Estilo espanhol inspira nova ficção nacional
Patrícia Tavares é uma das estrelas da primeira produção de Teresa Guilherme para a SIC da era Penim. Formatos espanhóis, alternativos às novelas brasileiras, vieram para ficar.
A partir de domingo Patrícia Tavares passa a ser Laura, a prima vinda do Norte na série ‘7 Vidas’. Depois das experiências nas telenovelas, do teatro e do envolvimento na formação de actores, a actriz prepara-se agora para ser uma das protagonistas de uma ‘sitcom’, que em Espanha já vai no sétimo ano no ar, e sempre com óptimos índices de audiências. O sucesso conquistado em Espanha e a “qualidade” do formato terão sido mesmo as razões que levaram Teresa Guilherme e Francisco Penim – respectivamente directora para a ficção e director de Programas da SIC –a adquirir os direitos sobre a ‘sitcom’. ‘7 Vidas’, exibida em Espanha pela privada Telecinco, atingiu uma audiência média de 4.231 milhões de espectadores durante a última temporada e já conquistou o título de série mais longa da TV espanhola.
Esta não é, no entanto, a primeira produção espanhola a ser adaptada no nosso País. Já ‘Médico de Família’, que marcou a ficção nacional e foi exibida pela estação de Carnaxide, era baseada num original espanhol. Seguiram-se ‘Jornalistas’ e ‘A Minha Família é uma Animação’ (também na SIC), ‘Ana e os Sete’ e ‘Os Serranos’ na TVI. No final deste ano, a RTP1 junta-se à lista com ‘Conta-me como Foi’, uma série baseada no sucesso da TVE. Visível é assim a opção tomada pela ‘nova SIC’ face aos formatos em que vai apostar. E as novelas brasileiras parecem ter deixado de ser o rumo na estação de Carnaxide, apesar do acordo com a Rede Globo prever que a SIC continue a exibir pelo menos uma novela brasileira por ano.
A poucos dias da estreia, Patrícia Tavares, que se estreia com um contrato de exclusividade na SIC, após uma passagem pela TVI, confessa estar a construir a personagem de Laura. Colorida, com um corte de cabelo escadeado e uma pose ousada, a actriz não fica em nada atrás das suas congéneres espanholas. “Ainda estou a tentar conhecê-la melhor pois estamos a gravar apenas há uma semana e há coisas que vão surgindo. Por vezes há um gesto que ajuda a encontrar tudo o que precisamos para a personagem e noutras alturas estamos quinze dias à procura de algo. Julgo que as personagens só começam a ganhar vida quando te começas a soltar e perdes a vergonha. Os actores também têm vergonha, ao contrário do que se pensa”, afirma Patrícia Tavares. Sobre a sua saída da TVI, a actriz refere: “O tempo encarregar-se-á de trazer a verdade ao de cima. A minha saída foi da produtora NBP e foi uma situação complicada. Nunca cheguei a falar com o [José Eduardo]Moniz.”
Nos bastidores, há quem lembre que a zanga com a TVI foi provocada por uma abertura do ‘Jornal Nacional’, onde se afirmava que a actriz tinha sido afectada por um fenómeno paranormal que está ainda por explicar. Questionada pela Correio TV sobre o assunto, Patrícia Tavares apenas respondeu: “Não vale a pena entrar por aí. Não falo mais sobre o assunto.”
A série ‘7 Vidas’, com estreia marcada para domingo à noite, surge numa altura em que a ‘guerra das audiências’ está ao rubro. A SIC quer recuperar a liderança perdida para a TVI e a estratégia parece passar por um investimento nos rostos e formatos que fizeram sucesso na estação de Queluz. Para o crítico João Gobern, “a diversificação dos formatos é uma atitude inteligente da SIC. Por força da dinâmica do mercado espanhol, é natural que as televisões espanholas consigam produzir produtos de qualidade”, afirma.
