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Correio da Manhã

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A jornalista que gosta de ouvir

Ana Sousa Dias não gosta de exposição pública, mas contracenar com Marcelo na RTP atirou-a para o centro do mundo. Aos 48 anos, é na televisão como na vida real: serena e boa ouvinte, garantem os amigos.
11 de Março de 2005 às 00:00
Ana Sousa Dias
Ana Sousa Dias FOTO: d.r.
É um caso único no jornalismo televisivo português. Num momento em que o panorama se rege pela agressividade e rapidez, Ana Sousa Dias, 48 anos, mãe de três filhos, mantém uma imagem reservada e intimista em programas que deixam a conversa fluir. É assim em ‘As Escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa’, o programa dominical da RTP1 onde assume o difícil papel de interlocutora do comentador mais temido da televisão portuguesa. Já assim era em ‘Por Outro Lado’, um registo único em exibição na 2:, onde sempre se reservou o direito de escolher os seus entrevistados, apenas porque lhe são interessantes.
Mas, destacam os amigos, é precisamente o seu enorme fascínio pelas pessoas e a persistência em querer mostrar o lado menos visível das coisas que move a jornalista, distinguida em 2003 com o ‘Grande Prémio Gazeta’. Atribuído pelo Clube dos Jornalistas.
“Ser jornalista é ter um acesso directo aos que fazem o mundo acontecer e ter a possibilidade de contar as novidades aos outros. É um privilégio, é assim que o entendo, e deve ser usado com sensibilidade e rigor”, sublinhou a própria, por ocasião da entrega do galardão.
Essa é também a ideia que fazem dela os mais próximos. João Paulo Velez, antigo jornalista e assessor do primeiro-ministro cessante, Pedro Santana Lopes, trabalhou com a jornalista no jornal ‘Público’ e na Expo’98, onde foi director de comunicação. “Tenho com ela uma forte relação de amizade e vejo-a como alguém com uma enorme sensibilidade jornalística e uma atenção invulgar para os temas da sociedade e para abordar as pessoas”, disse à Correio TV.
FRUTO DO ACASO
Ana Sousa Dias entrou no jornalismo “por um acaso”. “O pai de uns amigos era jornalista da ‘República’, depois de umas traduções achou que eu não escrevia mal”, conta a própria. A influência familiar também pesou, reconhece a jornalista, que tem um irmão e um sobrinho fotojornalistas e um outro irmão repórter, correspondente da Lusa na Guiné.
Aprendeu nas redacções, porque na época não havia cursos de comunicação social, e fez carreira na imprensa. Começou no ‘O Diário’ e distinguiu-se no ‘Público’, onde cobriu as áreas da Cultura e da Educação.
Mãe de Manuel (25 anos), Catarina (20) e Rosa (12) optou pelos semanários quando nasceu a terceira filha, porque “fraldas e leite em pó” não eram compatíveis com os horários de um jornal diário, disse.
Integrou as redacções das revistas ‘Focus’ e ‘Ícon’, colaborou com ‘A Capital’ e o ‘Expresso’. Em 2000, passou a trabalhar em regime de ‘free-lancer’ e a colaborar com várias publicações, nomeadamente o suplemento cultural do jornal espanhol ‘ABC’. Actualmente tem um programa semanal na Antena 1 e colabora para a revista ‘Sabado’.
ENFIM, A TELEVISÃO
À televisão chegou tarde. Estreou-se em Janeiro de 2001 com o programa de entrevista ‘Por Outro Lado’ e o seu estilo único é considerado “um oásis” no panorama actual. Para a jornalista, é tudo uma questão de tempo: 55 minutos disponíveis sem a “preocupação de estar a fazer actualidade”. “É um privilégio qualquer que eu recebi, não sei bem porquê, mas que me foi entregue, e se mantém desde o início: poder fazer entrevistas com tempo”, disse em entrevista à revista ‘Meios’.
Mas, para provar que os registos também mudam, Ana Sousa Dias assume agora uma nova tarefa. Com ‘As Escolhas de Marcelo’, estreia-se nos directos televisivos, a medir palavras sobre temas políticos, com um interlocutor exuberante e num curto espaço de tempo. Um novo desafio, sobretudo para quem cultiva a discrição e foge dos holofotes: na semana de estreia, o programa teve 1,6 milhões de espectadores e, no domingo passado, foram mais 1,3 milhões de portugueses a ver a emissão.
CULTA E RESERVADA
Habituado a partilhar ideias, Rebelo de Sousa descreve a sua interlocutora como uma pessoa reservada, tímida até. “Conheci-a por volta de 1989, já ela era jornalista do ‘Público’ e cobria a Câmara Municipal de Lisboa. Que ideia guardo dela nessa altura? Era muito nova, claramente de esquerda, eu diria, naquela altura, da área do PCP, mas nunca lhe perguntei”, referiu o professor catedrático à Correio TV.
