Nos bastidores das telenovelas

Concentrar recursos humanos e técnicos para rentabilizar a produção é a palavra-chave da Plural, uma empresa apostada em atrair investimento estrangeiro.

29 de junho de 2012 às 15:00
bastidores, telenovelas, novelas, televisão Foto: Mariline Alves
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Em Bucelas, a poucos quilómetros de Lisboa, está montada a máquina de produção de ficção da Plural Entertainment, a produtora da Media Capital, dona da TVI. Na Quinta dos Melos, centenas de actores e técnicos chegam todas as manhãs à fábrica de novelas. A meio da tarde, enquanto Fernanda Serrano deixa o estúdio onde gravou ‘Louco Amor’, João Catarré conversa com um colega antes de começar os testes de imagem para ‘Lua de Papel’, a próxima novela de Maria João Mira. É uma das vantagens da concentração dos estúdios no mesmo local, os elencos encontram-se, os amigos revêem-se à entrada ou à saída, ou juntam-se ao almoço e ao lanche.

Com seis estúdios, este centro de produção ocupa mais de 21 mil metros quadrados de área coberta e cerca de 30 mil de área exterior. No total, é o equivalente a mais de 50 campos de futebol. Actualmente, as novelas ‘Doce Tentação’ e ‘Louco Amor’ ocupam quatro destes estúdios, povoados de equipas técnicas e actores que numa agitação constante procuram produzir o maior número de horas de ficção possível, "sempre dentro dos parâmetros de qualidade que os clientes exigem", diz à Correio TV um dos assistentes de realização de ‘Louco Amor’. ‘Lua de Papel’, que substituirá ‘Remédio Santo’, e cujas gravações arrancam dentro de dias, ocupará os dois que actualmente se encontram vagos. Finalizar um sétimo estúdio, vocacionado para o entretenimento, é uma das ambições do grupo, revela à Correio TV Maria Ana Borges de Sousa, administradora da Plural.

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Na área dos estúdios são múltiplos os serviços de apoio às produções. Além de cada novela ter afectos dois estúdios, de mil metros quadrados cada, conta ainda com camarins, uma sala de guarda-roupa, outra de adereços e de caracterização e ainda uma sala de actores, onde estes aproveitam para estudar os textos e conviver. Há ainda uma lavandaria e um ateliê de costura, onde se desenham e cortam novos modelos ou se reaproveitam peças de outras produções. Outro motivo de orgulho da Plural é o armazém destinado ao guarda-roupa. "As peças que andaram dispersas e em permanente mudança estão agora aqui concentradas", diz Maria Ana Borges de Sousa, que conduziu a Correio TV numa visita guiada à ‘fábrica de novelas’. Devidamente etiquetadas, as peças, de diferentes épocas, vão desde fardas militares a vestidos de noiva, passando pelos paramentos religiosos ou vestidos de fantasia. Noutra secção, alinham-se chapéus, sapatos e botas, cintos, carteiras e uma profusão de adereços. "Alugamos roupas para cinema, teatro e publicidade e temos emprestado algum guarda-roupa a alunos de escolas de teatro e cinema", diz a responsável. O refeitório é um dos cartões de visita da Plural. "Temos aqui condições que muitas grandes empresas não têm", defende Maria Ana Borges de Sousa.

A Quinta dos Melos acolhe ainda a EPC (Empresa de Produção de Cenários), que constrói os cenários para a ficção da Plural, mas também para entretenimento, informação, cinema, teatro e publicidade. Num outro ponto da quinta está instalada a EMAV (Plural Meios Técnicos), terceira empresa do grupo que reúne os meios técnicos e audiovisuais. Fora da Quinta dos Melos, em Lisboa, o grupo tem a Plural Casting e Workshop e a Casa da Criação. Já o departamento de audio e vídeo e o grafismo está nas antigas instalações de Vialonga.

