Filipe de pistola em punho

Foi um estroina em ‘A Ferreirinha’ e prepara-se para ser um bandoleiro em ‘João Semana’. No espaço de seis meses, os portugueses vão ver Filipe Duarte em dois papéis muito diferentes. É já em Janeiro, na nova série de Moita Flores, a ser exibida na RTP 1…

18 de dezembro de 2004 às 00:00
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O actor Filipe Duarte, que em ‘A Ferreirinha’ se fez notar pela multifacetada e muito segura interpretação da personagem António Bernardo, o filho estroina e irresponsável da notável senhora do Douro, vai aparecer em ‘João Semana’ na pele do célebre bandoleiro Zé do Telhado.

A série, da autoria de Francisco Moita Flores, deverá estrear-se já em Janeiro e mantém a mesma tónica na ficção histórica, que tem sido uma aposta da RTP.

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Arrancada da vida real, a figura de Zé do Telhado, que ainda hoje é objecto de interpretações polémicas, faz o actor andar todo o tempo a cavalo, de pistola em punho, protagonizando a faceta aventurosa da narrativa da nova série.

“Sensibilizou-me muito o lado humano da personagem”, afirma à Correio TV Filipe Duarte, que confessa ter trocado impressões com João Lagarto, intérprete do Zé do Telhado em ‘A Ferreirinha’, para melhor compor a figura. O actor documentou-se abundantemente sobre esta controversa figura histórica, tendo-se inteirado, inclusivamente, da respectiva árvore genealógica.

“Ele terá feito os assaltos que lhe deram fama, não por interesse, mas por desejo de ajudar quem necessitava”, esclarece Filipe Duarte. A personagem está ausente de ‘As Pupilas do Senhor Reitor’, mas Moita Flores fá-la participar em ‘João Semana’ para melhor poder contextualizar a acção, que decorre num século de abruptas mudanças, carregado de confrontos políticos e sociais que se manifestaram através de fenómenos muito complexos. “O que mais me agrada fazer são figuras que existiram, como este Zé do Telhado e como foi António Bernardo”, afirma o actor. O seu Zé do Telhado terá um tratamento mais visível e agitado do que na série ‘A Ferreirinha’, cujo tempo histórico é posterior nalgumas décadas ao de ‘João Semana’.

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COINCIDÊNCIAS

O elenco da próxima aposta da televisão pública conta ainda com as participações de Nicolau Breyner, no papel do protagonista, João Lagarto e um punhado de jovens actores, que se estreiam nestas andanças. É o caso de Paula Lobo Antunes, objecto de uma coincidência espantosa.

Com efeito, a intérprete da personagem Clara, uma das figuras principais desta adaptação de ‘As Pupilas do Senhor Reitor’, é sobrinha-neta da actriz Maria Paula, que desempenhou o mesmo papel em 1935, na segunda adaptação cinematográfica do romance de Júlio Diniz realizada em Portugal. E no que respeita a esta circunstância, as coincidências não ficam por aqui.

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A série de 13 episódios é uma obra exigente, que pretende ser de qualidade, produzida e realizada em padrões idênticos aos de ‘A Ferreirinha’, cujo último episódio foi exibido ontem na RTP1. Em Junho passado, Francisco Moita Flores conseguiu abrir uma janela no seu absorvente trabalho, para receber e avaliar uma candidata a intérprete da pupila Clara. Paula Lobo Antunes, que concluíra um curso de teatro em Londres e procurava trabalho, apresentou-se-lhe então. “Aquilo que era uma entrevista informal tornou-se num ‘casting’”, recorda a actriz. Encantado com os trunfos daquela jovem, cuja aprendizagem incluíra a interpretação de Shakespeare e de peças da tragédia grega, Moita Flores disse: “Pronto! É isto que eu quero!” Além do mais, o argumentista, que desconhecia o laço de sangue de Paula Lobo Antunes com Maria Paula, deixou-se cativar pelos cabelos loiros e os olhos azuis da candidata, características vulgares nas gentes do Minho, onde decorre a acção do romance de Júlio Diniz.

ENORME PRESSÃO

A actriz recorda o sentimento com que encarou o papel: “Senti uma pressão enorme, porque toda a gente na família falava da beleza e da boa interpretação da minha tia”. Uma ocorrência penosa, no entanto, estava-lhe reservada. Maria Paula, que há 69 anos fora dirigida pelo realizador Leitão de Barros na referida versão cinamatográfica, faleceu no próprio dia em que Paula Lobo Antunes começou a trabalhar nas filmagens de ‘João Semana’. “Determinei-me a arranjar forças para fazer um bom trabalho em memória da minha tia”, afirma a actriz. Terminadas que estão as filmagens, mostra-se satisfeita, orgulhando-se dos instrumentos de que a escola a muniu para ‘fazer’ uma personagem. “Criei um mundo inteiro para a Clara, sem ser fingido, um mundo nada artificial – até lhe arranjei um cheiro!”, explica. Já sente saudades desta criação de Júlio Diniz, a qual é, no argumento de Moita Flores, “das personagens que mais fiéis se mantiveram ao original”. ESCOLHA MINUCIOSA

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Uma importante estreia que se regista na série ‘João Semana’ é a de João Cayate, que temos visto na qualidade de primeiro assistente de realização num punhado de interessantes obras cinematográficas (‘Em Clandestinidade’ de John Malkovich é uma delas) e televisivas (‘O Processo dos Távoras’, por exemplo), e que agora assume as responsabilidades de realizador numa série de ficção. Depois de 12 semanas e meia de filmagens, um tempo assaz escasso que exigiu muita organização e muito trabalho, conclui: “Está um trabalho muito interessante”.

Nada escapou ao controle deste profissional que está muito habituado a trabalhar com Moita Flores e pelo qual foi convidado para realizar esta série. “Escolhi minuciosamente todos os locais e cenários, com um critério meu, escolha essa que discuti, obviamente, com outras pessoas, designadamente o chefe decorador Augusto Mayer”, revela. Durante três semanas as filmagens decorreram em São João da Pesqueira e em Trevões, uma pequena vila a pouca distância daquela localidade. Posteriormente,

a equipa dirigiu-se para Sul, tendo filmado pouco mais de nove semanas em Sintra, Mafra, Alenquer e Lisboa.

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João Cayate fez uma desenvolvida investigação sobre o século XIX. Além de Júlio Diniz leu Camilo, Ortigão, Eça e dois volumes da ‘História de Portugal’ de José Mattoso sobre as conturbadas ocorrências daquele tempo. Embora confesse nutrir admiração pelo autor de ‘As Pupilas do Senhor Reitor’, não inclui as obras do romancista entre as que prefere. Referindo-se ao argumento de ‘João Semana’ afirma: “Se fosse baseado apenas no livro bucólico de Júlio Diniz, seria uma história muito linear”, porventura de escassa valia televisiva. O trabalho de Moita Flores, que contempla personagens e factos não constantes de ‘As Pupilas do Senhor Reitor’, concretizou, na sua perspectiva, “um argumento sólido, que integra muita coisa do livro, mas lhe dá um maior enquadramento, designadamente histórico”.

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