“Nunca me passou pela cabeça deixar o jornalismo”

Sandra Felgueiras recorda como viveu as acusações de corrupção contra a sua mãe, Fátima Felgueiras, e revela que em breve vai ter um novo espaço de informação na televisão pública

26 de agosto de 2011 às 00:00
“Nunca me passou pela cabeça deixar o jornalismo” Foto: Mariline Alves
Partilhar

O futuro está sempre em aberto, mas nesta altura o meu projecto passa pela RTP. O mercado está em grande mudança, a própria RTP está a mudar. Tenho 34 anos e acho que fiz as coisas no tempo certo. Sempre achei que para se ser um bom pivot era preciso ser um bom repórter, uma boa entrevistadora. A credibilidade não se conquista apenas por sentar o rabiosque numa cadeira e debitar como um papagaio. Não basta querer ser, é preciso saber ser. E saber ser em televisão é um exercício penoso e que exige muita dedicação.

E está bem na RTP?

Pub

Muito bem. Tive a oportunidade de ir a Nova Iorque fazer o caso Strauss-Kahn. Tinha estado na cobertura do caso Maddie. Tive várias oportunidades que me levam a acreditar que a RTP é um projecto muito sólido e sinto-me bem aqui.

O Nuno é uma pessoa que tem de facto apreço por mim. Não me conhece tão bem quanto o José Alberto Carvalho, mas é alguém com quem trabalhei quando era estagiária na SIC, em 1999. O Nuno já me fez saber que gosta muito do meu trabalho e que ficaria triste se eu abandonasse o projecto RTP. Mas dizer que ele não me deixou ir, já é muito ousado.

Não. A única coisa foi a reposição de coisas que não existiam. Por exemplo, estava a apresentar o ‘Hoje’ e não recebia subsídio de apresentação. Não houve nenhuma negociata. Sou uma pessoa para quem o dinheiro não vale muito. Não quer dizer que se me aparecesse uma proposta milionária que não ia pensar trinta vezes nela, porque temos todos de pensar no nosso futuro. E é bom que se diga que o jornalismo em Portugal não é bem pago. E ainda que tenha dúvidas quanto ao que será o futuro, modéstia à parte, com o percurso que fui fazendo, acho que não serei um recurso a desperdiçar.

Pub

Sou apresentadora e coordenadora do ‘Hoje’. Sendo que também sou apresentadora da ‘Noite Informativa’. A única mudança prática que existiu foi mudar de sector, pois estava na Sociedade. Não se trata de receber mais ou menos porque o ordenado é o mesmo.

Não. Como lhe digo o dinheiro não é tudo. Fiz um esforço grande para sair de Felgueiras, onde tenho raízes muito profundas, para vir para Lisboa, e o meu percurso foi tão grande que sempre que as coisas me correm mal penso: já fiz um esforço tão grande que não vou desistir. O que tenho em mente é ser sempre melhor jornalista, ter oportunidade para fazer e para me testar mais. Portanto, se tiver mais espaço na RTP, não vai ser meia dúzia de tostões que me faz mudar.

Sim, fiz o estágio curricular na SIC e o Nuno era o coordenador de fins-de-semana e como era obcecada por trabalho, trabalhava todos os dias. Acho que fiz o estágio e nunca folguei.  E a relação que tive com ele foi nessa altura.

Pub

O Nuno que conhecia era distante. E a experiência que tenho tido agora é que ele é uma pessoa extremamente pragmática, que sabe perfeitamente o que quer, que não perde tempo a decidir e agrada-me a forma como conduz as coisas. É uma pessoa a quem enviamos um sms e responde sempre. É um director muito presente, o que numa redacção em mudança é muito importante.

