Não sou uma justiceira, faço apenas o meu trabalho
Fria, agressiva, antes quebrar que torcer. Aos 46 anos, Constança Cunha e Sá é o ‘terror’ de qualquer político. Durante a campanha eleitoral, inquiriu os candidatos e não os deixou fugir às questões. Ao mínimo desvio, não hesitou em interromper. Tudo porque, defende, “uma entrevista não é uma conversa de café”…
Durante a campanha eleitoral, entrevistou os líderes partidários no ‘Jornal Nacional’ da TVI. E fê-lo de uma forma incisiva, dura, para alguns mesmo agressiva. Essa é a sua forma de entrevistar ou acha que não há que ter piedade dos políticos?
Acho que às vezes se confunde conversa com entrevista. Em campanha eleitoral, uma entrevista serve para esclarecer as pessoas e para confrontar os políticos com as próprias contradições na mensagem. Por isso, penso que a entrevista deve ter sempre perguntas pertinentes. Se a proposta não faz sentido, ou se um político foge à pergunta, o jornalista tem a obrigação de tentar que ele explique, mesmo que não o queira fazer.
Mas há hoje claramente um ‘politiquês’ que deve ser desmontado pelos jornalistas?
Cada partido quer passar a sua mensagem e nesta campanha que acabámos de viver isso foi muito claro. O engº. Sócrates queria falar de confiança e do choque tecnológico e não mais do que isso. O discurso do dr. Santana Lopes era mais errático e de vitimização. O dr. Portas alinhava no discurso da competência e da estabilidade, enquanto o dr. Louçã fazia a apologia das causas sociais. E o que se verificou nas entrevistas é que, sempre que respondiam a uma pergunta, eles queriam passar a mensagem. Como se o político não tivesse ouvido a pergunta, ou não lhe interessasse a pergunta porque tinha uma resposta pronta a dar...
Exactamente, a cassete que durante anos foi um exclusivo do PCP. Agora esse vício generalizou-se. E nesta campanha isso notou-se mais do que nas outras.
Porque os dois partidos tinham pouco a dizer às pessoas. Limitaram-se, num caso, a enunciar objectivos e, noutro caso, a vitimizar-se. Portanto, fixaram duas ou três frases essenciais, preferindo não concretizar as dificuldades que se avizinham e as urgentes medidas que precisam de ser tomadas.
Curiosamente, nessa análise não falou de Jerónimo de Sousa. Porquê?
Porque ele respondeu a todas as minhas perguntas. Teve uma postura autêntica, mais genuína e respondeu-me a tudo. Não fugiu. Não foi, por exemplo, como Pedro Santana Lopes, que, quando o confrontei com as declarações de Alberto João Jardim sobre o ‘senhor Silva’, ele fugiu à questão.
Foi um momento de grande tensão, com a Constança a perguntar-lhe várias vezes a mesma coisa e a dizer “portanto, o dr. Santana Lopes não quer responder, é isso?”…
Foi tenso, porque o jornalista não se deve contentar com qualquer resposta.
O ESTILO
Reconhece que o seu estilo hoje marca a diferença naquilo que é a norma na televisão portuguesa?
Não sei, muito francamente, nunca fiz essa comparação. Eu tenho o meu estilo de fazer entrevistas, sempre as fiz assim, e nunca me andei a comparar com os outros. Nós na TVI decidimos fazer entrevistas curtas, com cerca de 20 minutos e, portanto, não posso deixar que o entrevistado fuja às questões ou queira conduzir a entrevistas para os terrenos onde se sente mais à vontade. E, nessas alturas, tenho de o interromper.
Houve, aliás, alguns candidatos que se mostraram agastados com as suas interrupções…
Pois, mas não posso permitir que, a despropósito, os políticos respondam a coisas que não foram perguntadas. Não me incomodo que eles fiquem agastados. É claro que não se devem passar alguns limites, como o da boa educação, por exemplo. E eu não ultrapassei esse limite.
Portanto, não partilha da teoria da afabilidade, do deixar o entrevistado falar à vontade?
Depende das situações. Não há um modelo fixo de entrevista. Numa entrevista política, o jornalista não tem de ser agressivo, mas deve sempre confrontar o entrevistado sobre a discrepância entre a teoria e a prática.