Em 2011, a Plural produziu 1100 horas de ficção com o apoio de 400 colaboradores. "E ainda há os trabalhos pontuais que podem envolver mais duas centenas de colaboradores. Às vezes, a Plural chega a reunir neste espaço cerca de 500 pessoas", diz Maria Ana Borges de Sousa. ‘Lua de Papel’, projecto de Maria João Mira, autora de ‘Anjo Meu’, é a novela que se segue. Os cenários e adereços estão a ser construídos pela EPC. Com uma equipa de profissionais especializados, o pavilhão alberga carpintaria, serralharia, uma estufa de pintura e prateleiras onde se guardam matérias-primas como alumínio, madeiras e contraplacados. "Os cenários dos estúdios de informação da TVI e da SIC e dos Globos de Ouro foram aqui construídos", revela Maria Ana Borges de Sousa, sublinhando que uma longa-metragem francesa, ‘A Odisseia’, da Arte France, sobre as aventuras de Ulisses, foi a última grande produção a recorrer à EPC para a construção de cenários, "os maiores e mais onerosos" executados pela Plural.

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Mais à frente, na garagem da EMAV, que se dedica à recuperação de equipamento audiovisual da TVI, SIC e demais empresas que recorram ao serviço, destacam-se dois carros de exteriores ali estacionados. O maior está equipado com 16 câmaras e tem sido usado na cobertura de jogos de futebol . "Com este carro já fizemos a personalização técnica dos jogos do Real Madrid e a final da Copa do Rei em Espanha", conta a administradora da Plural. "Foi com estes trabalhos que começámos a existir como empresa aos olhos externos", faz questão de frisar Maria Ana Borges de Sousa.

A administradora do grupo, já sentada na sala de reuniões da administração da empresa, com o pátio central da quinta em pano de fundo, sublinha que ainda há muito a fazer pela Plural e aponta os projectos a que gostaria de dar prioridade: "Se houvesse dinheiro disponível gostaria de fazer o reforço dos sistemas de refrigeração [ar condicionada] dos estúdios e armazéns para melhorar as condições de trabalho de quem colabora connosco". Terminar as obras do estúdio vocacionado para o entretenimento é outro objectivo que vem sendo adiado. "Esta obra seria um investimento para o grupo Media Capital, mas também para empresas externas, nomeadamente outras produtoras", diz. "Dadas as infra-estruturas que temos poderíamos oferecer óptimas condições a quem nos procurasse", explica a responsável. Um País com um décor natural e "único", o clima, a luz, a mão-de-obra "barata" e a localização, "Lisboa está tão perto de Madrid como Barcelona de Madrid", são, na opinião, da administradora da Plural, razões fortes para concluir o estúdio de entretenimento.

Entretanto, há já vários anos que a Plural exporta muitos dos seus produtos de ficção. Angola, Moçambique, Estados Unidos, Brasil e países da Europa de Leste têm sido o principal destino de séries e novelas produzidas pela empresa. Outra das ambições é prosseguir com o plano de concentração de todos os departamentos do grupo, uma vez que a Plural Casting e Workshop, a Casa da Criação e o departamento de audio e vídeo e o grafismo encontram-se dispersos por outras instalações. "A nível tecnológico era fundamental trazer para a Quinta dos Melos a pós-produção e o grafismo. Mas este plano requer um grande investimento e estúdios insonorizados. Evitar-se-iam as deslocações da parte artística a Vialonga", afirma.

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Além das telenovelas da TVI, a que deve ser acrescentada a série ‘Morangos com Açúcar’ (gravada nos estúdios que a produtora ainda detém em Vialonga), a Plural tem sido responsável pela produção de telefilmes para a RTP e TVI e pela cedência de equipamentos para algumas campanhas de publicidade encomendadas a pedido de clientes externos à Media Capital.

Com os investimentos efectuados nos últimos dois anos está adiado, para já, o projecto de ‘cidade cinematográfica’, que tinha Sintra como destino, e que pretendia ser um pólo aglutinador de produtoras e universidades.

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