Olhar feminino e sensibilidade masculina
‘Queer Eye For The Straight Guy’, o novo ‘reality show’ que a SIC prepara, promete transformar a imagem dos machos latinos que se colocarem nas mãos de uma equipa de homossexuais. Resta saber se esta experiência produzirá nos concorrentes os efeitos desejados…
É um lugar comum julgar que os homossexuais são exímios em áreas como etiqueta, moda, gastronomia, cultura e decoração, enquanto o heterossexual comum foge delas como o Diabo da cruz. Mas serão os ‘gays’ os melhores mestres e os machos latinos bons aprendizes? Rita Ferro, Paula Bobone, Maria de Lourdes Modesto, Gracinha Viterbo e Katty Xiomara, mulheres que se destacaram nas áreas abarcadas pelo formato da SIC, tecem os seus comentários.
A orientação sexual não define a imagem social de cada um, é a opinião de Paula Bobone. Para a autora de ‘Socialmente Correcto’, a ideia de que os homossexuais têm uma vocação natural para as boas maneiras é uma falsa questão, explicável, em parte, por uma confusão entre ‘gays’ e metrossexuais. “Os metrossexuais conhecem os códigos de etiqueta, rigorosamente idênticos ao que é apanágio da masculinidade tradicional, abrem as portas às senhoras, acendem-lhes os cigarros… E não são necessariamente ‘gays’”, explica.
Paula Bobone concorda que, embora não seja mais difícil ensinar etiqueta e boas maneiras aos homens do que às mulheres, as regras são um pouco mais rígidas para o sexo masculino. “Há uma tradição de cavalheirismo medieval. Na sociedade o homem bem-educado vê-se pela sua maneira delicada de tratar com as senhoras, o chamado cavalheirismo”, sublinha.
Maria de Lourdes Modesto, que durante anos desvendou os segredos da culinária em programas de televisão vocacionados para o público feminino, duvida que um formato deste género convença os homens portugueses a cozinhar no dia-a-dia. “Regra geral, os homens cozinham por prazer ou brincadeira, mas não querem encarar as responsabilidades da culinária”, defende. E ainda que, tradicionalmente, os grandes chefes de cozinha sejam homens, Maria de Lourdes Modesto acredita que a supremacia masculina já faz parte do passado. “Antigamente, os chefes de cozinha eram só homens porque era um trabalho pesado. Actualmente há grandes chefes de cozinha mulheres. E eu, normalmente, gosto mais da comida feita por mulheres”, afirma.
A escritora Rita Ferro é assumidamente contra a ideia de que a orientação sexual influencia o interesse pela cultura. “Há uma linha estética de homossexuais que têm uma sensibilidade feminina que os pode tornar mais atentos às artes do que o figurino varonil e machão do heterossexual, mas eu não vou muito em estereótipos. Por outro lado, há uma estética homossexual que é o oposto desse género amaneirado”, defende.
COMPETÊNCIA ASSEXUADA
A decoradora Gracinha Viterbo também não encontra distinção entre homossexuais e heterossexuais quanto à sensibilidade artística, nem entre homens e mulheres no que diz respeito aos estilos de decoração. “Eu diferencio o estilo pela personalidade do cliente”, acrescenta. Gracinha Viterbo está convencida de que se a equipa do concurso incluir um profissional de decoração, ele “saberá analisar não só o espaço, como o cliente em questão”.
Katty Xiomara, uma das novas revelações do estilismo em Portugal, encara a escolha de especialistas homossexuais como uma mera forma de conquistar audiências. “A competência não tem que ver com o facto de ser homem, mulher, heterossexual ou homossexual”, afirma. A estilista afirma que os homens estão a par das mulheres na preocupação com a moda e que, actualmente, ambos os sexos demonstram “cuidado com a imagem e com a saúde corporal”.
A transformação sofrida pelos concorrentes durante a participação em ‘Queer Eye For The Straight Guy’ poderá ter resultados passageiros, ou efeitos a longo prazo. Na opinião da decoradora Gracinha Viterbo, os concorrentes poderão aproveitar a oportunidade e os conselhos do especialista “para prolongar o seu bem-estar, quando o profissional sair de sua casa”. “Será uma escolha de cada um dos concorrentes, se irá seguir os conselhos do decorador”, acrescenta.
Rita Ferro, por seu turno, acha que o programa não irá despertar os concorrentes para a arte e para a cultura, uma vez que o considera uma experiência “demasiado breve para produzir qualquer transformação”. “Sem querer ser arrogante, a verdadeira arte não se classifica assim, actua-se de uma maneira mais continuada e não em coisas rápidas com holofotes em cima. Mas se isso vai resultar com algumas pessoas… não sei…”, conclui a escritora.
Depois de ‘Um Sonho de Mulher’, a SIC parece não querer largar o filão da beleza. A partir de 5 de Abril, a estação de Carnaxide inicia a transmissão de ‘Modelo procura-se!’, um programa apresentado por Carlos Dias da Silva e Hugo Pinto, que prometem acompanhar os bastidores da edição deste ano do concurso Elite Model Look.
“Vai ser um programa de emoção, vamos mostrar tudo o que está por trás desta organização”, garante Dias da Silva. Ana Borges, director da Elite Portugal, quer acabar de vez com o estigma das “meninas bonitas e que não estudam”. “Essa ideia de que os modelos deixam de estudar tem de acabar e este concurso vai ajudar a acabar com essa ideia”, disse.
Numa primeira fase, ‘Modelo Procura-se’ apresenta-se aos telespectadores da SIC nos talk shows diários, o ‘SIC 10 Horas’ e o ‘Às Duas por Três’. O programa vai em crescendo à medida que os candidatos (meninos e meninas…) vão sendo eliminados. As meias-finais serão condensadas em programas de 30 minutos, enquanto a grande final nacional, marcada para Junho, terá transmissão directa no horário nobre do canal.
Realizado em Portugal desde 1994, o Elite Model Look é um dos mais importantes e mediáticos concursos de modelos de todo o mundo. Foi através deste concurso que foram descobertas as famosas top models, como Cindy Crawford e Linda Evangelista, e no caso português, Sofia Aparício, Bárbara Elias e Ana Isabel, entre outras.
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