Não acha que tenha sido agressiva?
Não, muito francamente, não acho que tenha sido agressiva.
Mas quando olha para o lado, para os seus colegas que fazem entrevistas políticas na televisão, que análise é que faz?
Eu tenho o meu estilo, que é necessariamente diferente do da Judite de Sousa ou do Ricardo Costa, por exemplo.
Gosta do estilo deles?
Acho que a Judite vai bem preparada para as entrevistas, mas deixa o político falar à vontade. Eu não partilho dessa opinião. Acho que a entrevista não é uma conversa de amigos à mesa do café. Percebo o registo da Ana Sousa Dias com os entrevistados que tem, mas para políticos, e em campanha eleitoral, aquele registo da Judite confesso que não é o meu e não o seguiria. O que ela faz, às vezes, é dar as deixas para eles falarem. Vi algumas das entrevistas que ela fez, por exemplo ao Santana Lopes, e achei que faltava ali confronto. Por exemplo, já gosto mais do estilo do Ricardo Costa. É diferente, é uma entrevista menos formal.
AS CRÍTICAS
E como é que reage às críticas que lhe têm feito na imprensa? Não as lê, como fazia o professor Cavaco?
(sorriso) Não tenho muita noção das críticas que me fazem. Repare que escrevem muito pouco sobre mim. Não sou uma figura muito mediática.
Mas olhe que nas últimas semanas saíram algumas críticas na imprensa à sua forma de entrevistar, nomeadamente na semana passada nesta mesma revista…
É assim: eu poderia dizer ‘ah, não ligo nada, passa-me ao lado’. Não é verdade. Claro que ligo alguma coisa quando escrevem. Por exemplo, na crítica da Correio TV dizia-se que eu tinha sido demasiado agressiva com o engº. Sócrates e com o dr. Louçã. Foi uma coisa que me fez pensar, de facto. Tento sempre perceber se as críticas têm algum fundamento, se há alguma justificação.
Já alguma vez, a posteriori, sentiu que tinha pisado a fronteira ténue da agressividade? Já alguma vez achou que tinha sido injusta ou que não tinha deixado o entrevistado explanar os seus pontos de vista correctamente?
Não, nunca. Sinceramente, nunca fui desagradável, malcriada com alguém, tentei sempre não me sobrepor à resposta. Não gosto, aliás, daquele estilo de constante interrupção. Mas gosto que me respondam às perguntas que faço.
A linha editorial da TVI é claramente uma informação perto do cidadão comum, uma informação que denuncia as injustiças e ilegalidades, que assume estar do lado do mais fraco. Quando entrevista um político, sente-se uma justiceira?
Não, não, não. Nada. Não me sinto nada uma justiceira. Não tenho de todo essa ideia de que um jornalista é um justiceiro ou um moralizador. Quando entrevisto um político, sinto que esse é o meu trabalho. Tenho de fazer aquilo bem feito, de uma forma profissional. E limito-me a fazer as perguntas que, mal ou bem, acho que o público quer ver respondidas.
Mas é uma mulher de combate, que assume esse lado guerreiro…
Não sou a menina guerreira, isso não… (risos)
Sim, mas sempre foi assim: eu recordo que no passado recente, a Constança passou pela ‘Noite da Má Língua’ na SIC, em 1994, e dirigiu o ‘Independente’, em 1997. Ou seja, há uma coerência na sua postura. A língua afiada sempre foi uma ferramenta sua?
Sim, mais a escrever. Mas, atenção, eu não me sinto nada uma combatente, porque não tenho armas para combater seja o que for. Nem tenho essa ideia de que a Comunicação Social é um quarto poder e que tem de fiscalizar, etc, etc, etc. Não, eu limito-me a fazer o meu trabalho.
A FILÓSOFA
Em que momento da sua vida decidiu ser jornalista? Foi espontâneo?
Foi espontâneo, porque muito mal pensada. Eu tirei o curso de Filosofia, dei aulas de Filosofia, mas sempre me interessei por política. Um dia, em conversa com um grupo de amigos, em que estávamos a discutir política, perguntaram-me por que é que não ia trabalhar para um jornal. E eu, que nessa altura, tinha interrompido a actividade para ter um filho, decidi experimentar. E fiquei.
