Novelas imitam dramas reais

Mais do que entreter, ‘Páginas da Vida’ pode ajudar o público português a acreditar que nos urgentes processos de adopção, os pais biológicos nem sempre são a melhor solução.

02 de fevereiro de 2007 às 00:00
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Realidade e ficção podem, por vezes, decalcar-se. Entre ‘Páginas da Vida’, em exibição na SIC, e o polémico caso de adopção da pequena Esmeralda que tem apaixonado os portugueses, há várias coincidências. Mas como convivem o real e a ficção? Se a novela pode ser mais do que um espaço de entretenimento, até que ponto o desfecho de ‘Páginas da Vida’, pode ajudar a opinião pública a desmontar a crença de que a ligação biológica é fundamental nos processos de adopção?

Manoel Carlos, autor de ‘Páginas da Vida’, insiste em “fazer novelas com acontecimentos verosímeis” para que o público “se identifique e se divirta”. Quando faltam 30 capítulos para o desfecho da novela no Brasil, o drama de Francisco (Gabriel Kaufmann) e Clarinha (Joana Morcazel) – ele adoptado pelos avós, ela pela médica que a ajudou a nascer, e ambos rejeitados pelo pai biológico – tem despoletado a emoção junto dos telespectadores. E Manoel Carlos sente dificuldade em gerir a ansiedade dos actores e a pressão da opinião pública. Ao decidir que o pai biológico regressaria cinco anos depois para resgatar os filhos, o guionista fez eclodir o drama e dividir as opiniões entre os que seguem a estória. A maioria do público entende que o pai biológico, Léo, (Thiago Rodrigues) não tem direito à guarda dos gémeos. Mas, na ficção, Léo, filho de um milionário, contrata advogados de renome e parte para tribunal decidido a resgatar os gémeos. Entre a espada e a parede ficam o avô Alex (Marcus Caruso) e a médica, que adoptou Clarinha, portadora de Trissomia 21. Na acirrada disputa jurídica, Helena (Regina Duarte) é proibida de exercer medicina. O desfecho da adopção, só Manoel Carlos o conhece. Até lá avisa: “A guerra judicial pela guarda dos irmãos só será concluída nas últimas semanas da novela”. E remata: “Sei da ansiedade do público, mas estou fazendo a minha novela no ritmo a que me propus. E não vou mudar isso, por maior que seja a expectativa”.

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NO BRASIL AUDIÊNCIA MÉDIA ATINGIU 59,1%

No Brasil, a audiência média de ‘Páginas da Vida’ atingiu já os 59,1 pontos, valor só ultrapassado pelo ‘Clone’, de Glória Perez, que pontuou 59,8 pontos. Em Portugal, a novela também está a conquistar os telespectadores. E Francisco Penim, director de Programas da SIC, reconhece que o tema da adopção remete para o real e “está a ser discutido na Informação da SIC e no programa ‘Fátima’”. Investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Sofia Aboim afirma que a exibição de ‘Páginas da Vida’ poderá contribuir para criar em Portugal “uma nova sensibilidade” na abordagem à adopção. “No nosso País, a crença social enraizada de que os pais biológicos são o melhor para as crianças, tem prejudicado os processos de adopção”, alerta.“Quando as crianças mantêm algum tipo de contacto, mesmo que irregular, com um dos progenitores, ficam com as adopções adiadas”, acrescenta. Para Sofia Aboim, a novela de Manoel Carlos, empurrada pelas boas audiências, poderá esbater este “estereótipo social” e ajudar a “criar um movimento de opinião pública com impacto social capaz de ter algum efeito jurídico”. Ou pelo menos gerar “um clima propício a alguma alteração”. O caso Esmeralda, diz a investigadora, é “um bom exemplo da força da opinião pública, que mostrou que a decisão jurídica não correspondeu às expectativas das pessoas, ou pelos menos àquilo que elas achavam correcto. E a solidariedade que o pai adoptivo tem recebido é prova disso”. Sobre o recurso do guionista brasileiro à inclusão de depoimentos reais do cidadão comum no final de cada capítulo, Sofia Aboim conclui: “São apontamentos muito interessantes, porque estabelecem um diálogo entre a ficção e a realidade”.

Para o psicólogo Eduardo Sá é “inequivocamente positivo” que a ficção traga para a discussão “aspectos que poderiam ficar omissos”. “Quando uma telenovela aborda temas de alguma sensibilidade e em função deles, seja a adopção ou outro, abre nichos de discussão, essa produção está a fazer serviço público e merece ser elogiada”, explica. Enquanto o caso Esmeralda se tornou já num “episódio da telenovela da vida real”, o efeito que possa surgir da exibição de ‘Páginas da Vida’ ”dependerá das suas audiências e da bola de neve que se formar, ou não”, afirma o neuropsicólogo Nelson Lima. Em sua opinião, a “ficção vai abrir a discussão” até porque o caso real já o fez: “No mundo em que vivemos, pautado por conflitos de interesses, leis e conceitos, é salutar que haja espaço para a discussão. Mas é preciso ir além dela de modo a arrumar definitivamente aquilo que pode constituir um empecilho na vida das pessoas”. Ter uma novela que aborde a adopção é para o neuropsicólogo uma nova oportunidade para “uma discussão mais acesa e o aparecimento de novos dados”.

