DAQUI A QUATRO ANOS GOSTAVA DE ESTAR NA POLÍTICA

Fiel à Invicta e adepto do Futebol Clube do Porto, Júlio Magalhães cola-se ao modelo da TVI. Acredita que um jornalista pode ter opinião, reconhece algum populismo no modelo informativo da estação e defende a regionalização das notícias. Em tempos de sucesso, o responsável da TVI no Porto pondera trocar os ecrãs pela política.

22 de maio de 2004 às 00:00
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É dos poucos profissionais de TV que tem notoriedade mantendo-se no Porto. É didicil viver longe da capital?

Tenho tido sorte. Claro que é mais difícil ter uma carreira estando no Porto e não tenho a mínima dúvida de que quem está em Lisboa tem mais facilidade. As pessoas que estão no Porto têm apenas dez por cento das possibilidades de terem alguma notoriedade e reconhecimento do trabalho. E eu aproveitei talvez esses dez por cento. Hoje, quem quer fazer carreira e ter notoriedade tem de ir para Lisboa.

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Há muitos profissionais de televisão que começaram no Porto e foram para Lisboa, nomeadamente na RTP…

Na RTP e não só. Como as redacções no Porto são mais pequenas, os jornalistas trabalham de manhã e à noite e em todas as áreas e isso dá-lhes uma maior capacidade que pesa quando vão trabalhar para Lisboa.

Também é dos que acha que se trabalha mais no Porto?

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Bom, o objectivo das pessoas é terem uma carreira e o reconhecimento dessa carreira. No Porto é preciso trabalhar dez vezes mais para ter essa notoriedade e quem quer ser reconhecido pelas redacções de Lisboa faz um trabalho mais exaustivo, mais rigoroso, o que dá, também, maior capacidade de trabalho e mais experiência em termos jornalísticos.

Sim. Em Lisboa entra-se mais cedo nos quadros e as oportunidades não são as mesmas, pois quem está na capital privilegia do facto de cumprimentar todos os dias as pessoas que mandam. A distância ainda é uma barreira em Portugal.

No seu caso pessoal sente necessidade de ir muitas vezes a Lisboa?

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Vou de 15 em 15 dias, sempre que tenho de apresentar o ‘Jornal Nacional’ ao fim-de-semana. Mas insisto em fazer a minha vida no Porto e nunca ponderei sequer a possibilidade de ir para Lisboa.

Gosto de lá ir, mas foi aqui que cresci, que me fiz jornalista. Sempre disse que ia fazer carreira ficando no Porto e tenho conseguido. Tenho a noção que para ser reconhecido profissionalmente e ter mais oportunidades é necessário marcar presença, mas acredito nas minhas capacidades.

INFORMAÇÃO TABLÓIDE

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O que acha da informação tablóide, afinal o estilo seguido na TVI?

Nesse aspecto, já vivemos uma fase pior. A informação feita pela TVI é a mesma que os outros fazem, não há acontecimento que a gente cubra que os outros também não cubram. Mas é certo que a TVI tomou a liderança de audiências e a aproximação às pessoas através desse tipo de informação.

Como reage quando acusam a TVI de falta de sobriedade e de entrevistar demasiados populares…

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Não gostam mas todos vêem. Há espaço para tudo e a informação não tem que ser cinzenta ,nem estar só hipotecada às classes média alta e sobretudo à classe política. Grandes casos que têm acontecido em Portugal nos últimos 20 anos foram todos denunciados pela SIC e pela TVI. É um caminho de informação feito por todos e, provavelmente, a TVI trabalha-os de forma mais exaustiva, ouve mais gente, dá mais tempo e mais espaço a esse tipo de notícias. Os outros dão ao futebol e à política. Os diferentes estilos devem ser respeitados. Tudo é informação e tudo é jornalismo.

Mas há um certo populismo nesta informação…

Aceito. Quer dizer, respeito. Claro que pôr um polícia a falar não é o mesmo que dar voz a uma vendedora do Bulhão. As pessoas não podem desmentir é que a TVI faz uma informação popular, mais voltada para as pessoas, mas tem também os melhores comentadores, como Miguel Sousa Tavares, Peres Metelo e Marcelo Rebelo de Sousa. A TVI tenta um equilíbrio. Aceito as críticas de que somos a estação mais populista e mais popular, mas prefiro este tipo de informação a outra em que os políticos estão mais presentes. Porque as críticas vêm sobretudo da classe política e essa sabe muito bem gerir a sua intervenção em termos televisivos.

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Lembro-lhe que a TVI, desde que passou a liderar as audiências, teve mais facilidade em contar com políticos na estação, porque eles também preferem dar entrevistas a uma estação que é vista por mais pessoas. Também vão gerindo as suas presenças e no dia em que as outras estações estiverem a liderar as audiências passam para lá.

