideia de reunir os concorrentes da primeira edição, mas ainda não há nada concreto. Com ou sem TVI gostava realmente de juntar os meus colegas do Big Brother. É uma ideia que tenho vindo a ‘cozinhar’ há já algum tempo e achei que faria algum sentido aproveitar o facto que o BB faz 10 anos para estarmos juntos. Porque, por mais voltas que a vida dê e por mais pessoas que encontre, vão ser sempre aqueles. Vivemos em diferentes pontos do País, cada um tem a sua vida, e se não for alguém a organizar estas coisas é complicado. Por isso vou fazer todos os possíveis para reunir as pessoas em Lisboa. Podemos fazer um jantar, algumas brincadeiras, recordar momentos que partilhámos. Celebração haverá certamente.

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- Tem mantido contacto com os ex-concorrentes?

Com uns mais do que outros. Mantive contacto com o Mário e depois com a família dele, porque as circunstâncias não permitiam outra forma (esteve preso). Mantive sempre contacto com o Zé Maria, que trabalhou comigo na Comunicasom, com o Marco, porque é pai do meu filho, e com o Telmo, porque o Marco e o Telmo são amigos. Com quem já não falo há muito tempo é, de facto, com a Célia, a Sónia e a Susana, além dos que sairam primeiro e que lhes perdi completamente o rasto.

- Uma década depois do ‘BB’, como recorda a experiência?

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É uma experiência que me marcou, pois deu um novo rumo à minha vida. As pessoas costumam perguntar-me: e se não tivesse participado? Não faço ideia. Não faço ideia do que seria a minha vida hoje ou que caminho teria escolhido se não fosse o BB. Com a participação no programa a minha vida deu uma volta enorme, resultados que eu nunca tinha sonhado ou ambicionado para mim. Por aí tenho que dizer que é um ponto marcante da minha vida, sempre até à minha morte. Foi muito bom, porque a experiência em si foi maravilhosa. Agradeço a Deus todos os dias a ignorância e a ingenuidade que tinha na altura, pois foi isso que me permitiu viver a experiência daquela maneira, com toda a autenticidade, tanto para o bom como para o mau. Foi autêntico, foi o que era possível na altura, tinha 23 anos. Não tinha responsabilidades e na altura fazia sentido, e fez. Não me arrependo nada, pelo contrário.Foi uma experiência que provavelmente nunca mais terei oportunidade de repetir na vida e mesmo se tivesse não seria certamente a mesma coisa. Virou a minha vida, trouxe-me um filho, deu-me oportunidades que, se calhar, nunca teria, abriu-me muitas portas.

- Quando concorreu não sabia ao que ia. Tinha conciência do que era o formato?

Nem eu nem a maioria das pessoas. O programa em si nem foi muito divulgado, foi mal explicado. Eles quiseram fazer o factor surpresa e este estendeu-se também às pessoas que participaram. Soube três dias antes que ia participar e foi o tempo de fazer as malas e partir à aventura. Sabia mais ou menos as regras do concurso, tudo o resto fui descobrindo lá. Mas estavamos todos ali para nos divertirmos, para ir ao desconhecido. Houve coisas que nos agradaram mais, outras que nos agradaram menos, mas esse é que era o desafio. Se tivessemos tido tempo para nos prepararmos para tudo certamente não teria piada nenhuma. Se soubessemos o feedback que aquilo tinha cá fora as coisas seriam totalmente diferentes , porque ninguém consegue ser indeferente ao que já sabe. E quem não sabe é como quem não vê. Por isso foi uma sorte sermos os primeiros.

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- Nunca se arrependeu?

Não, nunca.

- Concorria ao BB2?

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Não. Por várias razões: porque já sabia o que era e ao saber, estaria sempre contida. Já sabia o que as pessoas criticavam, o que as pessoas aplaudiam. Por mais que quisesse ser genuína, seria muito difícil. Seria outra Marta e não aquela que fui, além de também não tirar o mesmo proveito da experiência. Nem o público.

