Estrangeiro é opção para fugir à falta de trabalho

A recessão e a crise no setor potenciam a vontade dos atores portugueses de apostarem ainda mais no mercado internacional

18 de janeiro de 2013 às 15:00
crise, atores, trabalho, emprego, estrangeiro
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As propostas para trabalhar em Portugal escasseiam, e quem pensa sair do País sabe que a língua é um fator determinante. Por isso, o Brasil é o destino que atrai boa parte dos atores nacionais. Mas também Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos.

Atualmente vários artistas nacionais participam em projetos no estrangeiro, como Rui Unas, Paulo Pires, Pêpê Rapazote, Rita Blanco, Ivo Canelas, entre muitos outros. Mas todos eles continuam a passar grande parte do seu tempo em Portugal. Contudo, e com a crise, há já quem equacione abandonar o País de forma definitiva na busca de uma oportunidade de carreira, como é o caso de Mafalda Luís de Castro e de Ana Moreira.

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Sem trabalho, Ana Moreira confessa estar a "perder a identidade" e admite deixar o País, mesmo que tenha de "partir do zero". "O que se passa é que o mercado está completamente fechado. Desde que cheguei de Berlim, com o prémio pelo filme ‘Tabu’ [2012], não arranjo trabalho em lugar nenhum. Nem na televisão, nem no teatro nem no cinema. Tenho andado a sobreviver", desabafa à Correio TV. A atriz, que já viveu uma experiência em Espanha, diz que a estão a obrigar a desistir da carreira que a levou a abandonar o design gráfico. "De repente tiram-me o pão da boca. É como se tivesse sido expulsa." Perante este cenário, "o melhor será mesmo sair de Portugal", lamenta. Até lá, vai continuar a "enviar currículos para lojas de roupa e restauração" e aguardar pelos "concursos da área que abrem no início do ano". "Com 33 anos, o que vou fazer?", questiona.

Também Mafalda Luís de Castro, 23 anos, está disposta a abandonar Portugal. "As hipóteses começam a esgotar--se", diz. A protagonista de ‘Louco Amor’, TVI, pode partir para Londres, "porque lá há muito teatro", ou Los Angeles, EUA. "Quando acabei a novela, pensei muito nesta alternativa", revela a atriz. A crise que abala o setor é mesmo tema de conversa entre os colegas. "Falámos, e muitos pensam em sair. Há muitos cursos lá fora. É uma questão de investimento também na nossa carreira. Principalmente quando o mercado em Portugal está tão mau. Não restam muitas soluções", afirma.

Mais positivo é Rui Unas. O que levou o ator, de 38 anos, a apostar no mercado internacional foi "ser proativo na busca de oportunidades de trabalho e desafios interessantes". "Se a conjuntura em Portugal não é a mais favorável, é mais uma razão para não descurar o mercado internacional, sobretudo o lusófono", diz o também apresentador, que se divide entre trabalhos em Portugal, Espanha e Brasil, que não lhe têm dado descanso. "Este ano estreia no Brasil um filme em que participei chamado ‘Colegas’. Tem acumulado várias distinções em festivais internacionais e naturalmente poderei capitalizar como cartão de visita para futuros trabalhos… mas ainda é prematuro falar disso", conclui.

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Lúcia Moniz é outro exemplo de quem não desiste de trabalhar além-fronteiras. "Tenho uma agente norte-americana que me vai mantendo informada", explica à Correio TV. A atriz e cantora, de 36 anos, admite que a crise está a afetar seriamente a classe: "Na nossa área sente-se muito a falta de trabalho." Por isso não desiste de agarrar oportunidades no exterior. "Desde que fiz o filme ‘O Amor Acontece’ [2003], ainda não parei. Envio imagens de gravações minhas e, de vez em quando, viajo sozinha para fazer castings. Vai-se sempre tentando", revela.

