“Comédia é arte de não enganar. É quase um cargo político...”

Maria Rueff vai regressar à RTP 1 em Setembro com mais uma temporada de ‘Estado de Graça’. À ‘Correio TV’, falou também de ‘Vip Manicure – A Crise’ que foi vista pelo primeiro-ministro

12 de agosto de 2011 às 14:00
maria rueff, comédia, vip manicure Foto: Tiago Sousa Dias
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‘Vip Manicure’ é um projecto que saiu dos palcos para a TV e que, há dois anos, anda em digressão pelo País...

É verdade. Há seis anos, no Teatro S. Luís, o prof. Jorge Salavisa deu-nos carta branca, a mim e à Ana Bola, para fazermos o que quiséssemos. Na altura, observei que estavam a surgir estas escultoras de ‘nails’, e disse à Bola. E fizemos um café-teatro no Jardim de Inverno do São Luís, que teve um enorme êxito. Um género de comédia ligeira. Depois, disso fomos para a estrada. Seguiu-se a TSF, o que nos catapultou para a televisão. Fizemos uma brincadeira nos Globos de Ouro, a convite do Nuno Santos e, devido ao sucesso que teve, fizemos a série. Até que a SIC nos tirou do ar sem dar grande justificação.

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Mas o programa tinha bons resultados...

É transversal, completamente. Desde meninas pequeninas que se mascaram como as personagens Maria Delfina e Denise, avós... Ficámos muito surpreendidas e com a auto estima um pouco amachucada, embora nos queira parecer que foi uma questão mais financeira. E então, fomos para a estrada com a peça, pois acreditávamos nela. E, de facto, o País deu-nos razão. Tivemos salas sempre cheias. Cada espectáculo é uma comunhão muito catártica.

E o primeiro-ministro e a esposa, Laura, foram vê-la?

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É verdade, pelo menos são sinais de que o poder está atento ao contra-poder.

Qual a vossa reacção?

Acho inteligente da parte dele. Ainda por cima, a Bola imita a Laura e o Monchique imita o Passos Coelho em ‘Estado de Graça’. Eles sabem rir-se deles próprios, e isso é bom sinal. Todos os governantes, digamos assim, têm sido muito generosos connosco.

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O formato vai regressar à televisão?

Não necessariamente. Agora, temos o ‘Estado de Graça’ na RTP 1, esperamos regressar em Setembro (risos). Nos países em que se atravessa a dor da crise, há sempre um samba porque as pessoas precisam de descomprimir, de rir... De rir de forma inteligente. De rir para pensar. E acho que a situação do País tem muito a ver com isso. É um cartão encarnado do povo a dizer "nós não somos tolos, não nos enganem". E, portanto, a comédia é isso: é a arte de não enganar, de fazer justamente pensar. É quase um cargo político...

Fale um pouco da segunda série de ‘Estado de Graça’.

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No fundo, foi recuperar o nosso lado mais de público televisivo. No meu caso concreto, fazer caricaturas, com um grupo de actores que conheço muito bem e que adoro trabalhar: a Ana Bola, o Joaquim Monchique, o Manuel Marques e o Eduardo Madeira. Está a ser uma família muito simpática, e tinha muitas saudades já de caricaturar umas figuras.

Nunca quis escrever?

Sou de uma escola um bocadinho antiga, no sentido em que o actor é o actor e o autor o autor. Sou da escola em que os escritores são o Lobo Antunes, o Saramago... Se bem que os comediantes são sempre actores e autores, há sempre algo do próprio.

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Considera-se comediante?

Formei-me como actriz, tenho o Conservatório, fiz tudo direitinho (risos). De vez em quando, volto à barra, a estudar. Mas acho que sou uma ‘natural born comic’, ou seja um comediante nasce comediante e depois tem que apurar.

Já fez novelas, mas não é o seu género de eleição?!

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Fiz ‘A Vingança’, mas não é a minha praia. Um comediante ou um actor de comédia deverá ser uma personagem de composição. Nas novelas do Brasil, há sempre um núcleo cómico, só agora se está a começar em Portugal. Eu preciso de coisas complicadas, que sejam puzzles mentais, que me desafiem.

Não tem uma preferência por nenhum género?

Não. Adoro representar. A minha preferência é estar rodeada de pessoas muito talentosas, com quem eu cresça.

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Qual a personagem que celebrizou a Maria Rueff?

Sinto na rua que é o Zé Manel. É, pelo menos, a figura que toda a gente conhece

Inspirou-se em quem?

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Num trolha que trabalhava em casa dos meus pais, o maravilhoso Arnaldo. No ‘Programa da Maria’ tentei dar-lhe uma alma. Como cresci na Graça, tenho muito amor por estas pessoas.

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