- Foi então esse o segredo do sucesso do primeiro ‘BB’...

Os participantes das outras edições não eram menos que nós, se calhar até eram mais interessantes. Nós é que tivemos o privilégio de participar sem saber de nada. Não foram os participantes que fizeram do BB1 o sucesso que foi.

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- Ainda se justifica haver mais edições?

Não posso ser um exemplo fiel de um espectador do BB, pois não vivi isso, nem sequer o impacto. Quando cheguei cá fora o mundo estava virado do avesso. Não consigo olhar para o BB com a mesma perspectiva das outras pessoas. A única coisa que posso dizer é que, tendo em conta o sucesso que teve em todas as edições, justifica a sua continuação. Além disso, sinto que as pessoas têm sede, mas uma sede muito agarrada à ideia do que foi o primeiro e isso nunca mais vai acontecer.

- Porque é que concorreu?

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Foi um amigo que me inscreveu. Foram-me chamando para os processos de selecção e eu fui indo por brincadeira. Nunca pensei que me escolhessem entre milhares de pessoas. Era estudante, a minha matrícula seria feita na mesma, apenas perderia ¾ meses que seriam facilmente recuperaveis. Trabalhava no bar do meu pai, por isso sabia que o lugar estaria à minha espera quando saisse. As despesas que tinha era com o meu carro, que ia estar parado. Não tinha nada a perder, pelo contrário. Tinha que experimentar.

- Ganhou muito dinheiro graças ao ‘BB’, em 200?

Sim, fiz presenças para as quais me pagaram, por exemplo. A participação no programa valeu-me 120 contos por mês (600 euros). Portanto, quando saí de lá vinha maravilhada. Tudo o resto foi fruto do meu trabalaho, obviamente, ajudado pelo facto de ter participado no ‘BB’. O programa abriu-me as portas e eu fiz o meu caminho.

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- Mas houve quem não conseguisse fazer o mesmo?

Em alguns casos teve o efeito inverso. É um risco. Se as pessoas gostarem de nós muito bem, caso contrário ficamos pior do que estavamos. É uma lotaria.

- Dentro casa, esqueciam-se das câmaras?

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Muitas vezes sim. Sabiamos que elas estavam lá, mas a importância que lhe davamos é que era outra. Como não sabiamos o impacto que as imagens tinham no exterior, era muito fácil abstrairmo-nos delas. Alguma vez me passou pela cabeça que aqueles infravermelhos mostravam o que mostravam...

- O que pensou quando viu essas imagens?

Ao ver as cenas íntimas com o Marco pensei que a ingenuidade é, realmente, uma coisa maravilhosa. Ainda bem que não tinha essa noção.

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- E quando saiu da casa do ‘BB’, teve um grande choque?

Tive a sorte monumental de ter o Marco, com quem tinha uma relação. Na altura ele já estava cá fora há um mês e meio. Ele já estava inteirado de tudo e ajudou-me a enfrentar as coisas. Tive essa vantagem. Foi relativamente fácil, apesar do choque. No início achei muito engraçado, depois houve uma altura em que julguei que não tinha arcabouço para lidar com aquilo, mas também sabia que não havia volta a dar. Por isso, ou ficava inadaptada e tinha que emigrar ou então lidava com a situação e tirava algum proveito dela, até a nível pessoal. Isto no fundo não passava de mais um desafio.

- Mas não é para todos?

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É preciso ter muito bom senso, ter apoio das pessoas certas e mesmo assim.

- Zé Maria, por exemplo, teve de receber tratamento psicológico. Isso supreendeu-a?

Pelo que conheço dele, não. Sempre foi um indivíduo muito frágil, que vivia no seu próprio mundo. Não soube lidar com toda aquela popularidade. O facto de estar sozinho em Lisboa, fora do seu ambiente, piorou as coisas. Mas, sejamos francos, isto também parte da cabeça de cada um. Tentei entrar em contacto com ele na altura, mas não foi fácil, porque ele  desligou os telemóveis e isolou-se.

