ASSOCIAR O GOSTO PELA CULTURA AO MEU CASAMENTO… NÃO FAZ SENTIDO
Aos 30 anos, continua a ser a ‘bomba televisiva’ que era aos 20. Mais madura, mais serena, é no cabo que agora se sente bem. Não fecha as portas ao grande entretenimento ou ao regresso ao jornalismo puro e duro, mas quer continuar a desmistificar a cultura, esse “espaço de liberdade e prazer”. Rejeita a ‘máscara intelectual’ que alguns insinuam e afirma que é “a Bárbara de sempre”. Na hora do regresso à televisão, na primeira grande entrevista após a maternidade, Bárbara Guimarães abre o livro…
Depois de quatro meses em casa, como foi o regresso à televisão?
Foi muito bom e completamente motivador. Quando regressei, o Ricardo Costa (director da SIC Notícias) disse-me que gostaria de continuar com o ‘Págimas Soltas’ e eu fiquei muito contente, porque é exactamente o que me apetece fazer neste momento.
E como foi atravessar quatro meses de licença de parto sem fazer TV?
Foram quatro meses em que me fechei ao mundo, embora sabendo o que o mundo tinha lá dentro. Mas vi muito pouca televisão. O que vi foi muito seleccionado. Olhe, estive atento a alguns formatos internacionais sobre livros. Nos canais franceses, por exemplo, vi alguns programas que eu gostava de apresentar. Mas para já estou com o ‘Páginas Soltas’, que tem uma forma muito interessante de abordar as artes e a leitura. Uma forma desmistificadora.
Que ecos tem tido do público?
Muito bons. O programa tem chegado aos espectadores. Tenho recebido muita correspondência por parte de leitores e espectadores interessados nos livros de que aqui falamos. Por exemplo, nesta nova série temos tido o cuidado de só falar de livros que podem ser encontrados nas livrarias. Eu recebi dezenas de ‘e-mails’ na primeira série com desabafos de espectadores que não conseguiam encontrar determinadas obras.
Isso é muito estimulante…
Claro que sim, e é porque o programa não é chato, consegue fluir, é interessante, porque tem histórias contadas pelos convidados, que são de várias áreas da sociedade e que vão ali falar dos seus livros, daqueles que gostam das palavras. O mérito do programa é muito também do Pedro Dias, um realizador com quem gosto muito de trabalhar.
Os livros sempre fizeram parte da sua vida?
Sempre. Eu sempre li muito. Os meus gostos variam muito e dividem-se entre livros de arte, poesia e romance. E pouco ensaio. Tenho pouco ensaio em casa. E tenho uma relação muito próxima com os meus livros. Há obras de poesia que gosto de revisitar. Por exemplo, eu tenho os livros todos sublinhados. Dou-lhes vida. E recorro muito à literatura para ‘roubar’ aquilo que não sei escrever.
É, portanto, uma ligação antiga…
Sim, habituei-me desde muito nova a lidar com livros. Por exemplo, na escola, onde havia leituras obrigatórias de obras, eu nunca lia os livros de resumos, antes, devorava os originais, porque sempre gostei. Camilo, Eça, Florbela Espanca, porque tinha uma professora que adorava, e que achava que devíamos aprender Florbela. E, depois, como todas as pessoas da minha geração, li aqueles livros imortais de aventuras, os ‘Cinco’ e por aí fora. Além disso, adormeci ao ouvir histórias de Sophia que me eram contadas pela minha mãe.
Eu faço-lhe esta pergunta porque a sua carreira televisiva levou uma viragem recente, de há dois anos para trás, em que abdicou do grande entretenimento na SIC para se dedicar à cultura na SIC Notícias.
Esta não é a primeira viragem na minha carreira. Já houve mais. A primeira grande mudança foi passar do jornalismo, com estágio feito durante dois anos na redacção da TVI, para o entretenimento na SIC. Eu fiz o estágio, para ter carteira profissional, que acabei por entregar quando vim apresentar o ‘Chuva de Estrelas’.
JORNALISMO CULTURAL
O jornalismo é um capítulo encerrado na sua vida?
Não sei se é um capítulo encerrado. O que eu faço neste momento na SIC Notícias é algo que podemos qualificar de jornalismo cultural. Há jornalistas da área da economia, da política, do desporto. Eu tenho formação jornalística, curiosidade jornalística, gosto de conversar, perguntar e estou numa área em que, por natureza, me sinto bem, que é a área cultural.