O Zé é uma pessoa diferente. Precisa de estar bem com toda a gente e às vezes isso tira-lhe a capacidade para dar murros na mesa, porque é demasiado boa pessoa. É um líder diferente da maioria. Não é autoritário. Diria que é um Guterres, é o homem do diálogo. O Nuno é mais pragmático. É difícil comparar. São personalidades radicalmente opostas. Do ponto de vista profissional nunca conseguiria dizer qual deles é o melhor. A redacção ficou decapitada e se não tivesse tido uma direcção capaz de descer, era capaz de ter sido um processo difícil. O mais importante é saber gerir pessoas, egos. E ele teve esse mérito

Continuar a fazer reportagem e a estar nas grandes operações da RTP porque essa é uma das zonas onde me sinto mais confortável. Mas gostava de ter a hipótese de explorar a entrevista.

Pub

Gostava. Acho que me sentia bem.

Não. Acho que tudo o que imita é altamente redutor. Gosto imenso da Judite, mas acho a comparação abusiva. A Judite é a Judite. E somos pessoas diferentes, em tudo. A única coisa igual é que somos ambas obcecadas por trabalho.

Não. Acho que em breve vai haver uma surpresa, mas não fui eu que propus.

Pub

Não. Vai ter de perguntar ao Nuno. Será algo em que vou ter um lugar, mas acho que vai ser uma boa surpresa para a informação da RTP. Uma coisa são as minhas ambições, outra é a realidade.

Não. A minha mãe [Fátima Felgueiras] está sempre a dizer-me não podes dizer não nem nunca. Mas gosto muito de ser jornalista, e ter funções de chefia é algo que nos ocupa muito tempo. Agora se algum dia acharem que sou necessária em outra coisa qualquer em que também sinta que sou necessária... Se hoje fosse directora, seria uma péssima directora.

De maneira nenhuma. E acho que se esse for o caminho saberei ter o meu lugar. Quem trabalha não deve ter medo. E como trabalho, e muito, não me sinto receosa.

Pub

Foi um projecto de muitas cabeças, embora a pensante tenha sido o José Alberto Carvalho. Agora até brinco com ele, porque quando ele apresenta o ‘Jornal das 8’ de pé, digo-lhe que foi buscar algumas ideias ao ‘Hoje’.

Nunca me passou pela cabeça deixar de ser jornalista.

Foi o processo mais doloroso da minha vida. Conheço a minha mãe. Se em algum momento tivesse a mínima dúvida de que alguma daquelas questões tivesse fundamento nunca teria tido o empenho que tive em estar sempre do lado dela. E como sempre tive a certeza de que foi tudo maquinado contra a minha mãe, foi das situações mais diabólicas que já vi. Agora, passados estes anos todos, e são dez, cheguei ao fim com a consciência aliviada. Não pesada. Aliviada no sentido que finalmente a verdade veio ao de cima. Houve momentos que pensei, por uma questão de corporativismo, que isso pudesse não acontecer. O juízo popular existe e haverá sempre múltiplas formas de continuarem a achar que, afinal, aquilo existiu, eles é que não foram competentes.

Pub

Pública. Mas acho que ela nunca existe.

Mudou. Tornei-me muito mais humana. Hoje em dia sou incapaz de julgar alguém. E a presunção da inocência é uma coisa valiosíssima. Se há algo que me repugna é que digam que as figuras públicas são as que fogem aos assuntos, é precisamente o contrário. Os chamados poderosos estão muito mais sujeitos à coação e à punição popular do que qualquer indivíduo comum.

Nem sei dizer... escrevia muito. Passei tempos importantes com amigas extraordinárias. O valor da gratidão vai acompanhar-me para o resto da vida. Nunca hei-de faltar a um amigo. Porque houve coisas que fizeram por mim que nunca vou estar à altura de lhes fazer o mesmo. Acho que me refugiava nos meus amigos.

Pub

Quando o processo encerrou qual o seu primeiro pensamento?

