Barra Cofina

Correio da Manhã

Tv Media
9

A HORA DO ESPECTÁCULO

A televisão é o palco por excelência da batalha eleitoral nos EUA. Discursos inflamados, patriotismo exacerbado, trocas de acusações e o colorido do ‘merchandising’ político marcam a mediática campanha para as presidenciais norte-americanas.
4 de Setembro de 2004 às 00:00
O espectáculo da política tem o seu expoente máximo nas eleições presidenciais dos EUA, este ano disputadas pelo actual chefe de Estado, George W. Bush, representante do Partido Republicano, e pelo Democrata John Kerry, senador do Massachussets. As campanhas eleitorais são estudadas ao pormenor por gestores de imagem e criativos, ao serviço dos candidatos à Casa Branca, que desenvolvem agressivas estratégias de marketing. As eleições terão lugar no próximo dia 2 de Novembro e, até lá, não haverá tréguas.
As convenções dos principais partidos norte-americanos, Democrata e Republicano, transmitidas em directo por televisões em redor do país, são o ponto alto de ambas as campanhas. Oficialmente convocadas para apresentar os nomes dos candidatos à presidência e vice-presidência, as convenções políticas são, na realidade, uma forma de vender a imagem do futuro líder da nação, através de discursos emotivos, carregados de patriotismo e ‘slogans’ fortes, à mistura com balões coloridos e ‘confetis’.
A convenção do Partido Democrata, que teve lugar entre os dias 26 e 29 de Julho, em Boston, contou com oradores ilustres como o ex-presidente Bill Clinton, a sua mulher, Hillary Rodham Clinton, Ted Kennedy, Jesse Jackson e ainda o candidato à vice-presidência, John Edwards.
A entrada triunfal de John Kerry, que saudou o público com uma continência, apresentando-se ‘ao serviço’ do país, e o discurso fervoroso do afro-americano Barack Obama, senador do Illinois, foram os momentos mais quentes do congresso.
SIMBOLISMO REPUBLICANO
Quanto aos Republicanos, escolheram o Madison Square Garden, em Nova Iorque, para albergar a sua convenção, que terminou na passada quinta-feira. A escolha de Nova Iorque para a organização do congresso, pela primeira vez em 150 anos de história do partido, não foi obra do acaso. Os detractores do actual presidente acusam--no de se servir do atentado de 11 de Setembro de 2001 para apelar à emoção dos eleitores. As críticas não são injustificadas já que, logo no dia de abertura, o atentado terrorista foi recordado no discurso de Rudolph Giuliani, antigo presidente da câmara de Nova Iorque, que comparou Bush a estadistas como Ronald Reagan e Winston Churchill, pela capacidade de manter uma forte liderança num período de crise.
Entre os oradores convidados contaram--se ainda o actor Arnold Schwarzenegger, na qualidade de governador da Califórnia, Michael Reagan, filho do ex-presidente Ronald Reagan, e Zell Miller, um membro do Partido Democrata que nestas eleições optou por apoiar a candidatura de George W. Bush. O encontro dos Republicanos foi acompanhado por várias acções de protesto, levadas a cabo por organizações de homossexuais, activistas pró-aborto, estudantes e cidadãos nova-iorquinos consternados com o aproveitamento político do atentado às Torres Gémeas.
CAÇA AOS VOTOS NA TV
Uma das principais armas utilizadas para captar o voto dos indecisos é o anúncio televisivo. Só no mês de Julho, a soma das despesas de todos os candidatos à presidência dos EUA ultrapassou os 30 milhões de euros, investidos em cerca de 30 mil blocos publicitários. Esta invasão do espaço televisivo não é uma novidade para o espectador norte-americano. A título de exemplo, na campanha de 2000, que opôs George W. Bush a Al Gore, foram emitidos mais de 245 mil anúncios. Prevê-se que, este ano, o número de ‘spots’ alcance o dobro da última campanha eleitoral.
No que diz respeito à temática dos anúncios, Bush optou por uma estratégia semelhante à de Ronald Reagan nas eleições presidenciais de 1984. O ‘spot’ mais célebre do ex-presidente, intitulado ‘Prouder, Stronger, Better’ (‘Mais Orgulhoso, Mais Forte, Melhor’), constituído por imagens do quotidiano, carregadas de simbolismo, mas isentas de ideias, foi actualizado pela versão Bush, ‘Safer, Stronger’ (‘Mais Seguro, Mais Forte’).
Por seu turno, Kerry, que encontrou um modelo no carismático Bill Clinton, acabou por seguir o mesmo padrão, colocando de lado o debate de questões fundamentais, para se centrar em generalidades e em imagens que apelam ao coração dos espectadores. Entretanto, conforme se aproxima o dia decisivo e as preferências dos eleitores oscilam nas múltiplas sondagens realizadas, a abordagem mudou radicalmente. Actualmente as acusações mútuas marcam a campanha eleitoral na TV.
A BATALHA DOS ANÚNCIOS
Apesar de ambas as campanhas terem começado com anúncios emotivos, que apelavam ao patriotismo e à unidade familiar, rapidamente as televisões tornaram-se um campo de batalha entre os candidatos Democratas e Republicanos. Enquadra-se nesta fase o ‘spot’ Republicano que inclui imagens de um jovem John Kerry, recém-chegado do Vietname, a depor perante a comissão do Congresso sobre alegadas atrocidades cometidas pelos americanos.
Igualmente grave é a acusação feita ao Democrata de ter abandonado o teatro de guerra por ter sofrido meras “feridas superficiais”. Kerry, que proclamou com orgulho ter combatido no Vietname, viu a sua imagem abalada e ripostou. Os anúncios do Partido Democrata passaram então a ter como alvo os erros do actual Presidente e a criticar as agressões pessoais a Kerry feitas durante a campanha de George W. Bush e Dick Cheney, candidato à vice-presidência.
ESTRELAS FAVORECEM KERRY
Numa sociedade espectáculo como a norte-americana, as estrelas de Hollywood são um trunfo a favor de John Kerry. Vedetas como Warren Beatty, Ben Affleck, Barbra Streisand, Bette Midler, Gwyneth Paltrow, Jerry Seinfeld, Uma Thurman, Jamie Lee Curtis e Steven Spielberg colocaram-se ao lado do candidato do Partido Democrata e ajudaram-no a recolher fundos para financiar a campanha eleitoral.
Já George W. Bush e Dick Cheney parecem ter dificuldades em conquistar o apoio das celebridades. Excluindo Arnold Schwarzenneger – que além de actor é também um membro do Partido Republicano e governador da Califórnia –, poucos são os profissionais da televisão e do cinema a dar o seu apoio aos Republicanos.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)