Humor e talento na SIC
Não têm a noção das limitações. Mas nada os impede de enfrentar as câmaras ao lado de profissionais. São os ‘cromos’. Gente genuína que dá colorido aos concursos.<br/>
Pede-se-lhes para dançar. Com técnica, rigor, performance e alma. E eles dão piruetas desconexas no palco, gesticulam e saracoteiam-se sem sentido. Estas audições, que decorriam no recato de um teatro ou de uma sala de cinema, são agora registadas pelas câmaras, montadas e depois exibidas para gáudio de alguns telespectadores e repúdio de outros. A visualização das performances segue depois para outras plataformas e, no Youtube, são milhares os curiosos. Já se sabe que os primeiros seis programas de ‘Achas que Sabes Dançar?’, que estreia este domingo na SIC, vão ser dedicados aos castings e à exibição do inusitado de alguns candidatos.
João Manzarra, que apresenta o formato, promete estar à altura dos ‘cromos’ e dos candidatos mais talentosos, porque a nova aposta de entretenimento quer encontrar o bailarino favorito dos portugueses, que saiba dançar, mas também ter atitude, determinação e carisma. André Marques, um jovem de 18 anos, estudante e operador de caixa num supermercado, vai ser um dos protagonistas de domingo. Não foi apurado por não saber dançar e, aos jurados, justificou por que estava ali: “Senti um bichinho aqui dentro e decidi mostrá-lo”.
Em ‘Achas que Sabes Dançar?’ também Cátia Antunes, de 24 anos, de Loulé, apanhou de surpresa os jurados César Augusto Moniz, Marina Grangioia e Miguel Quintão. Cátia é bailarina de varão e stripper.
“Ela tentou entrar no ritmo da música. Fez uma boa tentativa, mas não conseguiu ser apurada”, explica à Correio TV César Moniz, presidente do júri. Cátia tentou a sorte por duas vezes, uma em Lisboa, outra no Porto. No decorrer das audições apareceram mais ‘cromos’ rapazes. E como diz Manuel Moura dos Santos, jurado experiente do ‘Ídolos’, “as raparigas têm mais bom senso, são menos dadas ao ridículo”.
Marina Grangioia, professora de dança e jurada em ‘Achas que Sabes Dançar?’ vê nos ‘cromos’ “pessoas inteligentes que utilizam a televisão para proveito próprio, pessoas sem noção nenhuma delas próprias nem da realidade, pessoas ‘sem espelho’. Outro jurado do concurso, Miguel Quintão, diz que, de Norte a Sul, “Portugal tem muitos ‘cromos’”, que perdem a graça quando “não aceitam que se lhes diga que o são”.
O director de Programas da SIC, Nuno Santos, sublinha que o programa “não anda à procura de ‘cromos’”, mas do bailarino “que os portugueses vão escolher como o mais talentoso”. Todavia, esclarece, “há portugueses que têm uma ideia um pouco desfocada sobre o seu talento. Os ‘cromos’ aparecem e há alguns muito divertidos, com um bom espírito, e que acabam por proporcionar momentos de descontracção no programa: a quem está em casa a assistir, mas também aos jurados, à produção, aos técnicos, equipas que trabalham fechadas durante horas a fazer as audições”.
Roberta Medina, que se estreou como jurada na última edição de ‘Ídolos’, na SIC, divide os ‘cromos’ em três classes: os que vão “apenas para aparecer”; os que sabem não ter talento “mas vão para se divertir e dar uma boa gargalhada”, e os que “não têm qualquer noção da falta de talento e acabam por sair frustrados e magoados das audições”.
Psicólogo clínico e atento aos conteúdos televisivos, Quintino Aires desmonta, à Cor-reio TV, o fenómeno dos ‘cromos’: “Infelizmente, a maioria é mesmo ‘cromo’. Ou seja, é gente que procura o seu minuto de fama convencida de que tem algum talento. O fenómeno resulta de uma coisa que se tornou tabu na nossa sociedade: apontar ao outro o que nele não está bem, as suas falhas, erros, falta de talento... Não é politicamente correcto, não fica bem! Nem aos nossos pares nós podemos comentar o que não está bem neles. Ora, como a nossa autoconsciência se produz exactamente quando o outro me critica, se o outro não me pode criticar eu não construo consciência”. Com base neste esclarecimento, o psicólogo Quintino Aires alerta que “cada vez mais vamos ver pessoas a exporem--se, a serem criticadas, ridicularizadas”.
Porém, adianta, “nenhuma dessas pessoas se sentirá humilhada”, porque mesmo passando por aquelas situações não vão tomar consciência de que não têm aptidão para a área em que estão a concorrer. O raciocínio delas será sempre algo do género: ‘O júri está a beneficiar alguém que não eu, apesar de ser bom no que faço’”. Explica Quintino Aires que se antigamente se ficava “quase neurótico” com o “excesso de autoavaliação”, hoje caiu-se “no oposto”. O fenómeno, que atingia os adolescentes, tende a generalizar-se e afecta já “a geração dos 25 aos 30 anos”. A tudo isto, revela, junta-se a cada vez maior “imaturidade” dos concorrentes.
Apurados para a audição final de ‘Achas que Sabes Dançar?’ estão 42 rapazes e 44 raparigas. O concorrente mais novo tem 16 anos, o mais velho 30. Quase todos possuem formação ao nível da dança e 30 são bailarinos profissionais.
TRIO DE JURADOS
Miguel Quintão, Marina Grangioia e César Augusto Moniz constituem o júri que vai avaliar os concorrentes de ‘Achas que Sabes Dançar?’ Miguel Quintão é radialista e DJ. Criou o Zig Zag Warriors e Tudo Bons Rapazes. Marina Grangioia é professora de dança contemporânea, ballet, ritmos latinos, hip-hop e jazz. César Augusto Moniz, presidente do júri, foi bailarino e trabalha como coreógrafo e professor.
O SUCESSO DO ‘ÍDOLOS’: “FORMATO DESCOLOU”
Quando a última edição do ‘Ídolos’ estreou, 2,7 milhões telespectadores seguiram a emissão recheada de ‘cromos’. Os primeiros programas foram dedicados aos castings e, face às audiências, Manuel Moura dos Santos, presidente do júri, diz que os números revelam que “o formato descolou” e atingiu “níveis de popularidade iguais aos de outros países”.
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