Como vê as polémicas sobre as audiências dos noticiários? Afinal, o ‘Jornal Nacional’ é o mais longo…

Temos perdido a liderança porque os noticiários estão mais curtos. Defendo um equilíbrio de audiências, e que não deve existir um noticiário mais esmagador que outros. Acredito, sobretudo, que as audiências dependem dos programas que estão a dar antes. A RTP beneficia agora de um programa que é ‘O Preço Certo em Euros’ e de não ter intervalos tão longos, devido à nova lei da publicidade. Isso originou uma subida nas audiências. A TVI não tem o dinheiro, os meios e as pessoas que as outras estações e continua a liderar no ‘prime-time’ e a bater-se em termos de audiência com os outros jornais. E isso é que interessa. Claro que todos querem liderar, mas há conjunturas.

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A RTP tem beneficiado largamente do futebol, que até tem corrido bem. O Futebol Clube do Porto (FCP) vai à final da Liga dos Campeões, há grandes jogos, vem aí um Euro… E assim a RTP registou uma subida de audiências, a par naturalmente de uma mudança de imagem que a beneficia, e que é óptimo. Desde que haja equilíbrio entre as estações, melhor.

Nem sempre foi assim…

Pois. Lembro-me que quando cheguei à TVI a estação quase não existia e estava à beira de fechar.

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Como deram a volta por cima?

Foi o José Eduardo Moniz (director-geral).

SEM PRURIDOS

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A TVI tem um cunho muito pessoal, os profissionais da estação não tem pruridos em participar no entretenimento, nas festas da estação…

Pois é, não temos problemas nenhuns. E também se vêem jornalistas da SIC a apresentarem programas de automóveis e os da RTP em concursos da casa. Nós somos poucos e temos uma dinâmica maior que é introduzida pelo José Eduardo Moniz e nos permite este tipo de coisas. Se o próprio director faz de 'Capitão Gancho' não faz sentido que os jornalistas da casa e todos que trabalham aqui não façam também. Isso até aproxima as pessoas.

E como foi apresentar o ‘QI’ com a Teresa Guilherme?

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O primeiro foi muito bom, era um programa muito interessante. Achei que os outros dois tiveram tempo a mais, excessivo.

A má gestão do tempo é uma das críticas feitas à TVI. Os noticiários são muito longos, as telenovelas arrastam-se…

A gestão do tempo tem a ver com o gosto das pessoas e com os orçamentos. Os noticiários maiores têm mais audiência, o que significa que as pessoas aderem. Mas é óbvio que um jornal não fica tão caro como o episódio de uma novela. A TVI tem um orçamento para cumprir, o José Eduardo Moniz decide o que há para fazer e a partir daí tem que se gerir o produto. Se o produto tem audiência, há que rentabilizar. Num dia em que o ‘Jornal Nacional’ não tiver audiência e se perceber que as pessoas ficam cansadas, ele encurta. A TVI faz-se em função também do gosto das pessoas.

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É por isso que os jornalistas da TVI assumem os seus gostos? O Júlio Magalhães é do FCP, a Manuela Moura Guedes emociona-se ao relatar certas notícias…

Essa atitude humaniza os jornalistas, obriga-nos a perceber que somos iguais aos outros, não somos nem mais nem menos, somos parceiros. Cada jornalista tem o seu estilo, o seu modo de trabalhar, e não deve haver uniformização. O que interessa, no produto que a TVI mostra, é que exista diferença nas pessoas que os apresentam para as coisas se tornarem mais positivas.

Curiosamente, há quem diga que, até pela proximidade entre o estúdio da TVI e a SAD do Porto, ambos funcionam na Torre das Antas, tem acesso privilegiado às notícias do FCP…

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Não é verdade. Não temos boas relações e eles até nos têm prejudicado. A TVI, e os jornalistas em geral, têm a obrigação de manter um bom relacionamento institucional com as pessoas que representam as instituições. Neste momento, o Futebol Clube do Porto não tem, acha que a TVI o trata mal, como em tempos já achou que era a SIC que o tratava mal… Não depende de nós, depende das instituições. Nós fazemos o nosso trabalho igualzinho.

Se acontecesse o inverso, ou seja, uma ingerência por parte do FCP ou de outra instituição, como reagiria?

Não deixava, é óbvio. É tão responsável impedir que haja ingerência no nosso trabalho, como é exigir que as nossas opiniões não interfiram no nosso trabalho. O patamar é exactamente o mesmo. É óbvio que nem sempre conseguimos, também cometemos erros.

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Alguma vez se viu obrigado a controlar as emoções para dar uma notícia?

Não. Fico contente quando o Porto ganha, e quando apresento o noticiário ao domingo tenho espaço para dar alguma opinião, pois o comentário do professor Marcelo Rebelo de Sousa permite isso. Mas, sinceramente, nunca me aconteceu, até porque não sou um fanático, daqueles que fica a chorar ou não quer falar com ninguém se o FCP perder.