Pêpê Rapazote, 42 anos, é o exemplo de que nunca é tarde para arriscar uma carreira internacional. Arranjou um agente em Los Angeles, tratou do visto e, 15 dias depois, fez o primeiro casting. O momento que o País atravessa e a falta de trabalho preocupam-no. "A quantidade de atores desempregados quadruplicou nos últimos dois anos. O que o público vê são os privilegiados que são convidados para projetos televisivos. O pico do icebergue. Tudo o resto está abaixo da linha de água. A maior parte dos atores passa fome", diz Pêpê Rapazote, apreensivo com a possibilidade de que também ele passe por esta situação. "É uma das razões pelas quais estou a tentar desbravar caminho nos EUA." E acrescenta: "Embora ache necessário o programa de ajustamento que estamos a fazer, comigo não contem. Tudo o que puder fazer lá fora, faço. Abandono o meu país? Se quiserem pôr as coisas nesses termos… com certeza, para salvar a minha família abandono o meu país."

Descontente com o mercado de trabalho está Rita Blanco, que integra o filme ‘Amour’, de Michael Haneke, que na semana passada venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em Los Angeles, e está nomeado para os Óscares. "Já não há cinema em Portugal", lamenta. Rita Blanco viaja várias vezes até França, onde rodou, em 2012, ‘Cage Dorée’, que estreará este ano.

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Ivo Canelas, 39 anos, é mais um dos atores portugueses que decidiram apostar no estrangeiro. Em setembro de 2012, viajou para Nova Iorque, onde tem feito audições com sucesso. No ano passado, integrou o elenco do filme ‘A Montanha’, coprodução brasileira, portuguesa e italiana.

Também Patrícia Bull, que já integrou projetos internacionais – em Angola, Brasil e França, onde está agenciada –, fala do "grande descontentamento a nível nacional". No entanto, sublinha que "é preciso acreditar no futuro do País e ter confiança na capacidade de trabalho".

Também a apostar no mercado internacional está Joana de Verona, de 23 anos, que vive em Portugal mas tem nacionalidade brasileira. À Correio TV, diz que "gostava de continuar a trabalhar no Brasil", no cinema, mas também em televisão.

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Oceana Basílio é outra atriz que aposta em diversificar as oportunidades de trabalho: "Tenho o meu currículo numa agência em Los Angeles de forma a poder trabalhar nos EUA e ser proposta para castings, filmes e outros projetos", revelou à Correio TV. Recentemente, a atriz, que amanhã faz 34 anos, integrou o elenco do filme ‘Body High’, onde contracenou com Cokey Falkow, Mackensie Mason e Bella Dayne.

Paulo Pires, um dos pioneiros no mercado internacional, vive entre projetos em Portugal, Espanha e Brasil. O protagonista da telenovela ‘Doida por Ti’, TVI, confessa não estar "a tomar nenhuma atitude diferente perante a crise", mas admite que "a vontade de trabalhar fora sempre existiu entre os atores" e que, neste "momento, muitas pessoas estão a ter a experiência da emigração". Para este ano, já recebeu um convite para participar num projeto no Brasil, mas, devido a compromissos em Portugal, poderá ter de recusar.

Mas há outros exemplos de atores que emigraram, como Benedita Pereira, que se estreou nos ‘Morangos com Açúcar’ (TVI) e vive em Nova Iorque há vários anos. Agenciada naquele país, vai vivendo de pequenos trabalhos e participações em publicidade. Deu corpo e voz à protagonista do bem-sucedido videojogo ‘Max Payne 3’. Há dois anos, Leonor Seixas partiu para Los Angeles, EUA, para tentar a sua sorte. Tem feito alguns castings e apostado na formação profissional, mas ainda sem êxito assinalável. A atriz já revelou que a "competição é grande".

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Ana Cristina Oliveira também vive nos EUA, e Maria de Lima, que há vários anos foi para o estrangeiro, está atualmente em Londres a rodar uma longa-metragem da realiza-dora norte-americana Sarah Baker.

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