Mas, por exemplo, voltar a ter carteira profissional de jornalista…
Não faz parte dos meus planos, mas não é algo que eu possa dizer que jamais voltarei a ter. Depende das circunstâncias, não fecho a porta a nada, mas neste momento o jornalismo puro e duro, como fiz no ‘Novo Jornal’, com Artur Albarran e a Sofia Carvalho, não faz parte dos meus planos. Os meus projectos de programas televisivos na SIC continuam a ter a ver apenas com esta componente cultural, os livros, a literatura, a língua portuguesa…
Sente saudades daquele tempo como pivô? Gostou?
Gostei de todas as fases da minha vida. Comecei assim: eu era uma menina que não sabia nada, mas que queria ser jornalista. Comecei o curso de Relações Internacionais, depois aprendi na redacção, até chegar o convite do Albarran.
Tinha noção que eram apenas o lado decorativo da experiência do Albarran?
Sim, éramos duas meninas, duas miúdas sem experiência alguma, uma loura e uma morena, a ajudar o pivô central, o Artur. Era uma forma de dar mais brilho ao programa. Temos essa noção, clara.
E nessa altura levou a sério o sonho de ser jornalista…
Absolutamente, por alguma razão decidi tirar o curso do Cenjor (Centro Protocolar de Formação de Jornalistas). Eu queria saber o que era estar atrás de uma câmara, eu queria aprender a editar uma reportagem. E, portanto, eu queria aprender tudo, eu sou ávida de informação.
O FASCÍNIO DA DESCOBERTA
E depois dá-se o convite do Emídio Rangel para suceder ao José Nuno Martins e dar um novo ‘élan’ ao ‘Chuva de Estrelas’, na SIC...
Mas, por estranho que possa parecer, o que mais seduziu no convite, não foi a ideia de apresentar um programa de entretenimento, ou o ‘glamour’ de um espectáculo, nada disso. A primeira coisa em que eu pensei foi ‘eu quero saber o que está por detrás de um programa de televisão com meios, com equipas, com estruturas’, coisa que não havia na informação da TVI.
Portanto, foi de novo a ideia de aprender, de descobrir…
Sim, claro.
Mas havia obviamente o fascínio do estrelato…
Não, nada disso. Nem sequer tinha essa noção. Foi apenas a curiosidade. É evidente que o ‘Chuva’ já era um programa de sonhos, a Catarina Furtado já lhe tinha dado esse cunho. E eu tinha 23, 24 anos e queria conhecer mais coisas, inovar, fazer novos formatos.
Sim, mas sabia que o entretenimento a catapultaria mais facilmente para o ‘estrelato’…
Tive essa noção no início do programa, sim, até porque houve desde logo a comparação que a imprensa fez com a Catarina Furtado. Até se inventou uma suposta rivalidade entre mim e ela, que nunca existiu: somos pessoas diferentes, damo-nos bem, isso já foi completamente desmentido por ambas. Eu apercebi-me do impacto do ‘Chuva’, quando começaram a chover pedidos de entrevistas por parte dos jornais e revistas. Era todo um mundo novo a que eu não estava habituada na TVI.
Como é que conviveu com isso?
Esse é o lado normal para quem trabalha em televisão. Obviamente dei essas entrevistas, até porque isso interessava à promoção da própria SIC. Mas eu tentei abstrair-me um bocado dessa questão, porque eu estava era preocupada em fazer o meu trabalho. Essa é sempre a minha prioridade. Eu sou uma profissional da televisão e é sobre a minha vida profissional que eu tenho de falar.
A sua primeira incursão por terrenos culturais na SIC foi em ‘Duetos Imprevistos’, com o maestro António Vitorino de Almeida. A crítica não foi simpática. A Bárbara gostou?
Foram três anos fantásticos. De repente, abriu-se-me a porta para a Europa. Podemos discutir se os programas funcionaram ou não, mas eu gostei muito. Na minha perspectiva, funcionaram. Acho que estão ali belos documentos sobre a história dos grandes músicos clássicos. E foi uma forma de levar a música clássica a todas as pessoas.
O CABO COMO ALTERNATIVA
Como é que analisa o panorama televisivo português?
Acho que há um dado inquestionável e que hoje toda a gente reconhece: a televisão por cabo veio dar uma grande qualidade e diversidade à oferta televisiva que temos em Portugal. E neste aspecto, a SIC Notícias é uma ilha. E é a verdadeira alternativa às generalistas, que hoje em dia competem com telenovelas, telejornais e programas de humor. É o mercado, eu sei, mas ainda bem que exige uma alternativa como a SIC Notícias.
O facto de se mostrar tão identificada com a SIC Notícias e com este tipo de programas de cariz cultural é um fechar de portas definitivo ao grande entretenimento?
Não, eu não fecho as portas a nada. É evidente que quando saltei da apresentação de notícias para o ‘Chuva de Estrelas’ sabia que estava a fazer uma viagem sem retorno. Apresentar notícias parece-me um cenário agora mais difícil. Mas fazer reportagens, ou apresentar um programa de outro tipo… porque não?
