O filme Corrupção vai resistir ao tempo
João Botelho, realizador de ‘corrupção’, fala das pressões sofridas na rodagem do filme adaptado a partir de ‘Eu, Carolina’. Touro de signo e teimoso por ‘vocação’, levou até ao fim o projecto, sem hesitar. Porque não se cala. Porque gosta <BR>de provocar. Em nome da liberdade de expressão... contra a perversão do sistema.
Correio da Manhã – Ao fim de sete semanas de rodagem, tem a sensação de missão cumprida?
João Botelho – Estou contente. Quando uma pessoa se mete numa aventura destas, o melhor é fazê-la bem e acabar a viagem. Faltam agora os retoques na montagem. O filme está feito e os actores portaram-se muito bem.
– O filme foi polémico desde o início. Temeu, em algum momento, que não fosse para a frente?
– Sim, várias vezes.
– Quando o produtor [Alexandre Valente] o convidou para este filme, o que o levou a aceitar?
– A ideia de provocação. Todos os meus filmes são sobre Portugal: com mais tragédia, drama ou acidez, foram sempre feitos sobre uma pequena revolta sobre o estado das coisas. Este filme é um bom ponto de partida para se falar de um ‘amarfanhamento’ que começa a haver sobre a liberdade de expressão e de opinião...
– A liberdade está condicionada?
– Começa a haver um retrocesso dessa liberdade. Há uma corrupção do sistema global.
– Então essa provocação tem a ver com isto?
– E com o filme. O livro ‘Eu, Carolina’ é um pretexto e foi a partir dele que a Leonor [Pinhão] fez a adaptação. Mas, mais importante, são aquelas frases--chave: ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’, ‘as pessoas desistem das queixas à medida que forem perdendo os empregos’... E é ainda o retrato de duas histórias de amor.
– O facto de ser benfiquista motivou-o neste projecto?
– Não. Reconheço que, desde há 20 anos, o [F. C.] Porto joga muito mais futebol do que o Benfica. Tem melhores equipas, sabem mais, trabalham melhor... Não tem a ver com isso, terá mais a ver com o facto de o meu sogro, aos 62 anos, ter sido espancado, apresentar queixa – e já morreu há 10 anos – e nada foi feito até hoje. Isso revolta-me mais do que o Benfica perder com o Porto.
– Homenageou-o neste filme?
– A ele e a todos os outros jornalistas espancados nunca se soube por quem. Ninguém prende ninguém, é tudo abafado, é tudo conivente... Este é um País muito pequenino. A história de cadeia de favores que retrato no filme aplica-se à sociedade toda.
– Sentiu esses jogos de poder como obstáculo ao filme?
– Claro. O produtor fez um casting a pensar numa determinada televisão [TVI] que estava entusiasmada... De repente, isso esmoreceu. Não foi o projecto que perdeu qualidade, são pressões: um jogo de futebol é visto por dois milhões de telespectadores, um filme, que corre bem, é visto por um milhão. E jogos há todas as semanas, filmes não... E houve outra pressões: a Mercedes impediu-nos de filmar com um carro da marca, propriedade do produtor, a Assembleia da República, que hasteou a bandeira do Pinochet para um filme [‘A Casa dos Espíritos], não me deixou filmar nas escadas, a Cruz Vermelha, que já tinha autorizado filmagens – queria lá simular um tribunal – voltou atrás porque afinal era um filme muito polémico...
– As imagens da Assembleia serão utilizadas no filme?
– Fiz lá uns cantinhos, mas não o que queria. O mais que posso ser é acusado de desobediência.
– E as ameaças da claque do FC Porto, SuperDragões, assustaram-no?
– Não. Vivi quatro anos no Porto, tenho lá amigos e família e quero continuar a ir lá.
– Então porque deixou de ir quando a equipa de imagem de ‘Corrupção’ foi ao Porto filmar?
– Não valia a pena a provocação. Se precisasse de filmar com actores, claro que ia. Mas, antes, andei lá a fazer ‘répérage’ [escolha de locais para filmagens], andei na rua, na Ribeira, em todo o lado. Sem problemas. Depende com quem se está, como se está. Aqui em Lisboa também é assim. Os NoName Boys também se portam mal. Eu sou pelo fim das claques! O futebol é para as famílias...
– O que espera de ‘Corrupção’?
– Que as pessoas se divirtam, que riam, que chorem... Houve 150 mil pessoas que compraram o livro, espero o dobro ou o triplo a verem o filme. E este filme passa fronteiras, é cinema. O cinema não são as histórias, é a maneira de as filmar. Daqui a 20 anos já ninguém se lembra de mim, do Pinto da Costa, da Carolina. E o filme vai resistir ao tempo.
– O filme foi (ou será) rentável para si?
– Pode vir a ser. Trabalho à percentagem: se houver lucros, também os tenho, se não, ganho muito pouco, menos do que qualquer outro filme que fiz.
– Considera que os envolvidos no processo ‘Apito Dourado’– e que inspiraram algumas personagens de ‘Corrupção’ – se vão rever no filme?
– Só se forem parvos. (risos) O ‘Presidente’ sou eu, fui eu e a Leonor (Pinhão) que escrevemos aquele ‘Presidente’. Claro que há brincadeiras. O que eu gosto no cinema é a sensação de que sou quase eu mas não sou eu. Senão era um documentário. O cinema é um exagero da vida. Tem indícios mas não é a realidade.
"TENTATIVA DE ARTE POPULAR"
CM – Numa palavra, o que significou ‘Corrupção’ para si?
João Botelho – Uma tentativa de fazer arte popular que é algo que está arredio do cinema português há muito tempo. Tentar levar as pessoas ao cinema: adolescentes e adultos. Vamos ver se consigo.
– Vi-o no plateau, ao longo das semanas, com variações de humor. É um homem de humores?
– Sou. Sou Touro, muito teimoso e se tenho que fazer, faço, nem que seja à força. Sou de altos e baixos. E tenho irritações, mudanças de humor. Quando o plano está bom, passo-me de alegria, enquanto não está, sou capaz de estar em desespero absoluto...
– Os seus filhos - Francisco, António e Joana - estão ligados ao cinema. Gostava que algum deles saísse realizador?
– São uns idiotas. (risos) Vão sair todos: ou realizadores ou técnicos. Mas isto não é uma profissão, é uma maluqueira. Para sobreviver, durante anos, fiz artes gráficas. Este ano correu muito bem, fiz dois documentários, um filme e vou fazer mais uma longa. Isto não é normal acontecer... Se não tivesse outras aptidões, não sobrevivia.
João Botelho nasceu em Lamego há 58 anos. Chegou a estudar Engenharia Mecânica, mas foi ao cinema que se rendeu, já em Lisboa. Autor de filmes como ‘Conversa Acabada’, ‘Tráfico’ e ‘O Fatalista’, faz ainda trabalhos de artes gráficas. Benfiquista ferrenho, é casado com Leonor Pinhão: têm três filhos.
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