RTP NÃO TEM LUGAR PARA OS SENIORES
Pedro Mariano, um dos rostos mais conhecidos da RTP, rescindiu contrato com a empresa ao fim de 30 anos de trabalho, por não concordar com o rumo da estação pública. "O projecto actual de reduzir ao mínimo os custos da informação não me seduz minimamente. O serviço público de televisão tem custos elevados para ter qualidade e sem qualidade não vale a pena ter serviço público", salienta.
"Na informação da RTP não há lugar para os seniores, todos saíram da empresa e é pena, pois são uma mais-valia", adianta Pedro Mariano, que saiu da empresa porque esta "não dá oportunidades interessantes de evoluir na carreira e não reconhece o mérito e o currículo dos seus quadros mais emblemáticos, incentivando mesmo a que partam".
O jornalista subiu degrau a degrau a hierarquia da redacção. Foi repórter, correspondente, director de Informação e de Programas da TDM, em Macau e desempenhou outras funções. "Trinta anos nesta empresa não é uma vida, é uma história de vida. Por nós passa um desfile de factos únicos e irrepetíveis, de afectos, ligações, traições, que marcam indelevelmente a maneira de estar e que ajudaram a saber estar de cabeça erguida e a votar ao desprezo os diferentes répteis de cada momento", diz.
Pedro Mariano recorda que começou na era do preto e branco, quando as equipas era compostas por cinco pessoas. "Assisti ao corte de textos por censores que iam ao Lumiar minutos antes do 'Telejornal' entrar no ar e revoltei-me com imagens não 'alinhadas' que chegavam ao estúdio inutilizadas... Vibrei com a euforia de pintar a realidade a cores e vivi o tempo actual das equipas de duas pessoas... Para os gestores o ideal era que a equipa fosse só de uma pessoa, mas em televisão a criatividade e a qualidade não se podem hipotecar com os custos operacionais", adianta.
O profissional orgulha-se de, no 25 de Abril de 74, ter ajudado o Movimento das Forças Armadas (MFA) a libertar o País e diz ter sido graças à sua "modesta colaboração que os militares tomaram as instalações da RTP".
Mariano não compreende como é que um serviço público "acaba com as emissões regionais locais" e com programas de prestígio como as grandes reportagens e, em troca, "oferece debates longos e estéreis". Por tudo isto, o jornalista confessa que não consegue definir a sua relação com a RTP.
"Nunca saberei se é de amor ou de ódio, embora às vezes a empresa aparente comportamentos que nos fazem afastar dela, como a sua crónica falta de memória e o desrespeito por si própria e por muitos daqueles que a ajudaram a crescer".
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