Estava em Atenas e o primeiro pensamento que tive foi: eu não estou com a minha mãe. E senti um aperto no peito. Gigantesco. Não havia outro lugar onde quisesse estar que não fosse com a minha mãe. Quando cheguei a Lisboa fiz as malas e fui ter com a minha mãe. Ela estava a sair da missa. Eu estava de óculos escuros, farta de chorar, e ela agarrou-se a mim e disse ‘desgraçada, tu tens óculos e eu não’. Temos esta cumplicidade que não é preciso dizer muito para nos percebermos. Tudo o resto está dito. Acho que é a nossa história, só nós sabemos o que custou.

Quando o José Alberto Carvalho se foi embora da RTP1, questionou se o ‘Hoje’ saía do ar?

Pub

A primeira questão que coloquei ao Nuno Santos quando ele entrou foi: “E o ‘Hoje’? Criou-se uma relação umbilical.

É imparável, e por isso há quem diga que é uma outra Judite de Sousa. Porque apresenta, coordena, faz reportagem...

Não (risos) nunca ouvi isso. Faço a coordenação com a Fátima Silva e é ela que fica na regi, que controla tudo. Portanto o meu trabalho não é assim tão difícil. Faço o alinhamento, mas isso é normal para quem quer ter um jornal com um cunho próprio

Pub

Não lhe rouba tempo para a reportagem?

Não, porque a faço para emissões especiais. Mas não tenho ficado muito tempo sem fazer e por isso não tenho sentido saudades.

A sua experiência na SIC foi...

Pub

Muito incipiente. Mas foi engraçado porque a SIC estava no seu auge.

 

Mas já sentia qual seria o seu caminho?

Pub

Por uma questão familiar sempre me senti mais confortável na política. Gostava e até deixei a meio o doutoramento em Ciência Política. Mas hoje em dia penso que a versatilidade é a palavra chave para tudo. Hoje a política é indissociável da economia. Na década de 90 ainda se fazia um jornalismo de política puro e duro, hoje há jornalismo político-económico. Agora o que gosto mesmo de fazer, e tenho-me apaixonado, é por reportagens sociais.

Que histórias a marcaram mais?

A Madeleine marcou-me, mas há outras que me marcaram muito mais. Há uma história que ainda recentemente se repetiu que é a de um miúdo, Daniel, da zona J, que toca violino. A dignidade com que aquele miúdo fala é de ir às lágrimas, porque uma criança que pouco ou nada tem consegue ter o discernimento e a maturidade para dizer o que diz com apenas 15 anos. É marcante. Mas é apenas uma história. Em Cuba também tive uma experiência riquíssima.

Pub

 

Esteve presa?!

Sim. Entrevistámos alguns presos políticos e depois prenderam-nos. Mas o que mais me marcou, assim que chegámos a Cuba, foi ser abordada por uma miúda que queria trocar a minha maquilhagem. Eu disse-lhe que não trocava nada, mas quando me fosse embora dava-lha. Ela foi presa três vezes, à minha frente, e eu chorava. Quase me apeteceu pontapear o polícia, porque ela não podia trocar nada comigo, nem sequer entrar no meu hotel. Nunca mais vou apagar aquelas imagens... estão para além daquilo que nós entendemos.

Pub

Ainda assim esteve presa algumas horas...

Acho que umas três horas. Era para nos amedrontarem e sobretudo para ver se conseguiam confiscar o material e se não entrevistávamos mais ninguém. Inclusive fomos deixar as cassetes à embaixada e elas vieram em mala diplomática. E a partir daquele instante começámos a emitir a reportagem e a embaixada de Cuba avisou a RTP de que ia interpor uma providência cautelar parra a reportagem não ir para o ar. Mas foi. E ficou em 10º lugar no Festival Internacional de Cinema francês. Mas estas histórias foram as que mais me marcaram. Lembro-me de uma mulher que passava horas em frente à Embaixada dos EUA para conseguir um visto para sair da ilha. Mas ela não pode sair, é uma prisioneira daquela ilha. Que regime é este? Bom, oferece o melhor ensino, a melhor saúde, mas não dá liberdade alguma… para pensar, para falar, para viajar.

