OS TELEJORNAIS DO NOSSO TÉDIO

Antigamente ver o telejornal, o nome pelo qual conhecíamos o noticiário televisivo das oito da noite, era algo de familiar. Toda a família ficava em volta do objecto mágico. O telejornal era o nosso despertador para a realidade. Não só do país, como mundial. Os suíços inventaram o relógio de cuco para nos acordar, o mundo inventou o telejornal para os mais distraídos.

15 de outubro de 2003 às 00:00
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Os telejornais eram momentos sagrados. Hoje ainda há uma hora certa para ele (as oito da noite), mas tudo o resto se perdeu. Qualquer "fait-divers" é, para a generalidade dos editores de noticiários televisivos mais importante que uma notícia séria. Qualquer cão que mordeu o dono é, no alinhamento, considerado um "exclusivo" referido aos gritos. Qualquer atentado no Iraque, no Afeganistão ou na Tchetchénia passou a ganhar o estatuto de notícia para "rodapé". Para que não se diga que não foi dada. As notícias importantes tornaram-se as sogras chatas da informação televisiva. Os telejornais tornaram-se as estátuas em movimento do provincianismo nacional de que falava Eça de Queiroz. Não há-de faltar muito para que se tornem a versão animada da "Capricho" ou da "Corin Tellado". Mas para quê preocuparem-se? Quem quer notícias que vá ver a Sky News ou a BBC.

A linha editorial dos noticiários televisivos parece criada a partir do velho conceito do escritor britânico Evelyn Waugh (o criador dessa série que nos fascinou nos anos 80, "Reviver o passado em Brideshead"): "notícia é aquilo que quer ler alguém que não se interessa por coisa alguma". Agarrados a esse conceito, os telejornais alimentam-se de uma versão "light" da célebre Farinha 33: notícia seria então aquilo que se julga que quer ver alguém que não se interessa por nada em particular. Por isso os telejornais foram em busca do "país real". E este, alegremente, tornou-se carne para canhão para duas horas de entretenimento que é acusado de ser informativo.

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Caiu-se na tentação de pensar que tudo o que é "notícia séria" é um soporífero. Mas se as televisões portuguesas cada vez apostam menos nos noticiários, para que é que os mantêm em "prime-time"? Porque eles ainda fidelizam publicidade para quem consome. Só que o alarme já soou: os jovens são cada vez menos consumidores da informação televisiva, e por isso não restam dúvidas que o caminho seguido pelos noticiários nacionais irá levar ao seu afastamento do horário nobre. Resta saber quem dará o primeiro passo neste sentido. Afinal para que serve um telejornal como no outro dia da RTP 1, cujo "spot" passado vezes infinitas, era sobre o concerto desse dia dos Rolling Stones? Começa a ser mais útil (e barato) fazer um programa de "video-clips" em "prime-time" com um apresentador idiota (que pode passar notícias em rodapé) do que se fingir que se faz um telejornal sério. O resultado final é o mesmo.

QUEM QUER FICAR RICO?

Todos nós, mas parece que o anonimato começa a ser o melhor crédito de todos os que querem entrar na roda da fortuna. Veja-se um caso: o "Sorte Grande", onde se ficam a saber os números do Loto 2, passou para a ainda RTP 2. As conversas sempre estimulantes de Serenella Andrade com o locutor, em que ficamos a saber se foram passear no fim-de-semana, quais são as cores dos números sorteados ou se apostaram no concurso, passam assim a ser vistas por menos portugueses, o que muito nos entristece. Mas enfim, depois dos duelos entre a SIC e a RTP para ver quem garantia o exclusivo da transmissão do Totoloto e dos "grandes" espectáculos musicais à volta dos números mágicos, voltou-se ao mínimo denominador comum. Como em Las Vegas, quem tudo quer, tudo perde?

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A NOITE É BOA CONSELHEIRA

A SIC lá continua a atirar para as madrugadas, isto é para os espectadores que não sabem como hão-de curar as suas insónias, séries como "A Balada de Nova Iorque", "South Park", "Buffy" ou "Sexo e a Cidade". Será uma estratégia para conquistar turistas com "jet-lag"?

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