Apesar da Lei da Televisão obrigar a que as estações de TV emitam metade da sua programação em língua portuguesa, nada obriga a que os formatos sejam originários do País. A adaptação de formatos é recorrente. E se as séries privilegiam o estilo espanhol, nas novelas vinga o género latino-americano. Os actores é que são sempre prata da casa. E em relação ao elenco da série ‘7 Vidas’, Patrícia Tavares, que também contribuiu para a realização dos ‘castings’, é da opinião que não podia ser melhor nem mais adequado: “O Mourato é brilhante. O Jorge [Corrula] é um dos melhores actores da nossa geração. Já acreditava muito nele desde os ‘Morangos com Açúcar’ (TVI). Agora que estou a trabalhar diariamente com ele acho que é muito bom actor mesmo. A Rita [Salema] já a conhecia e já trabalhei com ela. É uma grande actriz.”
Em relação a Teresa Guilherme, com quem contracenou na peça de teatro ‘A Partilha’ e que em ‘7 Vidas’ acumula a produção com a representação, Patrícia Tavares define-a de forma simples: “A Teresa [Guilherme] já deu provas como actriz. É uma mulher muito exigente, mas isso é bom. O nivelamento que impõe é acima da média.”
Laura, a personagem de Patrícia Tavares, terá um romance com Pedro, interpretado pelo ‘homem do momento’, Jorge Corrula, que deu o salto para a fama através de ‘O Crime do Padre Amaro’. Contudo, cenas similares àquelas feitas com Soraia Chaves estão fora de questão. “Ainda não sei como surge o romance da Laura com o Pedro, mas já diziam os antigos: Quanto mais prima, mais se...”, brinca. “A Laura é muito namoradeira, fresquinha. Não sei se será um romance que vai ser levado até ao fim. Acho que será mais a história do gato e do rato.” De facto, ousadias e garridices espanholas não faltam a esta série. Mas para o crítico de televisão Fernando Sobral o facto de ‘7 Vidas’ ter conquistado grande sucesso em Espanha não obriga a que o mesmo se repita em Portugal. “A SIC tem que procurar abrir outros caminhos para não estagnar. Esta talvez seja a primeira forma de fugir à hegemonia das novelas brasileiras. No entanto vai combater num terreno onde tem uma concorrência muito forte por parte da TVI. E vai procurar conquistar um público muito semelhante, que, neste momento, é fiel à TVI”, argumenta.
Por seu lado, o crítico Eduardo Cintra Torres defende que “nunca se pode ter a certeza do sucesso de um formato”, mesmo que ele esteja rotulado como um êxito no país de origem. “A SIC pretende variar a programação, o que, só por si, já é positivo. A aposta em programas de produção portuguesa poderá conquistar a simpatia do público, o que a TVI consegue fazer bem e a SIC não, pois, até aqui, os protagonistas da estação de Carnaxide têm sido brasileiros”, defende. Já para Teresa Guilherme, o interesse por esta série insere-se num objectivo a médio prazo definido para a SIC. A produtora e actriz (que fará o papel de Lurdes, a matriarca da série) mantém, todavia, os pés bem assentes na terra e avisa que ‘esta série é apenas o início de um caminho longo que se propôs a fazer juntamente com Francisco Penim e onde ‘7 Vidas’ e o concurso ‘Pegar ou Largar’ são apenas o primeiro passo.
ESPANHÓIS ADAPTARAM-SE
- Porquê a opção por um formato espanhol de sucesso?
- O meu interesse por esta série já é uma paixão antiga. Julgo que a ficção feita em Espanha resulta em televisão de qualidade. Os espanhóis adaptaram-se à realidade de uma forma positiva. Trouxeram para a Europa ‘sitcoms’ de estilo americano, mas mais limpas e menos centradas num único protagonista.
- Que expectativas tem para ‘7 Vidas’?
- Para já a série vai correr sozinha, mas acho que as pessoas vão aprender a gostar.
- Existem mais projectos para a SIC?
- Há uma telenovela, que deverá começar lá para Março e o concurso do [Rui] Unas. Acredito que a novela vai ‘explodir’ mais depressa do que a série, uma vez que será diária. Isso vai com certeza ajudar.
PERFIL
Profissão: produtora e Apresentadora.
Idade: 47 anos.
Currículo: ‘BB’, ‘1,2,3’.
