CHEGOU A VEZ DAS MULHERES

A hora é de fazer rir. A inteligência, a originalidade do texto e a linguagem corporal dispensam cenário e artefactos. A isto se chama ‘stand up comedy’, ou ‘comédia de autor’. A televisão portuguesa, à segunda-feira, na SIC, ensaia este género de entretenimento.

01 de fevereiro de 2003 às 17:19
CHEGOU A VEZ DAS MULHERES Foto: João Barata
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“Tem havido juventude, irreverência e um bom entrosamento entre actores. E as gargalhadas não são enlatadas. Estou satisfeito”. Quem assim fala, em jeito de balanço, é Marco Horácio, o apresentador de “Levanta-te e Ri”, programa que a SIC anunciou como inovador ao fazer uma incursão no universo da “stand up comedy”. E porque não quer transformar esta original produção num reduto exclusivamente masculino, avisa: “Não quero machismos. Há que dar voz às mulheres”. Por isso anuncia já para segunda-feira, dia 3, a presença de Carla Andrino. E adianta: “Gostaria de poder contar também com as presenças de Maria Rueff, Ana Bola, Sónia Aragão, Sandra Faleiro e Maria Vieira… Admiro o trabalho delas e tenho a certeza de que serão uma mais-valia no programa”, explica ao Correio da TV.

António Melo, Manuel Marques, Heitor Lourenço e Bruno Nogueira foram os quatro convidados da noite de segunda-feira, dia 20. Desenvolver um texto, em directo, sem contracena, e durante dez minutos, foi, para todos eles, uma estreia arrojada. “Foi este desafio que me interessou, diz Heitor Lourenço ao Correio TV. Também Manuel Marques não hesita em confessar: “Gostei da experiência”. Por sua vez, António Melo conta--nos que recebeu um texto da produção, mas desmontou-o e alterou-o. “Colei-o à minha pele. Deu-me muito gozo esta participação”, explica. O mais jovem dos convidados, Bruno Nogueira, diz, peremptório: “É mais fácil fazer rir”. E conta-nos que não foi difícil chegar ao palco, enfrentar as câmaras, e apresentar o texto, porque confessa: “Bastou sentir o público para perceber claramente por onde deveria ir”.

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Fernando Rocha, que habitualmente encerra o programa, foi um dos convidados da primeira edição de “Levanta-te e Ri”. A SIC viu-o, ouvi-o, gostou, e contratou-o por um ano. Fernando Rocha é um contador de anedotas. Não faz “stand up”. Nem ele nem muitos dos convidados que têm passado pelo “Levanta-te e Ri”. É que fazer este género de entretenimento, muito popular em bares e clubes nocturnos de alguns países, é mais do que o simples debitar de um texto. A essência da “stand up” prende-se com a existência de um texto original escrito pelo próprio actor que é subordinado a uma temática e tem uma linha condutora .

Um dos pioneiros da “stand up comedy”, Pedro Tochas, explica que é o humor inteligente e irónico que caracteriza a comédia de autor. “Este género de entretenimento segue a tradição anglo-saxónica. O comediante concebe o texto, trabalho-o e apresenta-o em palco, como se de uma personna, e não uma personagem, se tratasse ”.

Apesar de importado, a “stand-up” começa a insinuar-se em Portugal. Mas se levarmos em conta que um comediante leva dez anos a fazer-se, a comédia de autor, a genuína, feita com inteligência, talvez nunca venha a tornar-se, entre nós, num espectáculo de massas.

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A todos estes actores cómicos e comediantes o Correio TV pediu uma graça original que reproduzimos nestas páginas, junto dos respectivos perfis. Apenas Pedro Tocha se recusou fazê-lo, alegando que todos os seus textos têm uma vertente física que seria impossível traduzir aqui.

No dia da estreia, e à hora em que foi exibido, “Levanta-te e Ri” foi o programa mais visto dos quatro canais de televisão, com 33,3 de “share” (484.400 espectadores). Na segunda edição, o “share” do programa subiu para os 35,1 (673.000 espectadores), mas foi batido pela TVI que registou 36,4. No passado dia 20, a terceira edição, apesar de ter sido visto por maior número de telespectadores do que na estreia, desceu no “share” para 31,9 (596.800 espectadores).

ALDO LIMA

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Escreve os seus próprios textos. E sempre abordou temas por muitos ignorados. Em 1997 já actuava em bares com música ao vivo. Foi autor de vários ‘sketches’ para a SIC e fez muitos trabalhos para a TMN, tornando-se o rosto da sua campanha. Esteve já no “Levanta-te e Ri” e vai voltar ao programa no dia 17 de Fevereiro. Tem 27 anos.

