Políticos intrometem-se na Imprensa regional
Alguns jornais regionais do distrito de Vila Real têm sido alvo de tentativas de intromissão ao seu normal funcionamento por parte de políticos. Fotos com e sem gravata, alterações do ‘lead’, revisão de entrevista e pedidos para caricaturar outras candidaturas são alguns exemplos. “E a procissão ainda vai no adro”, desabafou um articulista regional.
Primeiro, foi Ascenso Simões, secretário de Estado da Administração Interna, que exigiu rectificar uma entrevista concedida ao semanário ‘Notícias de Vila Real’. Depois, veio o caso de Manuel Martins, edil vila-realense, que mandou reimprimir um folheto de um clube de motociclismo só porque na foto impressa aparecia sem gravata. Mais recentemente foi a vez do director do ‘Negócios de Valpaços’ ser ‘chamado à pedra’ por um alegado apoiante de Manuel Martins, que o questionava sobre a razão de dar cobertura à campanha de Artur Vaz, candidato socialista à Câmara de Vila Real.
O secretário de Estado da Administração Interna, na entrevista que concedeu ao citado semanário transmontano corrigiu toda a entrevista e alterou por completo o ‘lead’, porque não terá gostado da forma como o director falava do seu percurso político.
Na impressão que não chegou a sair para as bancas, Caseiro Marques, director da publicação, escreveu que “Ascenso Simões subiu a pulso todo o seu trajecto político: foi funcionário do partido, assessor da edilidade de Santa Marta de Penaguião, vereador em Vila Real, deputado e agora membro do Governo”. Na correcção, o currículo do governante só engloba dados a partir da altura em que chega a deputado.
No folheto do clube de motociclismo, as pressões sobre Costa Paulo, responsável pela edição, resultaram do facto de “entenderem que a colocação daquela foto denegria a imagem do sr. presidente. Nunca foi essa a nossa intenção”, garante o organizador das corridas.
Hermano Machado, assessor de Manuel Martins, desvaloriza a situação, afirmando que foi ele próprio, do seu bolso, que suportou os encargos com a impressão da segunda edição em que o autarca já aparece de gravata.
Pires Brás, director do ‘Negócios de Valpaços’, não gostou de ser questionado sobre a linha editorial do seu jornal, “porque aquilo que queriam obrigar-me a fazer era a mesma coisa por que me estavam a questionar. Não gostei da forma como caracterizaram Artur Vaz – ‘Um homem de bigode, com fisionomia de cidadão turco’. A política está a bater no fundo, mas, no meu jornal, mando eu e, por isso, ninguém muda o rumo da linha traçada há décadas”, explicou.
Ao CM, Alfredo Maia, presidente do Sindicato de Jornalistas, disse que o organismo soube do ‘caso Ascenso Simões’ – “episódico”, mas “lamentável” – pelos dos jornais, acrescentando desconhecer outros casos.
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