A discriminação racial é o prato forte da novela ‘Da Cor do Pecado’, em exibição ao fim da tarde, na SIC. O assunto é ainda tabu e em Portugal são poucos os negros que chegam à televisão. Mas para a maioria dos inquiridos pelo Correio TV, o reconhecimento público tem de ser um fenómeno natural. O talento e a experiência são mais importantes do que a cor da pele…
Taís Araújo vai ficar na história da dramaturgia brasileira. Depois de ter sido a primeira actriz negra a interpretar o papel principal da série ‘Xica da Silva’, na extinta TV Manchete, a jovem é agora a primeira protagonista negra de uma telenovela na elitista TV Globo. Em ‘Da Cor do Pecado’, a jovem forma um par romântico com um dos galãs mais cobiçados do Brasil, Reynaldo Gianecchini.
Por cá, não há na história da ficção portuguesa, protagonistas negros no pequeno ecrã. Mas em ‘Tudo Isto é Fado’, o mais recente filme de Luís Galvão Teles, em exibição nas salas de cinema, Ângelo Torres veste a pele do protagonista Amadeu, um vigarista especialista em ‘esquemas’ e expedientes para ganhar dinheiro.
“Ser protagonista deste filme não significa que os preconceitos tenham acabado. É preciso ver para crer”, afirma o actor ao Correio TV, manifestando o desejo que “as coisas tenham de facto mudado”.
Com 12 anos de carreira, o actor, que interpretou o papel do estudante Mário Silva na série ‘Pensão Estrela’ (SIC), afirma que o facto de pouca gente se lembrar dele “é por si só um sinal de discriminação”. “Só agora, com o papel de protagonista do filme, e por causa do impacto da novela brasileira da SIC é que se lembram de mim. Isso já é um sinal”, critica.
Quanto à novela ‘Da Cor do Pecado’, o actor considera que ela própria acaba por ter um “lado discriminatório”, porque “a Tais Araújo apenas foi escolhida pela cor da pele e pela beleza. Ou seja, foi seleccionada por razões de marketing, para vender o lado sexual da mulher, mulata e bonita”.
O lado pessimista e crítico de Ângelo Torres não colhe junto de Tozé Martinho, um dos mais importantes guionistas da ficção portuguesa, autor de sucessos como ‘Olhos de Água’ e ‘O Teu Olhar’, que não hesita em afirmar que “os portugueses não são racistas” e que “não existe qualquer espécie de discriminação racial na ficção portuguesa”.
O actor e guionista vai mais longe e, depois de afirmar que Portugal é um dos países menos racistas do Mundo, lembra que “a sociedade multiracial criada nas ex-colónias e no Brasil é fruto da postura dos portugueses, que se dão a toda a gente de alma e coração sem olhar a cor”.
Confrontado com a realidade, que ainda relega os negros para papéis secundários, Tozé Martinho tem uma justificação: “Na vida real, e até há bem pouco tempo, os negros em Portugal eram empregados de limpeza, jardineiros... E a ficção não pode ultrapassar a realidade, correndo o risco de tornar-se inverosímil.”
MEDO DE ARRISCAR
Actriz, 26 anos, Mina Andala acha que, em Portugal, ainda não chegou o tempo de protagonismo para os actores negros: “Produtores e encenadores têm medo de arriscar. Começa a haver vontade, mas ainda há receio”, afirma ao Correio TV.
Tozé Martinho desmonta, contudo, o temor de que fala a jovem actriz. “Os actores negros são escassos e têm menos experiência. Uma novela pode custar um milhão de contos e é muito arriscada a escolha de um actor pouco experiente. E seleccionar um actor só porque ele é negro é uma atitude tão racista quanto a da exclusão.”
Ângelo Torres contrapõe esta opinião de Tozé Martinho. “Essa afirmação sobre a inexperiência dos actores negros não tem qualquer fundamento. Quantos actores brancos sem experiência não foram já seleccionados para os elencos?”, questiona.
Cláudia Semedo, de 21 anos, actriz na novela ‘O Jogo’, em exibição na SIC, e umas das repórteres de ‘Êxtase’, diz que é preciso dar mais oportunidades aos negros. “Mesmo sendo uma minoria demográfica, não temos representação no ecrã”, desabafa.
No jornalismo televisivo, o panorama é idêntico. Há sete anos, quando chegou à SIC, Daniel Nascimento, repórter no ‘Caras Notícias’, ficou chocado quando percebeu que era o único negro na redacção. “Mas nunca me senti marginalizado”, conta.
A PRIMEIRA VEZ
Na RTP, Maria João Silveira, jornalista, apresentou em 1992 o programa ‘Euroritmias’ e tornou-se a primeira apresentadora negra em Portugal. Ainda hoje recorda a polémica que o acontecimento gerou: “A imprensa sublinhou a ocorrência e, num inquérito de rua realizado por uma revista, os resultados foram bem reveladores da muita ignorância que ainda existia no país… Alguns dos inquiridos sugeriam que fosse para a minha terra!.”
No dia-a-dia, Maria João Silveira tem “imensas histórias” de discriminação para contar. Mas a nível laboral não tem razão de queixa. Porém, ainda não esqueceu o dia em que um colega a questionou por que não ia trabalhar para África…“Eu não me posso queixar, mas tenho amigos, noutras profissões, que não progrediram nas carreiras por causa da cor da pele”, diz a jornalista que nasceu em Angola, há 38 anos, e foi uma das apresentadoras de ‘Portugal no Coração’, com José Carlos Malato e Merche Romero.
Maria João Silveira é peremptória quando diz que “a cor da pele não deve ser argumento contra ou a favor da presença das pessoas num meio ou profissão”. “Deve-se ser avaliado pelo empenho, capacidade e talento. Caso contrário, e à semelhança da existência de quotas para a presença das mulheres nos partidos, teremos quotas para a colocação de negros na televisão. E com isto eu não concordo”, sublinha.
E a realidade que Maria João Silveira contesta é a contemplada num projecto que está em discussão no parlamento brasileiro e que determina uma quota obrigatória de 25 por cento de negros na televisão e no cinema.
Tozé Martinho, por seu turno, alerta: “A simples preocupação de ter de se escrever sobre este assunto, ou de ter de se falar dele já é estranha, quase preconceituosa… Negros e brancos estão misturados na nossa sociedade e a sua visibilidade televisiva tem de ser natural”, remata.
TIBÚRCIO “NÃO OFENDE”
O Tibúrcio é uma das personagens mais famosas do humorista Fernando Rocha, popularizado pelo programa da SIC ‘Levanta-te e Ri’. O actor conta as anedotas com grande à-vontade, porque, garante, “não ofende ninguém”. E explica porquê. “Em Portugal já temos uma elevada percentagem de negros. E o Tibúrcio representa o homem simples e pouco instruído da população luso-africana. O Tibúrcio é como o alentejano ou a Rosa peixeira e é sempre o herói das minhas anedotas”, explica ao Correio TV.
Fernando Rocha explica que não toma a parte pelo todo e a prova de que quem o ouve parece entender a mensagem é que é muitas vezes abordado na via pública por cidadãos que se apresentam como Tibúrcio e lhe pedem autógrafos. “Sou incapaz de ofender o povo. Mais facilmente mando uma boca a um político, a uma pessoa individual, do que a uma classe de pessoas”, explica.
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