 

Pub

Coisas tão simples…

Às quais não damos valor. É esse o fascínio que eu tenho pelo jornalismo. Quando me dizem que foram a Cuba e acharam o máximo, digo logo: ‘pois, mas foram como turistas’. É a diferença entre nós (jornalistas) e as outras pessoas. Vemos sempre as coisas de outra maneira. Mesmo como turistas.

Quem ambiciona entrevistar? Qual a reportagem de ‘sonho’?

Pub

Costumo responder que é Nelson Mandela, porque acho que é a pessoa mais próxima do divino na Terra. Se tivesse que escolher uma pessoa era ele. Reportagens... tenho muitas ideias. Neste momento ando chocadíssima com o que se passa na Somália e nunca fiz nenhuma reportagem de um drama humano daquela natureza e como sou muito sensível com crianças, adorava fazer uma cobertura daquelas, porque acho que me ia enriquecer como ser humano. Além de achar que se fosse para lá, mais do que ser repórter, seria missionária. Acho impensável que nos demitamos de ser seres humanos para sermos jornalistas. Mas a minha cabeça não pára com ideias para reportagens.

 

Em Portugal faz-se boa informação?

Pub

Acho que os nossos telejornais são francamente melhores do que os da restante Europa. O pior é os jornais serem demasiado extensos. O caminho que a TV está a fazer vai ao encontro das pessoas e das suas vidas. E tenho visto boas reportagens em todos os canais.

Começou a sua carreira em Barcelona.

Comecei. Vim para Lisboa para a Universidade Nova de Lisboa e no último ano concorri para a Autónoma de Barcelona e o professor de rádio propôs-nos fazermos um trabalho que consistia em entrevistar o cônsul. Quando chegámos ele disse ainda bem que vieram duas jornalistas portuguesas, porque tinha ali um convite da televisão de Barcelona que queria fazer um programa informativo em outras línguas e convidou-nos para o fazer. É um programa que tem blocos noticiosos em vários línguas. E então, a partir daí estávamos na faculdade e fazíamos um programa semanal. Eu e a Ana Ponte, jornalista do ‘Expresso’. Fazíamos reportagens e de pivot. Foi muito engraçado. E eu estava ainda em Barcelona e o Expresso abriu um concurso para novos valores e nós concorremos e eu fiquei entre mil pessoas.

Pub

 

E sempre quis ser jornalista…

Desde os 6 anos em que dizia que queria saltar para dentro da televisão e que queria fazer entrevistas ao presidente da câmara. Eu lia tudo quando era criança. A minha mãe tem uma biblioteca só minha:  livros da Anita, dos Cinco… A televisão veio por arrasto.

Pub

Quem é a Sandra?

Chorona… A minha família é o meu pilar. Houve uma vez que a Judite de Sousa me pediu para ir cobrir uma guerra e eu só não fui porque o julgamento da minha mãe era nessa semana. Eu sou muito obcecada pelo trabalho, mas eu nunca seria jornalista se não tivesse nascido. E isto é básico para mim. E eu só estou aqui porque sou filha dos meus pais. Fui criada numa família com valores em que somos um por todos e todos por um. Sinto-me feliz quando ao fim do dia sinto que fiz tudo o que queria e que não me esqueci de ninguém. Que liguei para a minha melhor amiga… Sou perfeccionista.

O que gosta de ver no outro?

Pub

Gosto de ver tolerância, respeito e inteligência.

PERFIL

Perfeccionista e chorona, assim se define Sandra Felgueiras, 34 anos. Natural de Felgueiras, licenciou-se em comunicação na Universidade Nova, em Lisboa. Começou a carreira na Barcelona TV, mas fez estágio na SIC. Em 1999 ganhou o prémio ‘Novos Valores, do ‘Expresso’, e entrou para o semanário. Em 2000 foi para a RTP 2 e depois para a RTP 1.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar