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Correio da Manhã

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A CIDADE DE TODOS OS SONHOS

É um mundo de fantasia, onde nada foi deixado ao acaso. No Centro de Produção da Globo, no Rio de Janeiro, milhares de profissionais trabalham para construir uma das maiores fábricas de ficção do planeta. E a cada recanto que se descobre, é impossível não ficar de boca aberta…
15 de Maio de 2004 às 00:00
Os números não mentem e são um bom ponto de partida para a nossa viagem: dez estúdios, 26 ilhas de edição, seis cabinas de sonorização, uma carpintaria, uma fábrica de cenários, uma cantina, uma praça de restaurantes, um banco, uma tabacaria e cerca de quatro mil trabalhadores dão vida, diariamente, ao Centro de Produção da Globo, a casa dos sonhos da televisão brasileira.
Em 1,3 milhões de metros quadrados, a vida corre agitada: serra-se madeira, cosem-se vestidos, ensaiam-se textos, filmam-se cenas, montam-se gravações.
Oficialmente, chama-se Central Globo de Produção, mas os brasileiros conhecem o espaço como Projac, a junção das abreviaturas de Projecto Jacarepaguá, o nome de baptismo quando, ainda antes de 1995, a ideia não passava do papel.
É precisamente em Jacarepaguá, um dos bairros periféricos do Rio de Janeiro, a cerca de 30 quilómetros do centro da "cidade maravilhosa" que se erguem os muros do Projac.
Um verdadeiro paraíso de zonas verdes e preservadas, bem diferente da cidade caótica, agitada e de contrastes chocantes que deixámos para trás. Porque no Projac nada é deixado ao acaso.
"Antigamente, a Globo estava dividida em vários locais, mas agora é muito mais prático e funcional, porque temos tudo concentrado neste espaço, ganhando em rapidez e qualidade”, explica Iracema Padrenosso, responsável da estação brasileira pelas relações com o exterior.
A profissional, uma mulher na casa dos 60 anos e já com 13 de TV Globo, sabe do que fala. Ela conhece o recinto de fio a pavio, tantas são as visitas institucionais e de jornalistas que promove semanalmente. É natural, por isso, que confesse à Correio TV que conhece o Projac “como as palmas da mão”.
Iracema é apenas uma dos 2.500 funcionários da Globo que trabalham no centro de produção, a que se juntam cerca de 1.500 trabalhadores do sector terciário que prestam serviços à estação.
"Toda a parte de restauração, cafetaria, a papelaria, os bancos, a manutenção, a jardinagem, a hidráulica é assumida por profissionais externos à Globo", conta.
Todos juntos asseguram as condições necessárias para que os 500 actores do elenco fixo da estação brasileira possam dar vida aos textos pensados e escritos pelos 150 autores e colaboradores que têm contrato com a Globo.
"Desde 1995, quando inaugurámos este centro, ganhámos em produtividade. Antigamente, a Globo produzia 1.700 horas por ano e no ano passado, em 2003, produzimos 2.900 horas exibidas", explica a responsável, enquanto conduz com perícia o carro eléctrico que nos transporta.
Esta é, aliás, a forma ideal para conhecer a cidade de todos os sonhos brasileiros. Entre avenidas largas, subidas íngremes, matas densas ou extensos relvados, dezenas de carros se cruzam, com actores e operacionais, que procuram deslocar-se para todo o recinto.
OS CENÁRIOS
Para lá da qualidade da história e da arte da interpretação, o sucesso das novelas da Globo, cujos direitos exclusivos para Portugal estão assegurados pela SIC até 2009, é construído também pela grandiosidade dos cenários. Num enorme pavilhão, onde os odores a madeira e verniz são facilmente identificáveis, dezenas de operários de fato laranja dão corpo a novas produções. “É aqui que se fazem os móveis, os ladrilhos, as fachadas”, explica Iracema, acrescentando que “no ano passado, foram construídos cerca de 120 mil metros quadrados de cenário.”
Mas não só. Numa pequena sala, ali ao lado, vêem-se vários bolos de chocolate. Todos com ar apetitoso, acrescente-se. “Parecem verdadeiros, não parecem?”, pergunta com um sorriso. Parecem, de facto, mas não são. “São todos feitos em madeira, ou resina e materiais sintéticos”, explica a responsável, acrescentando que aqueles exemplares pertencem à novela ‘Chocolate com Pimenta’. “A maior parte do chocolate que o espectador vê não é verdadeiro”, assegura. Ainda assim, há três quilos de chocolate a sério que é gasto todas as semanas pela produção da novela que a SIC exibe em horário nobre.
O coração do Projac são, porém, as cidades cenográficas. É lá que se gravam todas as cenas exteriores que os espectadores vêem em casa. Ao longo de 82 mil metros quadrados crescem as cidades cenográficas, onde se rodaram êxitos como ‘Porto dos Milagres’, ‘Coração de Estudante’, ‘New Wave’, e ‘A Casa das Sete Mulheres’, ou, actualmente, ‘Chocolate com Pimenta’, ‘Celebridade’ ou, em breve, ‘Cabocla’.
"Estes cenários são feitos em madeira, mas reparem no grau de pormenor, no rigor da traça, porque aqui nada foi deixado ao acaso", alerta Iracema Padrenosso, na cidade onde se roda ‘Celebridade’. E um rápido olhar dá para nos identificarmos com o que nos rodeia, a barbearia, a lanchonete e até Débora Secco, a popular ‘Darlene’, que se transformou moda em terras brasileiras.
O grau de pormenor é tanto que “até o alcatrão, colocado de novo, tem algumas brechas e buracos, para dar a ideia de uma cidade envelhecida”, explica a responsável.
Mas porque uma novela não vive apenas de exteriores, a Globo conta com dez estúdios: seis de mil metros quadrados e quatro de 560 metros quadrados, mas todos equipados com tecnologia da última geração.
É que a Central Globo de Produção é responsável por mais de 90 por cento de toda a produção da principal estação brasileira de televisão. É por isso que se torna inevitável a expansão do recinto para o outro lado da rua, num terreno anexo de 350 mil metros quadrados, adquirido precisamente para o efeito.
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