Uma imagem

No meio da tragédia, dois olhos irradiam esperança. São grandes, escuros, famintos. E apesar de assustados e fugidios, são focos de esperança e de vida. De facto, há imagens que marcam, que ficam para sempre, que valem muito mais do que todas as palavras juntas.

21 de janeiro de 2005 às 00:00
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Foi na televisão que vimos esses olhos. Foi através da televisão que um país – este País! – se voltou a emocionar. Os olhos, os grandes olhos cor de esperança de Martunis, ameaçam marcar já todo o ano de 2005. Lá mais para Dezembro, quando, de novo, a imprensa começar os seus balanços anuais, a imagem de um menino frágil, de quinas ao peito, com a camisola da selecção portuguesa vestida, terá lugar assegurado.

Dir-se-á que o destaque dado em Portugal a este exemplo de força é demasiado. Apontar-se-ão de novo os dedos acusadores ao espectáculo informativo em que se transformaram os nossos telejornais.

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E até pode ser verdade, mas aquela imagem é comovente. A descoberta de um jovem sobrevivente, 19 dias depois de uma tragédia que ceifou a vida a, pelo menos, 170 mil pessoas, é, já de si, um acontecimento. Saber que um menino de sete anos lutou contra ventos e marés, sem norte, sem comida, sem bebida, sem ninguém a quem dar a mão é, por si só, um exemplo de coragem e uma lição de vida. Se a isto juntarmos o simbolismo da camisola da selecção portuguesa de futebol agarrada ao peito, quando tudo se passa a milhares e milhares de quilómetros de Portugal, temos então o quadro completo.

Uma vez mais, foi a televisão o veículo dessas emoções. E da corrente de solidariedade que, imediatamente, se criou. Com Scolari, com Cristiano Ronaldo, com Luís Figo. Nos próximos dias, Martunis seguirá a sua vida e nós a nossa. O menino encontrado lá longe voltará a estar lá longe. Era bom, porém, que não nos esquecêssemos do essencial: por mais perdidos que estejamos, há sempre um rumo por descobrir…

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