Para o ex-líder do PSD, a jornalista já nessa altura era “culta, inteligente, muito pouco faladora, tímida, e uma mulher muito bem informada, que estudava muito bem os dossiês”. Durante cerca de dois anos, “acompanhou semana a semana a actividade da Câmara Municipal de Lisboa com grande competência e eficiência. E, embora muitas vezes os juízos que ela formulasse não me fossem favoráveis, devo dizer que achei sempre que fazia tudo com grande conhecimento e grande seriedade profissional”, acrescenta.
Apesar de estarem ambos ligados à cultura, quis o destino que o professor e a jornalista não mais se encontrassem até ao dia 6 de Outubro de 2004, quando ambos colaboraram num encontro no Centro Colombo. “Era uma conversa entre duas pessoas com notoriedade pública, que faziam perguntas uma à outra. Por coincidência, pois estava marcado com muita antecedência, acabámos por ter esse encontro no dia em que deixei a TVI. Depois, não voltámos a encontrar-nos até que há cerca de três semanas a RTP me comunica ter escolhido a Ana Sousa Dias para intervir no programa ‘As Escolhas de Marcelo’”, conta.
Nos dez dias “de conversa e troca de impressões” que antecederam a estreia do novo formato, Marcelo confirmou a ideia de estar perante alguém que “é competente, estudiosa, e leva muito a sério aquilo em que se mete”.
DAR ESPAÇO AO OUTRO
Não deixa, no entanto, de ser curioso que logo após a estreia na RTP1, a jornalista tenha referido que “se não encontrasse o tom ao fim de dez sessões” deixava ‘As Escolhas de Marcelo’. “Esse é o retrato da Ana”, reconhece António Mega Ferreira, amigo pessoal da jornalista. “Não sei se encontrou o tom ou não, mas ela é de uma enormíssima exigência no seu trabalho e nas coisas que faz.”
E o retrato de frontalidade e clareza é transversal a todos os que são próximos. “No nosso espaço público há cada vez mais organizações e pessoas – não só jornalistas – que estragam todos os assuntos em que tocam. A Ana Sousa Dias sempre foi o contrário deste modo de usar as questões, as pessoas e os problemas para se fazer notada à custa da simplificação dos casos que abordava”, destaca Jorge Wemans, ex-director do jornal ‘Público’ e actual director de comunicação da Fundação Calouste Gulbenkian.
“A sua escrita, a relação que mantinha com as fontes e o seu olhar de repórter nunca se encaminhavam para a destruição dos temas que tratava, ou para textos taxativos, daqueles que evitam que o leitor pense. Este modo de ser jornalista e a sua atenção a assuntos em que mais ninguém sabia ou conseguia pegar são os traços profissionais mais distintivos da Ana com quem trabalhei. Creio que hoje continua igual a si própria”, acrescenta.
Como que a confirmar esta ideia, também João Paulo Velez reconhece que as dificuldades sentidas na estreia de ‘As Escolhas de Marcelo’, só mostram o grande cuidado que a jornalista tem “em dar espaço ao seu interlocutor”.
“Fico muito satisfeito, como amigo e admirador profissional, de a ver neste programa com o professor Marcelo. Pois ela tem sempre um grande respeito pela pessoa que está a entrevistar, mesmo que com ela tenha algumas divergências”, acrescenta.
O ELOGIO DA PEDAGOGIA
Descrevendo a jornalista como uma pessoa “suave, reservada, não mais tímida do que são as pessoas normais e inteligentes”, Mega Ferreira não via Ana Sousa Dias noutra profissão que não o jornalismo: “Ela traz a diferença àquilo que podemos chamar a poluição sonora e visual da televisão em Portugal”. “O programa dela [‘Por Outro Lado’] não se confunde com mais nada, é um caso completamente único e essa diferença é uma diferença em direcção à qualidade, à exigência… a uma certa convivialidade”, destaca.
“No fundo”, sintetiza, “Ana Sousa Dias tem algo que é fantasticamente pedagógico. Ela mostrou que há dez milhões de pessoas ‘entrevistáveis’ em Portugal. De todas as entrevistas que fez, apenas uma pequena parte são personalidades públicas, as outras são conhecidas no seu meio. Isso é que é extraordinário e tem a ver com a sua enorme vontade de conhecer as pessoas. Ela entusiasma-se muito com histórias extraordinárias. Geralmente, nós entusiasmamo-nos com as pessoas, mas depois esquecemo-nos delas, ela não…”.
MULHER DOS SETE OFÍCIOS
Mais do que o jornalismo, é a novidade que move Ana Sousa Dias. Dividida entre a televisão, os livros e a família, “tem alguns dilemas, porque faz muitas coisas ao mesmo tempo”, observa o escritor António Mega Ferreira, seu amigo de longa data.
“Por vezes, telefona-me, cheia de problemas existenciais”, confessa à Correio TV. “O grande desafio é articular isso tudo com uma vida muito rica, pois a Ana tem uma vivência familiar muito entranhada, no sentido de manter os valores, do ir a casa fazer o jantar para os filhos, estar com eles, saber onde eles estão… e depois eles correspondem-lhe”, conclui.
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