SÉRIES BASEADAS EM PRODUÇÕES ESPANHOLAS
'MÉDICO DE FAMÍLIA'
TELECINCO foi a estação espanhola que estreou este original, mais tarde adaptado para Portugal pela Endemol e exibida pela SIC, em 1999. ‘Médico de Família’ conquistou uma audiência média de 21% (cerca de dois milhões de espectadores) e um share de 52,3%, valores que lhe garantem o título de ficção portuguesa mais vista de sempre.
- Canal: SIC.
- Estreia: 5 de Janeiro de 1999.
- Audiência: 55,1 por cento.
- Share: 22,7 por cento.
'ANA E OS SETE'
ORIGINAL DA TVE, teve Alexandra Lencastre como protagonista da versão exibida pela TVI em 2003. Estreada em 2002 na TV espanhola, e produzida pela Star Line, esta versão rocambolesca de ‘Música no Coração’, teve como actriz principal Ana Obrégon, que também assinou a autoria da série ‘Ana y los Siete’.
- Canal: TVI.
- Estreia: 6 de Abril de 2003.
- Audiência: 34,8 por cento.
- Share: 11,5 por cento.
'OS SERRANOS'
FORMATO DA GLOBAL MEDIA foi adaptado com sucesso da TVI, numa versão que estreou a 05/06/05. Em Espanha ‘Los Serrano’ estreou em 2003 e ainda está em exibição na Telecinco. Premiada com vários galardões, esta série é uma das mais populares em Espanha e teve como actor convidado o português Paulo Pires.
- Canal: TVI.
- Estreia: 5 de Abril de 2005.
- Audiência: 35,5 por cento.
- Share: 10,2 por cento.
‘OS JORNALISTAS’
- Canal: SIC.
- Estreia: 25 de Fevereiro de 1999.
- Audiência: 34,5 por cento.
- Share: 16,7 por cento.
‘A MINHA FAMÍLIA É UMA ANIMAÇÃO’
- Canal: SIC.
- Estreia: 29 de Março de 2001.
- Audiência: 34,5 por cento.
- Share: 4,2 por cento.
OS NÚMEROS DO AUDIOVISUAL
50 POR CENTO EM PORTUGUÊS
A Lei da Televisão obriga a que os canais de TV dediquem um mínimo de 50% das suas emissões à difusão de programas em língua portuguesa. Dessa quota, 15% deve ser de programas criativos.
O ACTOR DA MODA
Paulo Pires é o português que mais se destaca em Espanha. Depois de ter participado em ‘Los Serranos’, onde fez o papel de dois irmãos gémeos, o actor voltou a ser convidado pela Global Media para protagonizar ‘Fuera de Control’.
RTP 1 ADAPTA SÉRIE DA TVE
A RTP1 está a gravar ‘Conta-me como Foi’, uma série baseada no sucesso espanhol ‘Cuenta-me como Pasó’, que estreou em 2001 na TVE.
40 MILHÕES DE ESPECTADORES
É o número da população em Espanha, onde existem cinco canais de emissão em sinal aberto. Dois canais da TVE, a televisão pública, e as privadas Telecinco, Antena 3 e Quatro. A estas acrescem várias televisões regionais.
CONCORRÊNCIA É POSITIVA
“Se tudo correr bem, se a telenovela que vem aí tiver sucesso, mais telenovelas e séries se seguirão. Com o tempo podemos estar a produzir três ou quatro telenovelas, tal como a NBP o faz agora”, avança Teresa Guiherme antes de fazer ainda um pouco de futurologia. “Com a entrada do Virgílio [Castelo] para a RTP vamos passar por uma fase muito boa da ficção nacional. Haverá oportunidades para muita gente. Apenas têm que estar preparados para mudar e fazer coisas diferentes. Tanta concorrência vai favorecer não só os actores, mas todos os envolvidos nas produções televisivas.”
PROBLEMA DE GUARDA-ROUPA
PATRÍCIA MUITO 'DESPIDA'
“Não gosto. A Patrícia [Tavares] está muito despida.” Foi esta a observação feita por Teresa Guilherme depois de chegar ao estúdio, durante a hora de almoço, e dar uma espreitadela nas cenas que tinham sido filmadas durante a manhã pelo resto do elenco. Chamando a si o papel de produtora da série, Teresa mostrou-se desagradada com uma cena em que Patrícia Tavares aparece usando apenas uma camisa de noite e obrigou à sua repetição.
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