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Correio da Manhã

Tv Media
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A pluralidade é um mal necessário

À frente do ‘Jornal da Uma’, da TVI, Henrique Garcia vende a imagem de sobriedade desejada por um público conservador. Não concebe a ideia de dar uma notícia a rir, a não ser quando ouve algumas “declarações políticas”. Aos 57 anos, continua a não querer falar da sua saída “desgraçada” da RTP e garante desconhecer quando arrancam os canais de cabo da TVI, que vai dirigir…
11 de Março de 2005 às 00:00
Henrique Garcia
Henrique Garcia FOTO: d.r.
O ‘Jornal da Uma’ cresceu nas audiências e, apesar de continuar a ser o menos visto dos três canais, já compete com os outros. Que análise faz desse percurso?
Começámos a fazer o ‘Jornal da Uma’ com a ambição de nos aproximarmos e até bater a concorrência. Mas estamos a falar de um produto em que há hábitos. As pessoas consomem determinado jornal e mantêm-se fiéis e, por isso, esse percurso faz-se de forma lenta. É preciso ganhar a confiança de quem nos vê e conseguir trazer para o nosso canal quem habitualmente via outro jornal.
O público da hora do almoço é mais conservador?
Por acaso, estava a falar do público em geral, mas o da hora do almoço é mais conservador e fiel. De uma avaliação que fizemos, concluímos que esse ainda é o único período em que o homem, o ‘dono da casa’, tem o comando na mão. Porque durante o resto do dia, quem tem o comando são as crianças ou as mulheres.
A concorrência, nesse horário, é feroz?
O ‘Jornal da Tarde’, da RTP, lidera nessa hora e tem uma grande tradição, porque foi o primeiro e fidelizou esses espectadores, que são eminentemente conservadores. Portanto, há que tentar encontrar motivos que interessem a esse público, falar dele, aproximarmo-nos das coisas que o preocupam, dos problemas das comunidades, do cidadão comum…
Mas há alguma fórmula?
Não pode haver sobressaltos. As pessoas sabem que o pivô que lhes aparece é sempre o mesmo, alguém que lhe merece ou não confiança, um tipo em quem acreditam ou não, que é credível ou não, e é com base nesses pressupostos que se tentam estes resultados.
A sua imagem, mais sóbria, contrasta com a da Manuela Moura Guedes, no ‘Jornal Nacional’, das 20h00…
São dois horários diferentes, com alvos completamente diferentes. Suponho que o horário da noite é mais aberto. Há mais gente e um público mais diferenciado.
“A RTP ESTAVA COLADA AO PODER POLÍTICO”
Ao iniciar a sua carreira, só havia a RTP. Que papel teve, na sua geração, essa televisão?
Até ao aparecimento das privadas, a televisão em Portugal viveu de acordo com as épocas que atravessámos. Era uma imagem muito nítida da situação, do poder instalado, da confusão que foi o 25 de Abril, do abalo causado com essa revolução. A televisão sofreu dessas vicissitudes todas. Estava demasiado dependente e colada ao poder político, e portanto reflectia-o.
Diz-se que, com as privadas, a informação dos três canais melhorou e a programação piorou. Em sua opinião, isso corresponde à verdade?
Quando só havia uma televisão, ela podia, quanto à programação, esquecer as audiências. E podia também escolher o melhor, de toda a oferta que havia no mercado internacional. Portanto, a RTP podia comprar uma série da BBC, uma boa novela da Globo, e dar-se ao luxo de rejeitar o que não era tão bom. Não tinha de se preocupar com as audiências, pois não havia com quem comparar.
Mas é inegável que a televisão tinha qualidade…
Não estou a dizer que agora não tenha. Agora está tudo mais dividido. E as televisões privadas têm de gerar receitas, sem as quais não podem cumprir as suas obrigações, quer com os seus trabalhadores, quer com os bancos… É óbvio que a televisão se tornou mais comercial, os intervalos têm mais publicidade, mas é o único serviço gratuito em Portugal. Fazer televisão é muito caro e os anunciantes só põem um anúncio em determinado canal se estiver alguém a ver, audiências. Essa pluralidade, digamos assim, é um mal necessário.
Como assim?
É o preço a pagar por deixarmos de ter apenas uma televisão, que era paga pelo Orçamento do Estado, e termos também canais privados, que são obrigados a gerar receitas e a ser concorrenciais.
Acha que a RTP melhorou?
Confesso que sou um espectador muito desatento. Quase não vejo televisão.
Está descontente?
Não tenho tempo. Estou lá dentro e não vejo porque estou a trabalhar. É claro que vejo a informação, os debates, mas não sou um espectador muito regrado… Pico, vejo, e ando para a frente.
Mas tem uma ideia da nova RTP?
Claro. Mudou e modernizou o visual. Tornou-se, desse ponto de vista, mais atractiva. Tem uma imagem mais transparente, espaços mais amplos, que deixam perceber que atrás de quem está a falar há mais gente… Com tudo isso, a RTP aproximou-se daquilo que a SIC e a TVI criaram. Mas no conteúdo, não alterou grande coisa.
JORNALISTA POR ACIDENTE
Saiu da RTP, onde era uma cara conhecida, foi para a TVI. Como é envelhecer na televisão?
É fantástico. Sabe, eu tenho o curso de engenharia mecânica e, há uns anos, um dos meus ex-colegas, que é engenheiro, lembrou-se de nos reunirmos pelo menos uma vez por ano. Todos me conheciam e eu já não sabia quem era metade. A vantagem de envelhecer em frente a toda a gente é que todos me reconhecem. É muito tranquilo.