PRAZO DE VALIDADE

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Os jornalistas queixam-se sempre da falta de tempo…

É difícil e para mim ainda mais porque tenho de ir muito a Lisboa. De 15 em 15 dias apresento o ‘Jornal Nacional’ e passo o fim-de-semana sozinho. É a minha missão, nestes últimos quatro anos, desde que fui para a TVI. Tenho menos tempo para a família e, sobretudo, para os filhos, que se queixam da ausência. Mas, mesmo assim, foi a melhor opção profissional que fiz e é largamente compensadora. Gosto desta vida, gosto de trabalhar e de estar em casa, com os filhos. Isto é importante para a minha carreira e como só quero trabalhar em televisão até aos 45 anos…

Só mais quatro anos?

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É, tenho 41 anos e aos 45 gostava de estar noutra carreira. Daqui a quatro anos gostava de estar na política. Ou numa carreira empresarial. Quero poder optar…

Se fosse na política seria em que área?

Não sei. Até gostava mais nas câmaras, se calhar. Estou na televisão há 14 anos, e sempre em directo.

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Sente o desgaste da imagem?

Não. Gosto disto, gosto de aparecer e, como toda a gente que faz televisão, gosto de ser reconhecido. Mas, neste 14 anos, tenho assistido a várias pessoas que, com a idade, perdem valor. Surgem outros mais novos, como eu surgi quando era novo.

Acha que em televisão há um prazo de validade?

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Sim. Em Portugal, pelo menos, isso acontece. A determinada altura começamos a mendigar o direito que tínhamos durante anos. Vi isso na TVI e na RTP, onde também estive. As pessoas atingem um certo estatuto, crescem muito bem, e depois voltam para trás. É consumir e deitar fora e vejo-as a arrastarem-se pelas redacções, já não fazem o que gostam mas sim o que lhes mandam, e aceitam porque querem aparecer, pois têm a noção que podem ser esquecidas. Por isso, o meu objectivo é, aos 45 anos, poder dizer ‘não quero mais’. Não me quero arrastar, não quero mendigar…

Tem uma escolha partidária?

Não quero ser um político militante.

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Mas gostava de ter protagonismo político?

Gostava de ter algum. A política seduz-me em alguns aspectos.

E reconhece que a televisão também abre portas?

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Sim. E tanto abre que até já me convidaram.

Sim…

Não. Não quero falar disso, ainda é prematuro. Em termos partidários, sou independente. Gostava era de sair da televisão e até podia ir trabalhar noutra área.

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A MELHOR INFORMAÇÃO É DA SIC NOTÍCIAS

Há algum modelo ideal de televisão em Portugal?

Estou na TVI, adaptei-me perfeitamente a este modelo e faço aqui o meu trabalho, mas acho que um jornalista sente-se bem nas três estações. A SIC Notícias é um excelente projecto para qualquer jornalista e, provavelmente, é o canal que faz melhor informação em Portugal, mas também tem mais meios. As estações generalistas também permitem fazer bom jornalismo e isso é até um bom desafio que se impõe a qualquer jornalista, conseguir impor regras e qualidade numa estação generalista.

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Se a TVI avançar com o canal de notícias e a NTV der o salto que se espera, há espaço para três canais informativos?

Acho que sim. Quantos mais melhor, pois as faculdades estão a formar muita gente, alguma com qualidade. Até sou adepto das televisões regionais, com canais de informação locais, como há em vários países da Europa, porque abre mercado e permite mostrar uma dimensão maior do País. Lisboa continua a ser muito concentrada e as pessoas têm uma visão muito reduzida do que é o País. Se houver mais televisões, isso permite mostrar a verdadeira realidade portuguesa.

FC PORTO VAI GANHAR

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O que espera da final da Liga dos Campeões?

Acho que o Porto vai ganhar. O FCP é, neste momento, o melhor clube da Europa. A época mostrou isso e é evidente que numa final só um azar vai tirar o título ao Porto.

Como nasceu esse gosto pelo FCP?

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Foi desde pequeno, com os meus pais. Eles eram do Porto, vivemos em África, em Angola. O meu pai chegou a ser presidente de um clube que era filiado do FCP. Isto vem de família. Os filhos são influenciados pelos pais e eu fui influenciado pelos meus. Os meus filhos também são do Porto.

Júlio Magalhães nasceu em Sá da Bandeira, Angola, em 1963, e cresceu no Porto. É casado e pai de dois filhos. Iniciou a sua carreira no ‘Comércio do Porto’, na secção de Desporto, seguindo depois para os títulos ‘Europeu’ e ‘Semanário Liberal’. Trabalhou na Rádio Nova e na RTP, e mais tarde ingressou na TVI onde assumiu o cargo de responsável da TVI na cidade, cargo acumulado agora com a apresentação do ‘TVI Jornal’ e a apresentação quinzenal do ‘Jornal Nacional’, ao domingo, contracenando com o comentador Marcelo Rebelo de Sousa.

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