Globo teve de exibir vídeo de criminosos

A Globo passou no início da madrugada de ontem por um momento tristemente histórico para a TV brasileira, ao ser obrigada a interromper a programação normal para exibir na íntegra um vídeo com um manifesto da facção criminosa do PCC, o Primeiro Comando da Capital. A pena pela não obediência seria, de acordo com a facção, a execução do repórter Guilherme Portanova, sequestrado horas antes pela organização perto da estação.

14 de agosto de 2006 às 00:00
Globo teve de exibir vídeo de criminosos Foto: d.r.
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O vídeo, exibido por ordem dos bandidos num Plantão de Emergência – reservado para grandes catástrofes, morte de estadistas e outras ocasiões excepcionais –, foi para o ar às 00H28 de São Paulo (mais quatro horas em Lisboa) e durou 3,36 minutos. As imagens mostravam um suposto membro do PCC a ler, com voz de quem não está muito em tal exercício, um manifesto no qual o grupo criminoso condena asperamente o sistema penitenciário de São Paulo, exige regalias para os presos e afirma que luta contra a Polícia e o governo e não contra a população. O ponto mais repetido no manifesto é a exigência do fim imediato do Regime Disciplinar Diferenciado, sistema ultra-rigoroso a que estão submetidos os líderes do PCC presos.

O vídeo foi entregue à Globo de São Paulo pelo operador de câmara Alexandre Coelho Calado, que fora sequestrado juntamente com Portanova ao início da manhã de anteontem, quando ambos pararam para beber um café numa pastelaria junto à emissora. Homens armados forçaram-nos a entrar num carro, abandonado e queimado pouco depois, tal como outros utilizados na fuga. Calado e o repórter Guilherme Portanova – ultimamente fizera reportagens sobre o PCC –, ficaram o dia inteiro fechados dentro de um carro, encapuzados e abaixados no banco de trás, segundo relato do operador de câmara. Cerca das 22h30 locais, Portanova deixou o veículo, sendo levado para local desconhecido, enquanto Calado foi deixado junto à Globo, incumbido de entregar o vídeo. Apesar de a TV cumprir a sua parte, até à hora do fecho desta edição Portanova ainda não tinha sido libertado.

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PCC, O GRUPO DO TERROR

Fundado no início dos anos 90 no interior das prisões de São Paulo para explorar a venda de drogas e de regalias à população prisional, o PCC apareceu para o grande público em Fevereiro de 2001, quando promoveu um megamotim em 29 penitenciárias ao mesmo tempo, sublevando mais de 35 mil presos e mantendo quase dez mil reféns por mais de 24 horas. A partir daí, o grupo passou a controlar o crime organizado nas ruas.

Desde Maio, a facção, que mata, decapita e incendeia os adversários, voltou à sua sanha violenta contra as forças de segurança e alvos civis, desencadeando, em três ondas de terror no estado paulista, mais de 400 ataques, de que resultaram quase 200 mortos e incalculáveis prejuízos. Depois da morte dos outros fundadores, o PCC é dirigido por Marcos Williams Herbas Camacho, mais conhecido por ‘Marcola’ (ver caixa ao lado), apesar de preso em regime de isolamento na penitenciária mais segura do Brasil.

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'MARCOLA' É CRUEL

Líder máximo do PCC, que comanda com poderes absolutos, até de vida e morte dos seus integrantes, ‘Marcola’ é conhecido tanto pela crueldade como pelo estilo provocador. Confiante no poder decorrente dos milhares de homens que, dentro e fora das prisões, seguem cegamente as suas ordens.

GOZÃO

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‘Marcola’ mostra-se irónico e desafiante sempre que tem contactos com autoridades. Há dias, a TV exibiu uma gravação de um depoimento de ‘Marcola’ a um juiz e promotores públicos, através de videoconferência, revelando sempre ironia. Negou, sorridente, ter algum tipo de ligação ao PCC e, quando o juiz perguntou aos promotores se concordavam em fazer um intervalo curto para tomar um café, desde a cela, rindo, gritou: “Eu também concordo. Concordo e sem cordo...”

PROVOCADOR

Duas semanas antes, ao ser visitado na sua cela na prisão da cidade de Presidente Bernardes, por uma comissão do Congresso brasileiro que investiga o crime organizado, ‘Marcola’ irritou-se com um deputado que o acusou de comandar um grupo de ladrões e ripostou: “Nem o sr. nem nenhum político brasileiro tem moral para me chamar ladrão. No Brasil, ninguém rouba mais do que vocês.”

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E COMEÇOU AOS 13 ANOS

A crueldade e o prazer de se mostrar poderoso parecem divertir ‘Marcola’ desde a infância. Na escola, já era considerado violento e impunha-se pelo medo. Nascido numa família bem estruturada e sem problemas financeiros, começou a assaltar e a cometer crimes, antes dos 14 anos, por puro prazer. Na escola, gabava-se dos crimes que cometia e com cuja fama acabava por conseguir a atenção de muitas adolescentes e mulheres feitas, e a idolatria de muitos colegas, que, ao mesmo tempo, o temiam e invejavam.

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