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Correio da Manhã

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A BENGALA QUE FALTOU A MARGARIDA

Na novela ‘O Teu Olhar’, cujo fim se anuncia para a próxima semana, a personagem Margarida desperta a simpatia do público por ter perdido a visão. Mas os cegos e amblíopes apontam erros ao desempenho de Sofia Alves…
15 de Maio de 2004 às 00:00
A interpretação da personagem Margarida, a estudante que cegou na sequência de um atropelamento na telenovela ‘O Teu Olhar’ (TVI), embora seja muito elogiada pela generalidade do público, suscita críticas a cegos e amblíopes. “Noto algumas falhas, motivadas, segundo penso, pelo facto da Sofia Alves, uma actriz que aprecio muito, não ter tido contacto suficiente com pessoas cegas”, disse à Correio TV António Almeida, de 47 anos, que sofre de 90 por cento de incapacidade visual.
A telenovela da NBP, cujo argumento é da autoria da Casa da Criação, despertou, segundo António Almeida, profissional da área administrativa, o interesse dos cegos. “Quis logo acompanhar a novela assim que soube que havia uma personagem cega”, revela. Para percepcionar as imagens, António Almeida necessita de se aproximar muito do televisor, o que nem sempre é possível. “Oiço mais do que vejo”, esclarece. A troca de impressões com a sua mulher ajuda-o a fazer uma ideia mais exacta da representação e da história.
A generalidade do público fica encantada com a interpretação que Sofia Alves faz de uma pessoa cega. A novela estreou--se a 4 de Agosto do ano passado e, apesar da hora a que é exibida, alcança audiências elevadas (ver caixa). No entanto, há quem diga que não basta usar uma bengala e olhar invariavelmente em frente para recriar uma tal figura. Para Carlos Cordeiro, de 69 anos, que perdeu totalmente a visão em 2001, o comportamento de Margarida não é o de alguém que, a dada altura da sua vida, tenha ficado privado da visão, mas sim o de uma pessoa cega de nascença. E dá o seu próprio exemplo: “Eu, que vi bem até aos 27 anos de idade, dirijo-me sempre para a pessoa que está a falar.” Cordeiro acompanha a narrativa através do som do seu televisor e sabe, por pessoas com quem conversa, que Sofia Alves não vira a cabeça para os seus interlocutores. “Ela foi mal ensinada”, comenta.
“A novela não mostra a realidade de uma pessoa cega”, diz, por seu turno, Ana Oliveira, de 36 anos. Cega congénita, esta funcionária da biblioteca da Direcção Regional do Sul e Ilhas da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) alega que “a forma muito pronta e prática como a Margarida enfrentou a cegueira parece artificial”. A experiência ganha no contacto com muitos cegos leva Ana Oliveira a afirmar que “três anos depois de ter perdido a visão num acidente, uma pessoa não fala da cegueira com a naturalidade e o desprendimento de Margarida!”.
OS CÃES-GUIA
A actuação da infortunada heroína de ‘O Teu Olhar’ em relação à sua cadela é outro aspecto que não convence cegos e amblíopes. “Quando Margarida sai de casa com a Fa deveria dizer, como se tem de fazer com um cão-guia: ‘Fa, busca a saída!’, e ela nunca o faz”, argumenta Carlos Cordeiro. Por seu turno, Ana Oliveira esclarece que os cães-guia são sujeitos a dois anos de treino e que os cegos necessitam, por sua vez, de duas semanas de treino com os cães. “Ora, na novela, o cão era de Margarida, passou a guia e, no entanto, não se comporta como um cão-guia!”
A desenvoltura de Margarida e o seu relacionamento com as outras personagens são objecto de reparos da parte de cegos. “Quando comecei a ver ‘O Teu Olhar’, logo a seguir ao acidente que sofreu Margarida [primeiro episódio], fiquei com uma impressão estranha; percebi que qualquer coisa falhava ali”, diz Ana Oliveira. A funcionária da biblioteca da ACAPO garante que se apercebe das situações da narrativa através dos sons da novela, especialmente dos diálogos das personagens e das conclusões que tira das impressões que troca com a sua mãe.
António Almeida avança um exemplo de outro tipo de erros: “O Miguel toca à campainha da porta, não diz nada e ela nem pergunta quem é. Um cego não procede assim.”Apesar disso, este amblíope faz questão de sublinhar: “Gosto como a Sofia Alves trabalha; ela precisava, no entanto, de mais contacto com pessoas cegas.”Foi essa a bengala que lhe faltou. Apesar das reticências, ‘O Teu Olhar’ conquistou, aparentemente, a simpatia dos cegos. “A novela está bem conseguida”, diz, em jeito de síntese, António Almeida.
QUEM VÊ?
A cerca de uma semana do final de ‘O Teu Olhar’, já se pode traçar o retrato robô do espectador da novela da TVI. Assim, a vida de Margarida é seguida preferencialmente por mulheres (cerca de 65 por cento) das classes sociais baixa e média/baixa (cerca de 30 por cento cada). A maioria dos espectadores de ‘O Teu Olhar’ está no grupo etário com mais de 64 anos e reside sobretudo no Litoral Centro (a novela centra a sua acção em Coimbra), Lisboa e Interior.
Apesar das horas a que é exibida (varia sempre entre as 23h30 e 24h30), a história é vista diariamente por uma média de 900 mil espectadores (9,5 por cento de ‘rating’), alcançando um ‘share’ médio superior a 40 por cento.
O TRAUMA E A VIRTUDE
A heroína perde a visão no primeiro episódio. Mais tarde recupera--a, mas volta a cegar e, agora, que a narrativa se aproxima do fim, vai de novo ver, por obra do seu amado, o médico oftalmologista Miguel, que a opera. Ana Oliveira manifesta a opinião de que um processo de recuperação seguida de recaída é mais traumático do que o recriado em ‘O Teu Olhar’. “É um drama que a novela não reproduz”, afirma. Outra opinião tem António Almeida, que invoca a sua própria experiência. “É normal”, exclama. Mas a prática mais significativa foi a vivida por Carlos Cordeiro, operado sete vezes, a última das quais em 1966. “Nunca senti medo das operações, e até julgo que o caso da Margarida é positivo para criar optimismo às pessoas, não aos cegos, que não devem temer, mas às pessoas em geral”, comenta.
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