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ESTRATÉGIAS MUITO REDUTORAS

Docente na Universidade do Minho, Felisbela Lopes elogia a capacidade que a novela brasileira tem de “explorar questões sociais” fazendo-as depois “entrar, de modo natural, no debate do quotidiano”. Implacável na crítica à novela nacional, comenta: “Apesar da quantidade de ficção que existe nas nossas televisões, ela mantém-se monotemática e com estratégias muito redutoras.” Felisbela Lopes aponta falhas aos textos e também à estruturação das personagens. “Na novela portuguesa o telespectador não se dá conta da importância que as profissões têm na vida das pessoas. Em ‘Tempo de Viver’ há uma estudante de Jornalismo que poderia ser estudante de arquitectura ou sociologia, porque nada, no enredo, nos faz crer que ela está naquela área profissional. Do mesmo modo, uma personagem que sofre de cancro vive a doença na conflitualidade ao nível amoroso. E, em vez de se passar uma mensagem positiva e de esperança em torno da doença, os diálogos são construídos num tom pessimista e negativo”. A docente chama ainda a atenção para a importância dos temas abordados pela novela junto dos chamados ‘públicos implicados’ , ou seja aqueles que têm directamente a ver com a problemática ali abordada: “A novela consegue integrar mais facilmente esses públicos que outros meios, nomeadamente os jornais”.

Reconhecendo a qualidade da ficção brasileira, Francisco Penim nota que “a SIC tem em grelha três novelas da Globo [’Páginas da Vida’, ‘Pé na Jaca’ e ‘O Profeta’], todas elas de elevada qualidade e, cada uma no seu horário, reforçam a cada dia que passa o vínculo emocional com o seu público. Estamos muito satisfeitos com os resultados globais das novelas da Globo”. Mas acrescenta: “A ‘Floribella’ continua a fazer o seu percurso e o ‘Jura’ teve a sua melhor semana de sempre com resultados quase sempre superiores a 30% de share. A novela nacional é também garanre do nosso futuro.”

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ADVOGADA DE BALTAZAR NOTA SEMELHANÇAS

Luisa Calhaz, a advogada do pai biológico de Esmeralda, confessou à Correio TV que começou a ver ‘Páginas da Vida’ no decurso do processo que decorre no tribunal de Torres Novas. “Não tenho por hábito assistir a novelas, mas, devido às insónias causadas pelo caso, comecei a ver esta. Achei curioso. Pensei para mim própria que até nas novelas isto acontece”, afirmou em conversa telefónica após a conferência de interessados de dia 30 de Janeiro. Apesar de reconhecer que o caso tem algumas semelhanças, a advogada preferiu destacar que “na novela há uma rejeição da avó, uma entrega da criança e uma morte”. “Por isso tem algumas diferenças”, concluiu. Luísa Calhaz não soube responder se Baltazar Nunes assistia à trama da SIC.

Recorde-se que, no caso real, o sargento Luís Gomes foi condenado a seis anos de prisão por não acatar a ordem do tribunal que o obrigava a entregar a pequena Esmeralda ao pai biológico. A mãe de coração, Adelina Lagarto, também acusada de sequestro e subtracção de menor, mantém-se em parte incerta com a criança. O caso apaixona a opinião pública que se mobilizou para contestar a decisão dos tribunais e a mãe biológica de Esmeralda conta que o pai biológico sempre rejeitou a sua gravidez.

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O AUTOR PIONEIRO DA TV BRASILEIRA

“HELENA SOFRE E RI, É UMA MULHER COMUM”

Aos 74 anos, Manoel Carlos volta a cumprir o que sempre prometeu, trazer para as suas novelas as alegrias e os dramas das gentes com quem se cruza no bairro onde vive, no Brasil. Depois de ‘Por Amor’ (1997), ‘Laços de Família’ (2000) e ‘Mulheres Apaixonadas’ (2003), o autor junta uma mão--cheia de actores respeitados e prende ao pequeno ecrã milhões de famílias brasileiras empolgadas com a questão de adopção e da inclusão social, do alcoolismo e da bulimia, da infidelidade e violência conjugal... Sobre Helena, uma das suas heroínas da estória de ‘Páginas da Vida’, o autor comenta que ela é “uma mulher equilibrada que luta contra uma tendência muito grande de se apaixonar além da conta. Por um homem, por um filho, por um amigo, por um trabalho. Como todas as outras Helenas, ela mente, trai, é traída, trapaceia, sofre e ri. Enfim, é um ser comum.”

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AUDIÊNCIAS NO BRASIL

O Clone: 59,8%

Páginas da Vida: 59,1%

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Senhora do Destino: 50,6%

Mulheres Apaixonadas: 49,7%

América: 49,6%

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Belíssima: 48,8%

Celebridade: 45,9%

Laços de Família: 45,8%

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Porto dos Milagres: 45,8%

Terra Nostra: 44,2%

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