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Correio da Manhã

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A liberdade deve ser total no humor

A irreverência e ironia dos Gato Fedorento já lhes valeu uma queixa na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Os humoristas protagonistas da série Lopes da Silva, em exibição na RTP 1, criaram um ‘sketch’ em que pretendiam retratar a forma como os idosos são tratados pela sociedade. Mas um telespectador não apreciou a forma como o tema foi tratado e insurgiu-se. Produtores e autores da série refutam acusações.
19 de Maio de 2006 às 00:00
Os Gato Fedorento ficaram surpreendidos com a queixa apresentada na ERC
Os Gato Fedorento ficaram surpreendidos com a queixa apresentada na ERC FOTO: Pedro Aperta, Jornal de Negócios
Foi o advogado e ex-membro da extinta AACS – Alta Autoridade para a Comunicação Social (substituída pela ERC) – Jorge Pegado Liz quem apresentou a queixa contra a RTP, alegando que no ‘sketch’ “os idosos são tratados como ‘descartáveis’ e os jovens ‘aconselhados’ a deitarem-nos no ‘vidrão’”. Segundo este telespectador, trata-se de uma “manifesta violação dos valores fundamentais da nossa sociedade, como a dignidade humana”.
Nuno Artur Silva, da produtora do Gato Fedorento – Produções Fictícias –, defende ao CM que “a queixa é uma estupidez. É um ‘sketch’ de humor e na situação é utilizada uma figura de estilo que é a ironia, entre outras. Acho que a entidade reguladora tem muito mais que fazer e gostava de a ouvir a pronunciar-se sobre muito mais coisas”. Para o responsável, não há limites para o humor, “a não ser os que o humorista decida no momento e depois ele sofre as consequências do que faz”.
“A liberdade deve ser total para fazer tudo sobre todos os temas”, refere Nuno Artur Silva, concluindo: “Quando falamos de proibir estamos no reino do disparate.”
O ‘gato fedorento’ Ricardo Araújo Pereira duvida que a ERC “não arquive o processo”. E estranha o facto de um ex-membro da AACS “tomar aquilo que está a ser dito ironicamente à letra”. “É uma coisa tão surpreendente para mim... até certo ponto foi divertido, mas por outro lado também foi trágico”, declara.
Para Ricardo Araújo Pereira, os limites do humor deverão ser impostos pelo próprio artista. “Se a liberdade de expressão deve ser ilimitada, o humor também deve beneficiar disso. Portanto, os limites são aqueles que cada pessoa impõe a si própria, os do bom gosto. Pode fazer-se humor sobre qualquer tema”, conclui.
Estrela Serrano, da ERC, disse ao CM que não comenta “processos em análise”, por isso mantém o silêncio sobre o caso.
Na RTP o caso do ‘sketch’ “Ponha o velho no Velhão” está entregue ao departamento jurídico.
"GIGANTESCO AUTOCENSOR"
O humorista Herman José não considera ofensivo o humor dos Gato Fedorento e diz que a sua profissão deve ser vista com outros olhos. “O humor tem que ser um caso à parte, tem de estar como válvula de escape e não se pode atribuir a uma paródia a mesma carga de agressividade que a uma declaração, se não perdemos a única válvula de escape que nos resta”, refere.
E o popular humorista revela ainda que, com o passar dos anos, deixou de abordar “uma quantidade de campos só para não ter chatices. Sou um gigantesco autocensor, porque me cansei de remar sozinho”.
EXEMPLO EM PROGRAMA
Fátima Campos Ferreira utilizou o ‘sketch’ em questão num dos seus ‘Prós e Contras’, cujo tema era a solidão. A jornalista diz que se trata de um exemplo de como a sociedade actual lida com os idosos. “Muito mais ofensiva é a nossa atitude diária de passarmos ao lado dessas questões, de não sermos solidários com ela, de não a debatermos e de fazermos de conta que elas não existem. Aquele ‘sketch’ é uma forma forte de chamar a atenção para uma realidade social que é muito grave”, refere.
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