Nada é deixado ao acaso!

Na indústria de ficção da Globo, tudo é pensado ao pormenor. O realismo e a credibilidade dos cenários, o rigor dos figurinos e da produção de arte de ‘Senhora do Destino’ são alguns dos segredos do seu sucesso. Também em Portugal…

14 de janeiro de 2005 às 00:00
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A força dramática do texto e do elenco aliada à riqueza e diversidade da cenografia e dos figurinos fazem de ‘Senhora do Destino’, em exibição na SIC, uma das telenovelas brasileiras de maior sucesso de sempre.

Estreada em Portugal a 13 de Setembro do ano passado, a novela de Aguinaldo Silva tem vindo a crescer em audiências e desde o final da ‘Quinta das Celebridades’ lidera mesmo a preferência dos espectadores portugueses. Não é por acaso: tudo nesta produção foi estudado, projectado e construído com preciosismo, minúcia e realismo no Projac, a grande cidade cenográfica da Rede Globo. O resultado está à vista.

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Comecemos pelos cenários e pela comunidade da Pedra Lascada, onde a personagem Rita, interpretada por Adriana Lessa, vive com os filhos, numa humilde casa sem reboco nem pinturas. No quintal, a roupa é lavada num alguidar e estendida no emaranhado de cordas que o atravessa de ponta a ponta. As ruas da Pedra Lascada são de terra batida, poeirentas no Verão, lamacentas no Inverno. É neste bairro humilde que vive também o irreverente Shao Lin (Leonardo Miggiorin) e está localizada a sua academia de luta.

Esta favela é apenas um dos cenários de ‘Senhora do Destino’, porque a equipa de cenografia trabalhou noutras duas frentes: a Vila de São Miguel e a casa de Giovanni Improtta (José Wilker). A preocupação foi sempre a mesma: criar cenários realistas para dar credibilidade às histórias.

A Vila de São Miguel, região fictícia da Baixa Fluminense, foi construída numa área de 10.750 metros quadrados e é composta pela casa e estabelecimento comercial de Maria do Carmo (Suzana Vieira), por um mini-shopping com 12 lojas, pelo prédio dos empreendimentos de Giovanni Improtta, por dois edifícios comerciais, uma igreja, uma escola, um posto de gasolina com loja de conveniência e um estabelecimento de venda de vídeos.

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A residência de Maria do Carmo é majestosa, confortável e sólida como convém a uma empresária ligada à construção civil. Mas porque ela é uma mulher prática, a casa é simples e sem sinais de ostentação.

Já a mansão de Giovanni Improtta foi erguida obedecendo a decorações temáticas, e cada assoalhada reflecte um lugar do Mundo. Por exemplo, o quarto é francês e o salão de jogos inglês. É neste ambiente chique e diversificado que o ex-jogador do bicho, e hoje empresário de sucesso, melhor reflecte as suas aspirações de ascensão social.

FATOS SÃO ARGUMENTO

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Os figurinos de ‘Senhora do Destino’ foram outra preocupação da produção da Rede Globo. Para a figurinista Beth Filipeck, a primeira fase da novela, datada de 1968 e que durou apenas quatro capítulos, foi a mais difícil de montar porque, além de ter exigido um aturado trabalho de pesquisa, envolveu um grande número de personagens, figurantes e personalidades.

O Arquivo e a Biblioteca Nacional, o Centro de Documentação da TV Globo e prestigiadas revistas da década de 60 foram fundamentais para ajudar os técnicos a recriar com fidelidade o ambiente da época. Todo este material ajudou a equipa técnica a perceber que tipo de sapatos as personagens da novela deveriam usar e até como deveriam andar. “Era preciso formalizar com exactidão”, explica a figurinista brasileira Beth Filipeck.

Ainda na primeira fase da novela, e para criar o figurino do baile oferecido à rainha de Inglaterra que visitou o Brasil em 1968, Beth Filipeck inspirou-se em fontes reais: “Acompanhada por uma amiga socialmente bem relacionada, visitei a casa de 20 personalidades ilustres que estiveram presentes no baile e que participaram activamente na vida intelectual e social da época. A partir daí trabalhei esse contexto”.

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PROTOCOLO RIGOROSO

Para ilustrar correctamente a cerimónia com a presença da rainha, a equipa da Globo chegou mesmo a cumprir um protocolo do baile no Rio de Janeiro que explicava quais as cores permitidas e proibidas e o que podia ou não ser usado na presença da rainha. “Descobrimos que ninguém deveria usar a cor lilás diante da Rainha, porque simboliza o luto oficial em Inglaterra”, explica a figurinista.

Ainda para recriar o baile, a produção de arte da TV Globo contou também com a assessoria de um professor de inglês e de uma embaixatriz, que deu apoio às questões relacionadas com o cerimonial da festa.

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Para compor a personagem de Dona Josefa (Marília Gabriela), a proprietária do jornal ‘Diário de Notícias’, os figurinistas inspiraram-se na elegância e sumptuosidade de Jackie Onassis.

CORTE E COSTURA

Nos ateliês de costura do Centro de Produção da Globo, apetrechados de moderna maquinaria de corte e costura, dezenas de operários e operárias encarregam-se de confeccionar os fatos necessários à novela. Ao lado, um armazém de dois andares guarda religiosamente modelos antigos de novelas passadas. Tudo devidamente catalogado.

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Os figurinos de Suzana Vieira, à semelhança de outros que surgiram em 1968 e entraram, depois, na segunda fase de ‘Senhora do Destino’, terão sempre presentes elementos do passado. Nas roupas que traja, Maria do Carmo ostenta sempre uma renda ou uma das cores quentes do Nordeste, região onde nasceu e cresceu.

Ao recriar a atmosfera urbana de 1968, a equipa de arte esbarrou com um complicado obstáculo ao perceber que a arquitectura do Rio de Janeiro estava profundamente descaracterizada. Para esbater este problema, o director de arte da Globo, Luís Pereira, e a equipa que lidera tiveram de pintar paredes, tirar placas e colocar tapumes noutros locais da cidade. “Encontrámos muita coisa deteriorada. Já não existe quase nada da arquitectura original do Rio de Janeiro. A cidade está completamente diferente”, explica o director.

UNIDOS PELA ROUPA

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Beth Filipeck e Reynaldo Machado são um casal sui generis. Unidos por casamento há 25 anos, os dois costureiros são os responsáveis pelo guarda-roupa de ‘Senhora do Destino’, a novela que a SIC exibe em horário nobre. Ela assina as oito mil peças femininas da novela de Aguinaldo Silva e ainda dá a sua opinião sobre os trajos masculinos, concebidos pelo marido. E há sempre ainda a hipótese de reformar uma das 58 mil peças antigas guardadas em armazém.

“O Projac é como um grande shopping. Temos de tudo e para todos”, brinca Beth.

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