Como foi a sua saída da RTP?
Não quero falar disso. Foi tempestuosa, desgraçada…
Com um curso de engenharia, como se tornou jornalista?
Foi um acidente na história. Aos 15, 16 anos comecei a fazer rádio. Mas não fazia jornalismo, punha discos, fazia programas com música e conversa… Estava a acabar o curso, quando chegou o 25 de Abril. As fábricas começaram todas a falir, a ser ocupadas, e não havia empregos. Como tinha essa experiência da rádio resolvi ir à Emissora Nacional pedir emprego. E aceitaram-me.
“A DEMOCRACIA ESTÁ EM CRISE”
Acha que as pessoas estão novamente mobilizadas para a política?
A campanha que vivemos recentemente aconteceu num momento de grande crispação. Mas desde o 25 de Abril, já se viveram grandes momentos políticos. O aparecimento da AD teve franca mobilização do eleitorado e isso não se passa hoje. Acho que a política se tem vindo a afastar dos cidadãos. A democracia está em crise e os políticos estão a dar um triste espectáculo. Ninguém acredita…
Se há televisão generalista que aposta nos debates políticos, é a RTP…
Tem essa obrigação.
… enquanto a TVI privilegia a ficção nacional.
E dá muito trabalho a actores, músicos e produtores. Aquelas produções não são da estação, são encomendadas a empresas que empregam muita gente.
Como se faz essa concessão, de querer informar estando num canal que privilegia o entretenimento?
Tive essa discussão há muitos anos, com um amigo meu, que hoje é juiz. Na altura em que apareceu uma corrente de cinema preocupada com o social, eu consumia isso. E esse meu amigo, que é um homem de cultura, ia ver as comédias americanas, divertia-se imenso, e insistia que aquilo funcionava como um escape. Via umas palhaçadas com graça e saia de lá bem disposto… e aprendi nessa altura que temos de nos rir.
E ainda defende isso?
Francamente. Vejo a sociedade tão degradada, que, de vez em quando, tenho de ver outra coisa, como a ficção televisiva. Não vejo mal nenhum nisso. Há, obviamente, coisas que são bacocas, de mau gosto. Mas há produtos bem feitos, como ‘Os Batanetes’, ‘Os Malucos do Riso’, que de vez em quando soltam uma piada e a gente ri-se.
Ficou-lhe algo da formação em engenharia?
A minha capacidade de síntese é muito grande e tenho tendência para fazer sempre pivôs (ndr: textos de apresentação das peças) muito curtos. Dizem que não me rio, que sou muito cinzento mas também não percebo como se pode rir a fazer um noticiário. A não ser quando oiço algumas declarações políticas, porque aquilo é mesmo hilariante. Agora, quando damos a notícia de cinco rapazes que morreram num desastre de automóvel, estamos a noticiar uma tragédia.
CANAIS CABO SEM DATA
O Henrique Garcia foi indicado para dirigir os canais cabo da TVI, que entretanto não avançam… Como está esse processo?
Não lhe sei responder.
Iria exercer um cargo semelhante ao do Francisco Penim, na SIC?
Não sei como é que esses canais estão. Ainda recentemente li que a Portugal Telecom (PT) já tinha canais reservados para a TVI… Só sei que há uns anos me foi pedido para apresentar alguns projectos, designadamente para um canal de economia. Estou à espera que a TVI e a PT se entendam e depois que, eventualmente, o meu director-geral continue a achar que devo ser responsável por isso. Tudo pode mudar e nada é definitivo.
Acha que ainda há mercado para isso?
Acho.
Seria um canal do género da SIC Notícias?
Não poderia ser um canal tipo Bloomberg (americano), que é muito específico. Teria de ser algo mais aberto, também virado para o consumidor, para os pequenos universos que giram na nossa vida e que têm muito peso na economia, mesmo que quase não se dê por isso.
“FAZER PUBLICIDADE NÃO TRAZ MAL AO MUNDO”
Fez a campanha do BCI e nunca mais fez publicidade…
Não.
Porquê?
Não sou um homem da publicidade, nunca estive para aí virado. Mas houve um momento em que fui, como S. Pedro, desafiado três vezes. Fiquei sem saber o que fazer. E depois, achei que não vinha mal nenhum ao mundo. Já passaram 15 anos e isso ficou provado.
E porquê não fazer mais?
A independência do jornalista, como de qualquer profissional, só é reforçada havendo tranquilidade quanto ao seu futuro. Quando aceitei fazer o anúncio, já sabia que me iam cair os puros todos em cima, mas ganhei uma margem de conforto suficiente para aguentar isso e, portanto, corri o risco.
Não foi um grande risco…
Suspendi a actividade e entreguei a carteira durante seis meses. O anúncio tinha a vigência de um mês, porque publicitava a descida da taxa de crédito à habitação para um dígito só. E era irrepetível, porque o contrato que assinei a isso obrigava. Fiz, aquilo durou um mês, mantive-me afastado durante seis meses, em que aproveitei para descansar e ler outras coisas. Ao fim desse tempo voltei à actividade, pedi a carteira e pronto….
Critica-se mais um jornalista que suspende a actividade para fazer publicidade do que para ser, por exemplo, assessor de um político…
Se calhar nem suspendem… Acho isso muito mais perigoso.
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