“(…) Pelo menos, nós, em Portugal, depois de matar o touro comemo-lo todo. Em Espanha, o matador só leva as orelhas para casa. E também não percebo como é que ele pode ser um herói nacional se usa collans cor-de-rosa, corre em bicos dos pés, e tem os tomates no sítio onde se guarda o maço de tabaco.”

BRUNO NOGUEIRA

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Tem 20 anos. Estudou arte dramática e começou a fazer teatro aos 18. Esteve no Auditório Carlos Paredes e foi depois recrutado pelas “Produções Fictícias”, onde viria a integrar o projecto “Manobras de Diversão”, que estreou sexta-feira, dia 31, a comédia “stand up” “Não há Crise”, no Teatro São Luiz. Quem conhece bem as suas performances afirma estar ali um promissor comediante.

“Tenho muito mau acordar e passo as tardes a pedir desculpa a quem me telefonou de manhã.”

MANUEL MARQUES

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Tornou-se popular no “Herman SIC”. Tem 27 anos. Integrou o grupo de teatro Alta Cena e trabalhou três anos no Chapitô. Estreou-se em televisão em “O Programa da Maria”. No ano passado começou a trabalhar com as Produções Fictícias. Integra o grupo “Manobras de Diversão”. Faz ainda publicidade, locução e dobragens.

“Está na moda ser elegante. Toda a gente quer emagrecer. Por isso, nas prateleiras dos supermercados, há cada vez mais produtos ‘light’. Eu, que estou farto de ser magro e quero engordar, a única coisa que encontro à venda é leite gordo!”

MARCO HORÁCIO

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Profissional há dez anos, estreou-se em televisão com “Pensão Estrela”, em 1996, na SIC. Seguiu-se o telefilme “O Lampião da Estrela”, e as séries “O Fura-Vidas”, “Uma Casa em Fanicos” e “Paraíso Filmes”. É um dos protagonistas de “O Meu Sósia e Eu”, telefilme para a RTP1. Tem 29 anos e ainda faz dobragens, locução e animação. Entre as muitas peças de teatro onde participou cita-se: “As Aventuras de Ulisses”, “Popcorn”e “Quebra Nozes”.

“A frase que mais ouço no meu telemóvel: ‘O seu saldo não lhe permite efectuar esta chamada’.”

ANTÓNIO MELO

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Tem 39 anos. Esteve no teatro A Comuna de 1983 a 1987 e fez múltiplos trabalhos em televisão: as séries “Ballet Rose”, “A Febre do Ouro Negro”, “Mãos à Obra” e a novela “O Último Beijo”, em exibição na TVI. No cinema integrou os elencos de “Zona J”, “A Bomba”, “O Inferno”, e “A Sombra dos Abutres”, entre outras participações. Vai regressar ao teatro para apresentar “I Love My Pénis”.

“A vantagem da macrobiótica é que por mais que se coma fica-se sempre com ar de subalimentado.”

NILTON

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Sempre gostou de escrever. Mas em 1997 reuniu-se com uns amigos, realizou um espectáculo e confirmou as suas ambições. Os textos resultaram e ele repetiu a experiência. Já fez “stand up” no CCB, Casino da Figueira da Foz, Teatro A Barraca, e Teatro Maria Matos. Regressa ao “Levanta-te e Ri” no dia 10 de Fevereiro. Tem 30 anos.

“Ligou-me um amigo espanhol a perguntar se já cá tinha chegado a maré negra. Eu disse-lhe que sim e que estava a alastrar da Damaia para a Amadora e já tinham sido avistados alguns focos no Colombo!”

HEITOR LOURENÇO

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Tem formação dramática e apresentou peças no Teatro Experimental de Cascais, Teatro Aberto e Teatro da Comuna. No cinema, integrou os elencos de “Longe da Vista”, “Inês de Portugal”, onde interpretou o papel de D. Pedro, “A Casa dos Espíritos”, “O Fim do Mundo” e “Tempos Difíceis”. Em televisão fez dezenas de trabalhos: as séries “Bons Vizinhos”, “Camilo, o Pendura”, “Os Jornalistas”, “Uma Casa em Fanicos”, “A Senhora Ministra”, “Bastidores” e a novela “Fúria de Viver”. Está a gravar “Debaixo da Cama”, telefilme para a RTP. Tem 35 anos.

“Num enquadramento bucólico, tão bucólico que as ovelhas já vomitavam o verde tão verdinho, o tenro tão tenrinho das ervas, estão duas flores apaixonadas. Diz uma suspirando: “Amo-te”. A outra responde: “Eu também!” Voltam a suspirar e diz uma: “Eu quero-te.” E a outra: “Eu também!” Estão nisto durante algum tempo até que a primeira interrompe: “Oh querida! Eu já não aguento mais! Vamos chamar uma abelha para praticarmos sexo.””

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