E começou na ‘Sábado’…
Sim, com o Joaquim Letria. Depois então é que surgiu o ‘Independente’, com o Paulo Portas.
Tem referências profissionais?
(pausa) Não, não sou assim muito dada a referências. Tenho pessoas que gosto de ler, mas assim referências, nesse sentido, não, não tenho.
Politicamente, como é que se define? Ou é como o anterior director de Informação da RTP, José Rodrigues dos Santos, que explicou que não votava para manter a equidistância?
Não, não é preciso deixar de votar para manter a equidistância. Eu acho que um jornalista pode votar, como qualquer outro cidadão. E o voto não lhe retira qualquer espécie de independência. Nunca tive filiação partidária, nem nunca me identifiquei com um partido, mas não tenho dúvidas em afirmar que me sinto mais próxima do centro-direita do que da esquerda. Mas tento que isso não passe nas entrevistas.
Acha que a vitória socialista nas eleições de domingo passado é por mérito do PS e de José Sócrates ou demérito do PSD e de Pedro Santana Lopes?
Nos últimos anos o que tem acontecido é que o partido mais votado foi-o por colapso do adversário. O que se assistiu agora foi mais ou menos o mesmo. Sócrates não ganha pelo que representa, mas porque o Governo fez o que fez. Ou seja, o voto em Sócrates é mais para tirar Santana de lá. Pior é impossível.
Como é que se explica que um homem cuja carreira política foi construída sobre os holofotes mediáticos tenha demonstrando vulnerabilidades onde não se esperaria que acontecesse, ou seja, ao nível do discurso, da passagem da mensagem?
É verdade, ele tinha um mito de invencibilidade, que advém muito da força que tinha junto da imprensa, de aparecer muito na televisão e nas revistas. Mas não é líquido que um homem que se mexa bem nesses ambientes seja um bom primeiro-ministro. Eu achei sempre que ele não tinha perfil para o cargo. E os portugueses perceberam isso: os seis meses de governo liderado por ele provaram essa falta de capacidade.
E Paulo Portas? É melhor político ou melhor jornalista?
(pausa) Boa pergunta! O Paulo Portas foi um bom jornalista… e é um bom político. Mas agora que me está a perguntar se é melhor jornalista ou melhor político… não sei responder. (pausa) Deixe cá ver… talvez seja melhor político. Ele foi um bom jornalista, mas era um jornalismo de combate, de causas. Portas é um homem muito inteligente. Sempre se interessou pelo jornalismo por causa da política. Para lhe responder sinceramente, eu acho que ele sempre foi um político. Mesmo quando esteve no ‘Independente’. Era um jornalismo militante.
A Constança é amiga de Paulo Portas?
Sou.
E trabalhou com ele…
Trabalhei com ele muitos anos e, portanto, ficámos amigos nessa altura. E continuámos a ser amigos.
Sente que tem a distância suficiente para o entrevistar, como fez há 15 dias na série de entrevistas da TVI?
Sinto.
Eu coloco esta questão porque há quem diga que Paulo Portas foi o entrevistado com quem a Constança foi mais… macia.
Não, olhe que não. Li até opiniões contrárias. No ‘Público’, por exemplo, li que a entrevista onde se tinha revelado mais a demagogia do candidato tinha sido com o Louçã e com o Paulo Portas. Tento sempre ser independente e, se calhar, no caso do Portas, até com algum excesso de zelo.
Qual é a técnica para entrevistar na televisão um amigo, sem que o público perceba essa cumplicidade?
Eu sou amiga do Paulo Portas, mas não temos uma grande cumplicidade. Falamos muitas vezes, mas não estamos juntos com muita frequência. Portanto, não há essa cumplicidade de que fala. Mas de qualquer forma, eu preparo a entrevista como se não o conhecesse. Tenho um dossiê sobre ele, acompanhei a campanha, tentei registar as fragilidades e contradições do discurso e confronto-o com isso.
Sente-se bem na televisão? Ou continua a achar que o seu ‘habitat’ natural é o mundo dos jornais, como disse quando saiu da ‘Noite da Má Língua’?
Tenho muitas saudades da imprensa escrita. A televisão expõe de uma forma muito mais violenta. Gosto muito de escrever e o jornalismo escrito dá uma liberdade bastante maior.
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