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- Houve acompanhamento psicológico dentro da casa?

Sim, lá dentro sempre que precisávamos. Não era imposto. Eu própria recorri uma vez ou duas, mas houve quem precisava de mais. Depois do programa, não. Mas, caramba, ninguém previa aquele impacto. Não podem acusar a TVI ou a Endemol de falta de acompanhamento porque nós não eramos filhos de ninguém. Fomos para ali por brincadeira, é um facto, mas também ninguém nos prometeu que nos ia acompanhar ou arranjar trabalho. As pessoas é que criaram essa expectativa.

- Há muitos que concorrem em busca de fama...

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Acho que vivemos numa sociedade de imagem em que vale tudo. Não posso culpar as pessoas de sonharem. As formas que as pessoas utilizam para lá chegar diz muito da estrutura de cada um. No fundo, acho que as pessoas procuram concretizar um sonho, uma oportunidade. Mas é como tudo: encontrar a porta é fácil, o difícil é passá-la para o lado de lá, manter a fama.

- Se, um dia, o seu filho quisesse participar num programa como este?

Terá idade para ter toda a liberdade para decidir sobre a sua vida. O meu dever é apoiá-lo e passar-lhe o que sei. Cabe a ele fazer uma pior ou melhor utilização dessa informação. Mas, como toda a gente, tem que cometer os seus erros e viver as suas vitórias. A única coisa que podia fazer era explicar-lhe o bom e o mau destes programas.

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- Quais seriam os conselhos para ele ou para qualquer um que queira participar num BB’?

Não há muito a dizer. As pessoas quando são seguras de si e têm uma personalidade forte são autênticas em todas as circunstâncias. Quando são inseguras tendem a ir ao encontro das expectivas dos outros. Isto acontece seja onde for. Quando uma pessoa participa num reality show para tentar agradar aos outros anula-se e não mostra o que tem de melhor. Acaba por sair frustrada. Por isso, o meu conselho é: divirtam-se!

- Acha que houve manipulação por parte das câmaras, podiam ter mostrado outras coisas?

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Só se estivessem a emitir 24 horas por dia. Se calhar, se fosse eu a escolher, faria pior. Acho que fizeram o melhor que sabiam. Uma coisa é certa: não passaram nada que não tivesse acontecido.

- A agressão do Marco à Sónia é um exemplo da pressão a que estavam sujeitos?

Sabíamos que a qualquer momento a coisa ia rebentar entre eles, pois existia uma tensão crescente entre o Marco e a Sónia, duas pessoas com personalidades muito fortes. Nunca saberemos ao certo o que ele ia fazer, porque o Telmo e o Zé Maria prenderam-lhe os braços e ele atingiu-a com a perna. Encostou, não foi propriamente um pontapé, mas não deixa de ser uma atitude violenta. É claro que havia pressão por estarmos fechados naquela casa há muito tempo, mas o ambiente geral era bom. Eu tinha acabado de me envolver com o Marco, o Telmo e a Célia também. A tensão era entre os dois.

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PERFIL

Marta Cardoso nasceu há 33 anos em Loures. Quando concorreu ao ‘Big Brother’ estudava comunicação Social e trabalhava no bar do pai. Hoje é coordenadora do curso de TV da Escola luxus, em Lisboa, é repórter do Canal V, da Cabovisão, e apresenta ‘Big Mundo da Marta’ na Rádio Voz de Alenquer. Está a escrever um livro sobre o ‘BB’.

O CASAL MAIS MEDIÁTICO: CASAMENTO E BEBÉ 'BIG BROTHER'

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Marta Cardoso e Marco Borges fora o casal mais mediático do ‘BB’. O casamento de ambos deu mote ao programa ‘O Anel de Marta’ e o casal teve um filho, que nasceu a 19 de Março de 2002, chamado Marco. O casal separou-se em 2005.

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