Noticiários ‘escorregam’ no português
Luta contra o tempo conduz a gralhas, erros de pronúncia e ortográficos nos noticiários. Telespectadores queixam-se. Mas provedor do canal público e directores de Informação dos privados consideram positiva essa interactividade.<br/>
Os telespectadores do canal público exigem português bem falado e bem escrito e queixam-se ao provedor. Já nas estações privadas o alvo do público é o conteúdo das notícias. Críticos de televisão falam da necessidade de uma maior supervisão.
José Carlos Castro, subdirector de Informação da TVI, utiliza o ditado popular “Depressa e bem há poucos quem” para justificar gralhas e erros de ortografia que por vezes surgem no rodapé dos blocos informativos. A situação é comum a todos os canais e recorrente, pois os momentos que antecedem a emissão dos noticiários e dos especiais – em dias de eleições – são autênticas batalhas contra o tempo, “dando espaço ao erro, por muito rigorosa que seja a supervisão de editores e directores”. Opinião corroborada por Alcides Vieira, director de Informação da SIC: “As gralhas mais frequentes são as de notícias de última hora, em que não há muito tempo para rever antes de entrar no ar. E também quando tem de se escrever rapidamente uma frase de um convidado que está em estúdio. Por vezes pode faltar uma letra ou um acento, mas acho que as pessoas entendem perfeitamente”.
“Correcções deste género aparecem quase todos os dias, por isso é que pivôs e editores têm de estar atentos. Mas às vezes a confusão é tão grande que há coisas que passam”, sustenta o subdirector da estação de Queluz de Baixo. “Entre as oito mil queixas que chegam ao provedor encontram-se muitas sobre erros de escrita nas notas de rodapé mas também de pronúncia e gramaticais”, explica Paquete de Oliveira. O provedor do espectador da RTP diz ainda que quando o programa ‘Cuidado com a Língua’ estava no ar muitas das queixas sobre “erros de português e de pronúncia eram reencaminhadas para lá. Fazia todo o sentido. Mas agora chegam ao provedor”. Para os directores de Informação dos canais privados, a existência do provedor motiva as queixas, por outro lado dizem que “não se pode esquecer que a RTP tem uma audiência mais idosa e muito atenta”. Mas José Carlos Castro considera que “a qualidade genérica das televisões portuguesas é muito boa” e que “todo o ‘feedback’ do telespectador é importante”. Opinião compartilhada por Alcides Vieira.
Mas para os críticos Fernando Sobral e Paulo Nogueira “tem de haver um controlo mais rigoroso por parte dos editores”. “Não se trata só do erro ortográfico mas também de frases sem sentido”, diz Sobral. Paulo Nogueira vai mais longe: “Em Portugal há um fenómeno interessante. Os jornais estão mais à frente. São eles que investigam e as TV vão atrás.”
Quanto a erros de pronúncia, os directores da SIC e da TVI desmistificam. “Por vezes acontece usar frases feitas que já entraram no discurso e que podem mudar o sentido daquilo que se quer dizer. Por exemplo, diz-se muito ‘ir de encontro a...’ quando se quer dizer ‘ir ao encontro de...’, explica o director de Informação do canal de Carnaxide. Também o subdirector de Informação da TVI recorda: “Lembro-me de uma notícia sobre um homem que se mutilou em que o pivô disse então ‘um homem cortou o pénis com a sertã (frigideira)’, quando o que ele deveria dizer era que “um homem da Sertã (vila) cortou o pénis”.
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