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Correio da Manhã

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A casa que preserva a memória nacional

O que fazer quando alguns dos mais valiosos testemunhos da evolução histórica e social de Portugal estão em risco de desaparecer? Foi a esta questão que os responsáveis do Arquivo da RTP tiveram de dar resposta antes que o desastre ocorresse.
19 de Maio de 2006 às 00:00
O arquivo RTP estava em risco de desaparecer. Em breve estará num suporte digital pronto a ser usado novamente e sem complicações
O arquivo RTP estava em risco de desaparecer. Em breve estará num suporte digital pronto a ser usado novamente e sem complicações FOTO: Sofia Costa
Para tal desenvolveram um plano de recuperação do Arquivo – onde estão depositadas imagens únicas (desde reportagens registadas a partir de meados dos anos 50, aos programas de entretenimento) – que consistiu na migração massiva dos conteúdos em suportes obsoletos para suportes digitais, mais fáceis de utilizar pelas redacções e com valor acrescentado para as gerações futuras.
MEIO DE CONSERVAÇÃO
Fernando Alexandre, director do Arquivo há quatro anos, explica que ”os suportes de filme vão para o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), dependente da Cinemateca, onde estão a ser construídos depósitos especiais para os suportes. São suportes que, com o correr dos anos vão-se deteriorando, sempre. Mas se tiverem condições de temperatura e humidade rigorosas mantém-se em bom estado durante mais anos.” Por outro lado, os conteúdos “estão a ser transferidos para vídeo digital e para as novas instalações que estão a ser construídas na RTP [Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa]. Os originais serão transferidos para o ANIM, mas os conteúdos ficam sempre preservados e prontos a utilizar”, defende.
A INOVAÇÃO AO SERVIÇO DA INFORMAÇÃO
A recuperação do Arquivo da RTP está, de acordo com Hilário Lopes, chefe de departamento, “inserida num projecto global da empresa, o projecto Tapless, em que o Arquivo tem uma importância central. “Numa primeira fase, estamos a recuperar os formatos obsoletos como filme, vídeo de uma polegada, vídeo BCM e Umatic, que é um formato de fita ultrapassado. Estamos a transferi-los para formatos de fita digitais de nova geração. Betacam Digital no caso da produção, Betacam SX no caso da informação.”
CEM HORAS DE ARQUIVO
O investimento está avaliado em 12 milhões de euros, no entanto não há data prevista para a conclusão. “A RTP tem cem mil horas de arquivo, as quais têm de ser transpostas para os servidores. É um processo muito moroso porque é feito em tempo real. Mesmo tendo 10 ou 15 equipamentos a debitar em simultâneo”, afirma Fernando Alexandre. No entanto, para que toda esta operação tenha utilidade no futuro, foi necessário adoptar o ‘Digital Asset Management’, um sistema desenvolvido especificamente para o Arquivo da RTP que permite aos utilizadores aceder ao arquivo de uma forma autónoma a partir do seu computador. Infelizmente, esse recurso só estará ao dispor dos jornalistas do canal público.
30 PEDIDOS POR DIA
Todas as pessoas podem aceder ao Arquivo RTP. Basta solicitar as imagens. Chegam à RTP 30 pedidos por dia, na sua maioria de estudantes e instituições. Para uso particular, custa 60 euros cada meia hora.
50 ANOS DE HISTÓRIA
A primeira emissão da RTP, a 7 de Março de 1957 e a visita de Isabel II, em 1959, fazem parte dos cerca de 1 milhão de documentos audiovisuais depositados no Arquivo Histórico da RTP.
A SÍNDROME DO VINAGRE
QUANDO SE DESCOBRE O PROBLEMA PELO CHEIRO
A expressão ‘síndrome do vinagre’ é utilizada pelos arquivistas porque um dos produtos da degradação química do suporte filme é o ácido acético, o mesmo que existe no vinagre e lhe dá o cheiro característico.
A sua manifestação é dramática para a película pois provoca a perda das características mecânicas essenciais à sua reprodução (resistência e flexibilidade) e da qualidade fotográfica da imagem registada (perda da cor original). Só a conservação em ambiente controlado (temperatura 4ºC e 30% de humidade relativa) permitem evitar o problema. No Arquivo RTP foram identificadas 15 mil horas de filme que corriam o risco de desaparecer devido a este problema.
REPÓRTERES DA RTP ACOMPANHARAM TROPAS
IMAGENS DO ULTRAMAR SÃO AS MAIS REQUISITADAS NO ARQUIVO DA RTP
De acordo com o director do Arquivo da RTP, Fernando Alexandre, os documentos mais solicitados por particulares são imagens relacionadas com a Guerra Colonial, recolhidas durante as décadas de 60 e 70. Na altura, principalmente durante a época natalícia, repórteres do canal público juntavam-se às tropas portuguesas no continente africano e gravavam depoimentos dos militares em jeito de boas festas, de entre os quais ficou célebre a frase “Adeus até ao meu regresso.”
Actualmente, muitos ex-combatentes, ou as suas famílias, dirigem-se ao Arquivo para procurar aquelas que foram, por vezes, as últimas palavras e as últimas imagens de muitos portugueses. Outro pedido frequente é o ‘Telejornal’ datado do dia de nascimento de alguém. “Depois vêm os pedidos das pessoas que ontem viram a prima ou a avó num programa ou num noticiário e querem uma cópia, até às empresas onde há um administrador que pretende algo relacionado com um assunto que foi tratado na televisão”, afirma Fernando Alexandre. A SIC e a TVI também recorrem ao Arquivo da RTP.
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