Portanto, voltar à apresentação de um grande concurso, tipo ‘Mentes Brilhantes’ não lhe desagradaria?
Eu gostei muito de fazer o ‘Mentes Brilhantes’, mas também não têm aparecido formatos interessantes para eu equacionar essa questão.
Por exemplo, gostaria de apresentar um programa como o ‘Ídolos’, apresentado por Sílvia Alberto e Pedro Granger?
Não. O programa está bem entregue.
Foi apenas um exemplo....
Há caminhos que não devem ser repetidos. Além disso, eu estou muito contente com este percurso que tenho trilhado nos últimos anos, mostrar às pessoas que a cultura não é uma coisa chata, é um espaço de prazer, de liberdade, de fruição. Os livros são aquilo que nós quisermos fazer deles. E que bom que é sentir que essa mensagem pode passar. Os programas que eu faço não são programas intelectuais, são para toda a gente.
DISPONÍVEL PARA A SIC
Pois, mas uma coisa é trabalhar num canal do universo cabo, outra coisa é apresentar um programa para um milhão e meio de pessoas. E durante anos, a Bárbara foi capa de revistas, foi o trunfo de audiências da SIC. Isso acabou?
Mas hoje as audiências estão muito repartidas, as coisas mudaram. De qualquer forma, se o meu director de programas tiver uma ideia de programa que ache que se coaduna comigo, muito bem, veremos.
O que eu estou a tentar perceber é se este seu caminho para a vertente mais cultural inviabiliza um regresso a um entretenimento ‘light’ de grande espectro, para as classes C e D, que são as maiores consumidoras de televisão generalista?
Depende das ideias. Eu não sou contra o entretenimento, portanto tudo depende das ideias.
UMA NOVA BÁRBARA
Mas reconhece que o público português olha para si com outros olhos. Hoje é outra Bárbara Guimarães, muito diferente da outra do ‘Chuva’…
Sim, mas tenho mais dez anos, as pessoas evoluem, crescem. E eu também sou assim. Já não sou nenhuma menina.
Há quem associe essa sua viragem na carreira ao seu casamento com Manuel Maria Carrilho, antigo ministro da Cultura do governo de António Guterres… Não a incomoda isso, o facto de as pessoas pensarem ‘olha, lá está ela, a tentar passar uma imagem diferente…’
Associar o meu gosto pela cultura ao meu casamento não faz sentido. Eu sempre li, não foi agora que comecei a ler. No arranque da SIC Notícias, ainda com o Nuno Santos, eu expliquei que estaria disponível para colaborar, e logo lhe disse que gostaria de fazer este tipo de magazines. É verdade que esta maior visibilidade dos meus programas da SIC Notícias acontece quando eu me caso, mas eu sempre li, eu sempre convivi com livros, porque em minha casa sempre os houve. Portanto, essa ideia de que eu estou a tentar passar uma imagem de menina culta só porque me casei… não faz qualquer sentido. Eu não me tornei uma intelectual.
SABOREAR A MATERNIDADE
A maternidade trouxe-lhe outras preocupações? Sente-se hoje mais inquieta, com mais medos, inseguranças?
Há um caminho normal, que tem a ver com a idade. Eu hoje tenho 30 anos, tenho preocupações que há dez ou 15 anos não tinha, isso é evidente, e não decorre directamente da maternidade. Ser mãe e toda esta experiência é um admirável mundo novo, mas é ainda tudo muito novo para mim. Para já, estou ainda a saborear o momento. Tudo o que poderá vir de medos, atenções, receios, chegará no tempo certo, aos poucos…O importante é estarmos a viver este momento tão bom e de assistirmos à constituição de uma família que começa aqui.
A Bárbara acompanha todo o crescimento da SIC, porque entra no período áureo da estação…
Sim, naqueles anos em que a SIC era um colosso, que liderava todas as audiências em todos os segmentos horários.
Emídio Rangel já garantiu um lugar na história da comunicação social em Portugal?
Sim, seguramente. Ele é o grande impulsionador, uma personalidade marcante para toda a gente que viveu essa fase inesquecível da SIC.
Era uma fase muito diferente da actual…
Era, mas a própria televisão portuguesa também. E o actual director de programas da SIC, Manuel Fonseca, tem conseguido gerir muito bem a estação, com muito menos dinheiro e conseguindo oferecer a programação que os portugueses gostam e com grande rigor. Por isso é que a SIC continua a ser a televisão mais vista. Além disso, a SIC é um grupo grande, tem quatro canais temáticos, é uma grande empresa.
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