Uma imagem
No meio da tragédia, dois olhos irradiam esperança. São grandes, escuros, famintos. E apesar de assustados e fugidios, são focos de esperança e de vida. De facto, há imagens que marcam, que ficam para sempre, que valem muito mais do que todas as palavras juntas.
Foi na televisão que vimos esses olhos. Foi através da televisão que um país – este País! – se voltou a emocionar. Os olhos, os grandes olhos cor de esperança de Martunis, ameaçam marcar já todo o ano de 2005. Lá mais para Dezembro, quando, de novo, a imprensa começar os seus balanços anuais, a imagem de um menino frágil, de quinas ao peito, com a camisola da selecção portuguesa vestida, terá lugar assegurado.
Dir-se-á que o destaque dado em Portugal a este exemplo de força é demasiado. Apontar-se-ão de novo os dedos acusadores ao espectáculo informativo em que se transformaram os nossos telejornais.
E até pode ser verdade, mas aquela imagem é comovente. A descoberta de um jovem sobrevivente, 19 dias depois de uma tragédia que ceifou a vida a, pelo menos, 170 mil pessoas, é, já de si, um acontecimento. Saber que um menino de sete anos lutou contra ventos e marés, sem norte, sem comida, sem bebida, sem ninguém a quem dar a mão é, por si só, um exemplo de coragem e uma lição de vida. Se a isto juntarmos o simbolismo da camisola da selecção portuguesa de futebol agarrada ao peito, quando tudo se passa a milhares e milhares de quilómetros de Portugal, temos então o quadro completo.
Uma vez mais, foi a televisão o veículo dessas emoções. E da corrente de solidariedade que, imediatamente, se criou. Com Scolari, com Cristiano Ronaldo, com Luís Figo. Nos próximos dias, Martunis seguirá a sua vida e nós a nossa. O menino encontrado lá longe voltará a estar lá longe. Era bom, porém, que não nos esquecêssemos do essencial: por mais perdidos que estejamos, há sempre um rumo por descobrir…
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